Racismo: A dupla face do engajamento nas redes sociais

O pesquisador Valmir Moratelli explica por que artistas brancos cedem seus perfis para que a militância negra fale por eles


  • 20 de junho de 2020
Djamila Ribeiro, Luana Génot, Spartakus e Linn da Quebrada. Foto: Montagem


Por Valmir Moratelli*

Nas últimas semanas, vários artistas e influenciadores digitais brancos começaram a emprestar suas contas em redes sociais para que outros artistas e intelectuais negros postassem mensagens de combate ao racismo estrutural. A ação consistia em sair momentaneamente de cena para “dar voz” a quem realmente deveria falar de racismo, como a cantora Linn da Quebrada, a ativista Winnie Bueno, a escritora Luana Génot, o youtuber Spartakus e a filósofa e escritora Djamila Ribeiro. Djamila, aliás, é uma das mais procuradas em tempos de lives engajadas, além de ser autora de O que é lugar de fala? Quem tem medo do feminismo negro?, dois livros mais do que necessários para se entender as discussões atuais.

Essa foi só uma das várias ondas de protestos contra o racismo pelo mundo, que começaram após divulgação do vídeo onde um homem negro, o ex-segurança George Floyd, foi imobilizado e morto por um policial branco com os joelhos em seu pescoço, em Minneapolis, Estados Unidos, em 25 de maio. Desde então o racismo voltou à pauta da imprensa e, por extensão, das redes sociais.

A passagem de “voz” entre artistas na web pode parecer oportuna em um primeiro momento. Mas se analisarmos como os posts orientam os discursos pela casualidade, este movimento tende a ser interpretado, em diversos casos, como uma dinâmica do oportunismo. Quantos artistas brancos já brigaram por igualdade salarial para seus colegas negros? Quantos deles deixaram de aceitar um trabalho na TV ou no cinema porque não havia atores negros no elenco ou profissionais negros na equipe técnica?

No livro O que as telenovelas exibem enquanto o mundo se transforma, analiso vinte anos de teledramaturgia brasileira, de 1998 a 2018. Constatamos que não há produção audiovisual que tenha um elenco composto por, pelo menos, cinquenta porcento de negros. Isso em uma sociedade em que 55,8% se declaram negros, de acordo com dados do IBGE em 2018. Ainda fazemos uma televisão majoritariamente branca, que mais se assemelha a produções escandinavas, como as exibidas na Netflix.

As redes sociais servem para muita coisa: vender imagem, anunciar produtos, mostrar talentos, trocar memes, criar fakenews... Após o modismo de abrir a janela para que o outro venha se explicar aos seus seguidores, acompanhamos uma nova faceta. Falsamente cedendo “lugar de fala”, certos artistas só querem manter o engajamento alinhado com pautas da moda, preservando regalias intocadas. Ao garantirem audiência de seus perfis, atraem mais publicidade. O racismo estrutural age para manter as estruturas blindadas. A mudança só começará quando todos – ênfase em “todos” – passarem a questionar o lugar que ocupam, assumindo os privilégios de se viver em uma falsa democracia racial no país. 

* Valmir Moratelli é pesquisador da PUC-Rio e autor do livro O que as telenovelas exibem enquanto o mundo se transforma.



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