Vitórias de Raphael Logam: Ator concorre ao Emmy Internacional por atuação em Impuros

Filho de doméstica e funcionário público, ele colhe frutos de trabalhos potentes em séries


  • 15 de novembro de 2019
Foto: Sergio Baia


Na contramão de atores que transitam mais pela TV aberta como vitrine, Raphael Logam tem comemorado conquistas significativas na carreira pelo trabalho em séries. O carioca de 33 anos, que ganhou projeção em 2012 ao ser indicado ao Prêmio Zilka Salaberry pela atuação no espetáculo Macunaíma - Uma História de Amor, está lista de indicados ao Emmy Internacional 2019, na categoria Melhor Ator, pelo Evandro, protagonista da série Impuros, da Fox. “Se eu ganhar vai ser um presentão para a minha mãe, que está de aniversário no mesmo dia”, conta ele sobre o premiação, no dia 25 de novembro, em Nova York.

Para o ator, filho de uma empregada doméstica e de um funcionário público, a representatividade de atores negros na dramaturgia nacional apresenta uma melhora, mas ainda falta espaço. “Os produtores e diretores precisam acreditar mais e arriscar, porque nós estamos preparados”, avisa o orgulhoso pai de Sofia, de 12 anos. Com 33 anos, Raphael iniciou a carreira aos 14, na peça O Despertar da Primavera. No cinema, participou de trabalhos como Irma Vap - O Retorno, Última parada 174, Simonal e Doidas e Santas. Na TV, fez as séries Turma do Pererê, da TV Brasil, A Lei e o Crime, da Record TV, e Questão de família, do GNT.

Como recebeu sua indicação pro Emmy por seu trabalho em Impuros? Recebi com bastante surpresa. Estava em casa quietinho, recuperando de uma dor de garganta. De repente, vi meu celular com centenas de mensagens e dezenas de ligações Levei o maior susto. Mas depois foi só alegria. A expectativa é grande sim até porque calhou do prêmio acontecer no dia do aniversário da minha mãe, que é a pessoa mais importante da minha vida.

Cada vez mais as séries brasileiras ganham destaque, agora essa indicação de Impuros ao Emmy. Acha que esse formato está caindo também nas graças do público como as nossas novelas? As novelas brasileiras sempre se destacaram na produção internacional, isso é inegável. A qualidade e a excelência da nossa produção de novelas já está provada. O que eu acho que muda, agora, é que as nossas séries estão começando a ser reconhecidas no mesmo patamar. É muito gratificante ver esse reconhecimento acontecendo!

Evandro (Raphael Logam). Foto: Fox Premium/Divulgação

Em Impuros você faz o traficante Evandro, um perfil de personagem muito interpretado por atores negros, mas nessa série é o protagonista. Como analisa a questão da representatividade na dramaturgia nacional? Evandro é um tipo de personagem, infelizmente, muito comum. Mas ele é um ponto fora da curva porque o natural entre os atores negros é fazer uma ponta, participação, pegando uma arma, matando, falando gíria, e isso é um estereótipo. O Evandro é traficante, mas ele desenvolve um arco dramático bem amarrado. Então, para dar vida a ele, precisei estudar e atuar realmente. Ele é um personagem difícil, por mais que já tenha feito algo parecido. Na dramaturgia, o espaço para os negros vem melhorando, mas os produtores e diretores precisam acreditar mais e arriscar porque nós atores negros estamos preparados.

A série, inclusive, vai ganhar terceira temporada. Como é fazer o mesmo personagem por tanto tempo? Sim, a primeira temporada foi um sucesso, a segunda foi deliciosa de fazer com 90% da mesma equipe...Temos muito pano pra manga ainda porque é um tema que rende muito.

Você também está em outra série Homens?, do Comedy Central. Como é transitar entre os mais variados estilos, do drama cotidiano ao humor? É outra série de sucesso da qual eu também tenho orgulho de fazer parte. É uma produção de comédia, mas que abordamos um assunto importante, que é o machismo. São quatro amigos na faixa dos 30 anos, bem-sucedidos mas que têm dificuldade de viver nesse mundo atual onde as mulheres estão empoderadas, fazendo acontecer... E esses homens estão perdidos. Eu mesmo, com 33 anos, me incluo nesse time que estou reaprendendo tudo, o que é muito bom. Minha filha tem 11 anos e já está vivendo num meio mais diferente do meu. E fazer isso com comédia fica leve.

O filme Pacified, do qual você também faz parte, ganhou prêmio em San Sebástian, na Espanha. Como analisa esse momento de sucesso dos projetos brasileiros no exterior? O Pacified foi lançado no fim de outubro em São Paulo. Eu ainda não tinha visto, mas boa parte do elenco já tinha. E agora fiquei surpreso. Ele passa uma mensagem verdadeira, que todo mundo tem que ver. O estilo “favela movie” realmente mostra o que é o Brasil... não adianta querer mostrar o Leblon, os bairros nobres somente. Eu posso dizer que, como carioca, o Rio tá pronto pra ser mostrado para o mundo nesse estilo porque nossa geografia é diferente de todas as outras. Todo bairro da cidade tem favela. No Rio, as pessoas têm que conviver juntas, no mercado a madame está na mesma fila da tia do morro, todo mundo se cruza, é tudo misturado. Então, com isso, você mostra a realidade e o contraste.

Foto: Sergio Baia

Tem vontade de fazer novela? Fazer novela é uma coisa que faz parte do nosso processo, da vida do ator. Se pintar um convite pra um personagem bacana, claro que vou querer. Quero fazer algo que fuja desse estereótipo do qual já falamos aqui. O que não quero fazer é um papel estereotipado. Vontade tenho sempre de trabalhar e mostrar o que a gente gosta de fazer.

Além de ator, você é mestre de capoeira, né? Sou contra-mestre de capoeira, que é uma graduação abaixo do mestre, ou seja, é o que toma conta da casa do mestre, que responde por ele. Uma profissão ajuda a outra com certeza. Faço capoeira há 31 anos, comecei aos 2 e faço teatro há 20. No teatro sempre tive noção de espaço que ganhei na capoeira. Tenho também uma noção corporal que peguei na capoeira, que educa muito. Capoeira é minha filosofia, diria até que é minha religião.

Você tem uma filha de 11 anos. Ela já desperta interesse pela arte? Não tenho uma filha, tenho um anjo! Ela é minha vida. Faço tudo por ela. Eu e a mãe dela somos muito amigos até hoje, mesmo ela estando num outro casamento. Sou até padrinho do outro filho dela. E graças a isso conseguimos criar a Sophia numa atmosfera de amor, que ela tenha sempre liberdade de escolha. Eu sou filho de uma empregada doméstica e de um funcionário público. Sophia é filha de um ator e de uma professora portuguesa que mora há anos no Brasil e trabalha na mesma escola onde Sophia estuda. Nessa escola, a arte é muito forte. Então, ela toca violino, piano, flauta e está perto do teatro. Ela já quer ser atriz e a minha sobrinha também é atriz. E esse meu amor pela arte e essa convivência desperta muito nela. E claro que se ela quiser ser atriz, vai ser atriz. Ela vai ser o que ela quiser.

Qual personagem dos seus sonhos? Não tenho algo específico. Quero é trabalhar, ser desafiado, mudar fisicamente, mudar a voz, sempre trabalhando. Sei o que não quero mais e estou lutando por isso.



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