Teresa Cristina: “Quantas cantoras negras de samba você vê patrocinadas?”

Ela revela como driblou depressão e virou a “rainha das lives”, com rede de amor, música e solidariedade


13 de maio de 2020

Foto: Leo Aversa

Por Luciana Marques

Nenhum cantor ou cantora desse país fez mais lives do que Teresa Cristina nessa quarentena. Mas mais do que lives, a sambista carioca cativa cada vez mais admiradores com uma rede de afeto, cultura, mu?sica, empatia e solidariedade. Todas as noites, ela reúne milhares de seguidores para cantar, homenagear artistas e apresentar cantores que se destacam de norte a sul do país. Além de ser visitada por nomes como Anitta, Conceição Evaristo e dividir a live com artistas como Caetano, de pijama na cama, Marina Lima, Daniela Mercury, Simone, Chico César...

E esse processo começou quando Teresa se viu entrando numa depressão no início da quarentena pela Covid-19. Ela contou como todo esse movimento de amor começou em um bate-papo em live no nosso Instagram. O sucesso tem sido tanto que é raro ter alguém que não tenha dado uma passadinha no Insta da cantora diariamente a partir das 22h. Os seguidores da artista conversam, se divertem, flertam e até fazem campanha para Teresa ganhar um patrocínio. Alô marcas, alô agências... “Quantas cantoras negras de samba você vê patrocinadas?”, pergunta Teresa.

Durante a conversa, a artista lembrou ainda momentos de sua vida como quando descobriu o seu lugar como mulher e negra na sociedade ao entrar na faculdade. Ela falou ainda sobre racismo e gordofobia na adolesce?ncia. 

INÍCIO DAS LIVES DE AFETO E ARTE“Minha mãe é grupo de risco, tem 80 anos, minha filha tem 11, e fui ficando em casa. E fui vendo, como para a minha profissão, sou cantora de samba, sobrevivo de cachê de show, de apresentação, e eu percebi que isso era uma coisa que para profissionais da minha área ia mudar radicalmente. Mudou tanto, que eu não tenho trabalho, estou em casa. E para dormir foi cada vez mais difícil e as atitudes deste desgoverno me deixaram muito preocupada. A gente luta pelo Covid e pelo covarde. Isso começou a me dar uma agonia. Fui ficando muito triste, deprimida e pensei. O que eu posso fazer para sair desse estado, preciso fazer algo. E comecei a gravar vídeos falando de samba de terreiro, de samba-enredo, de compositores, de compositores. Quando dei por mim, estava fazendo vídeos diários. E a cada dia a gente recebia notícia ruim, do números de mortes... Começou como um escapismo, mas ao mesmo tempo, eu tente criar uma rede de afeto, de acolhimento. Falar sim do que está acontecendo, mas procurar uma energia diferente, falar de amor, até de desamor, mas falar de poesia, de arte, de música. A gente precisa da arte, fomos demonizados. Num­­ momento como este a arte coloca a gente no colo e coloca a gente para dormir. Eu faço e estou conseguindo dormir.”

REDESCOBRIMENTO COMO MULHER PRETA - “Tanto no colégio primário, como no ginasial, quanto no segundo grau sempre havia aquela pessoa que me lembrava que eu era negra, que a minha pele era preta, me lembrava de um ajeito agressivo, de um jeito que me machucava, que me magoava. E eu escondia isso da minha mãe. E eu cresci com esse pensamento de que ser mulher preta era ruim, eu era maltratada, e que eu não queria ter nascido assim, pensei várias vezes durante a minha infância. Quando eu entro na UERJ, entrei querendo estudar literatura inglesa, eu queria ser intérprete das bandas de metal que viessem ao Brasil. E eu não me achava bonita e também muito na defensiva. Eu estava entrando num ambiente universitário, com milhares de pessoas, mas completamente tímida, fechada. E eu fui me politizando, eu comecei a pesquisar a obra de Candeia, troquei o meu curso por literatura brasileira, comecei a ler, a me enriquecer culturalmente. A leitura, somada à música do Candeia, eu comecei a redescobrir a minha beleza, me olhar no espelho e me achar uma mulher bonita.”

VEJA ABAIXO O BATE-PAPO COMPLETO COM TERESA CRISTINA: