Renato Livera: “Quanto menos a população pensa, mais a engrenagem desse poder desigual se fortalece”

Protagonista da série Matches, da Warner, ator vê seu monólogo Colônia estrear em NY


  • 18 de fevereiro de 2020
Foto: Rael Barja


Por Luciana Marques

Ao completar 20 anos de trajetória artística, iniciada no teatro, com trabalhos como o premiado monólogo Colônia, que será apresentado, em abril, em Nova York, Renato Livera vive uma nova e importante experiência na carreira. Ele é um dos quatro protagonistas de Matches, nova série da Warner Channel, que estreia nesta terça, 18, às  21h40. Na comédia sobre o universo de relacionamentos através de aplicativos digitais, ele vive o divertido Escovão. “A mensagem que vejo é que às vezes nós mergulhamos demais nas soluções virtuais e esquecemos de ver a realidade que está bem do nosso lado”, avalia.

Renato, que na TV deu vida ao inesquecível aprendiz de sacerdote Simut, de Os Dez Mandamentos, em 2015, não para, ele está sempre criando, produzindo... Fundador do Grupo Físico de Teatro, ele vê o monólogo Colônia, idealizado por ele, e que discute a intolerância e mecanismos de barbárie que a humanidade reproduz em sociedade, completar três anos em cartaz e ultrapassar fronteiras. “Colônia é um trabalho que mudou minha relação com o teatro”, conta.

Colônia também será título de um documentário produzido e dirigido pelo ator, que também está no elenco da quarta temporada da série 1 Contra Todos, da Fox, como o deputado Bruno Pontes.

Você é um dos quatro protagonistas de Matches, como foi participar desse trabalho? É a minha primeira experiência como protagonista de uma série de Tv. Foi um grande prazer. E acho que o resultado desse trabalho é fruto de um encontro muito rico entre todas as equipes envolvidas. Nos divertimos muito e também trabalhamos duro para que pudéssemos contar essas histórias. Fazer comédia não é nada fácil e não dá pra esconder isso do público, mas acredito que fizemos uma série que fala de uma realidade atual de maneira muito divertida e original. Com certeza vai tirar boas gargalhadas do espectador.

O seu personagem Escovão é um malandro, enquanto o amigo sofre o fim da relação, ele já quer colocá-lo no “jogo” de novo. Onde você buscou inspiração para viver esse cara? Eu diria que na verdade ele não é um malandro. Ele é só um sujeito muito divertido, viciado em aplicativo de pegação, expert em computação e um amigo muito fiel. Alguém que não liga para julgamentos e vive as experiências da vida em toda a sua intensidade. Tudo pra ele parece ter uma urgência. No caso a urgência do momento é fazer o amigo (Ricardo) sair da fossa. Com isso ele se envolve em várias situações embaraçosas, mas não perde a sua essência de ser uma existência aberta para o novo, sem regras.

Renato com os colegas de cena na série Matches. Foto: Warner Channel/Divulgação

Matches fala muito sobre esse universo de relacionamentos via aplicativo virtual. Você já participou de algum, é contra, a favor? Acho que hoje em dia é difícil achar alguém que não teve alguma experiência virtual. Não somente pelos aplicativos com esse fim específico, mas através das redes sociais que também possibilitam encontros. Nunca vivi um através de um aplicativo como Matches, mas não sou nenhum pouco contra. Nossa dinâmica de relações acompanham a forma como nos estruturamos socialmente ao longo da história, isso é natural, então as ferramentas que possibilitam isso são apenas extensões de uma natureza humana.

Apesar de ser uma comédia, qual a mensagem disso tudo, na sua opinião, até porque Bauman já falava dessa era de “relações líquidas”, né ? A série mostra exatamente o dia a dia de pessoas que estão em busca de alguém. Essa busca muitas vezes é fruto de algo a ser preenchido na vida daquela pessoa. Em Matches todos estão nessa busca de alguma maneira e a mensagem que vejo é que às vezes nós mergulhamos demais nas soluções virtuais e esquecemos de ver a realidade que está bem do nosso lado e não percebemos.

O seu espetáculo Colônia vai ser apresentado em Nova York. Como é para você ver essa caminhada tão bonita dessa peça e por que você acha que ela continua sendo tão necessária de ser vista? Descobri nessa peça que a relação com a plateia está também além do palco, quando de fato o que se diz é processado na reflexão e no debate sobre o tema. É assim que tem sido e poder falar das nossas heranças coloniais em outros países é um grande serviço para o registro de uma história que ainda está em andamento. Somos um país fruto da exploração, como muitos outros pelo mundo, e essa condição revela muito da identidade de um povo. Criar mecanismos que possibilitem o saber é um ato a favor de um desenvolvimento social, é isso que a arte faz, por isso é tão perseguida, porque ameaça todo um sistema que só se interessa na manipulação em busca de lucro e poder. Quanto menos a população pensa mais a engrenagem desse poder desigual se fortalece.

O ator em cena no monólogo Colônia. Foto: Patrick Sister

Você é cria do teatro e todos sabem o momento difícil que a classe enfrenta com o atual governo, inclusive de demonização dos artistas. O que fazer para continuar e para mostrar o quanto a arte e a cultura são essenciais para a formação de um cidadão e de um País? É natural que a arte sofra esse tipo de demonização, porque os artistas naturalmente questionam a sociedade. Essa é a matéria prima do seu trabalho. Manter-se na hipnose sistêmica dos enlatados culturais é render-se a todo um esquema de produção e consumo imposto por empresas que dominam o planeta e não querem que o cidadão reflita sobre aquilo. Essa hipnose consumista enfraquece a libido. É uma espécie de castração. Por isso a cultura é tão importante, porque ela resgata a identidade e a autonomia do indivíduo.

Fala pra gente um pouco também sobre o seu documentário sobre inclusão, o que vai mostrar, de que forma, até porque é um assunto tão urgente, né? Para mim a inclusão é um dos assuntos mais urgentes. E falo de uma inclusão geral. Só assim construiremos uma identidade forte, por meio das diferenças e das diversidades. Não acredito num modelo pasteurizado de sociedade. Essa é a vontade de governos autoritários e tiranos. Hoje estamos diante de um governo que não dialoga com a chamada minoria social, consequentemente ele não dialogo com a sua população. O documentário que estamos fazendo fala sobre uma escola de samba em Manaus, a Unidos do Alvorada, que tem como tema a inclusão de pessoas com síndrome de Down e de outras minorias como os gays e os índios. É uma tentativa nossa de retratar o valor de uma comunidade que se interessa por essas causas e que dá voz a muitas pessoas que sofrem com o preconceito.

Li que o seu próximo projeto no teatro será sobre fake news, um tema mais do atual... Pode adiantar algo? Ainda é um projeto bem embrionário, como tudo que gosto de fazer, num tempo que respeita a pesquisa e o processo de criação. Tenho pensado muito em como as estratégias de comunicação estão afetando diretamente a sociedade em todo o mundo. Isso não começou agora. Um exemplo foi a campanha de Hitler que culminou no extermínio em massa de milhões de judeus. Então estamos lidando com uma verdadeira arma de guerra contemporânea que abalou o quadro politico mundial no passado e continua até hoje só que com o auxílio da internet. Nossa busca será investigar o fenômeno da pós verdade nos eventos constituintes do nosso país.

Foto: Rael Barja

Com 20 anos de anos de carreira, você chega nessa fase fazendo teatro, com projetos autorais, escolhendo trabalhos potentes... Acha que tudo tem acontecido como sempre quis, porque você poderia optar também por estar numa novela popular e ponto... Eu acredito que o artista eternamente está em busca de projetos autorais, é o que geralmente faço para falar o que eu quero sem depender de outros convites. Assim me asseguro que o trabalho árduo da crítica e da reflexão estará sempre vivo. Isso não elimina que eu transite, e com muito prazer, por outras linguagens e diferentes projetos, sejam eles populares ou não.

Você está com 40 anos. Acha que chegou bem a essa idade, se considera melhor hoje do que aos 20? Eu achava que esse papo de 40 era da boca pra fora, mas hoje vejo o quanto é importante você amadurecer sem julgar a idade. Estou me sentindo pleno, realizado. Os 40 está me trazendo uma outra perspectiva e tudo tem outra urgência. Parece que assim consigo apreender mais e consequentemente oferecer o melhor de mim, no trabalho e na vida.



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