Quitéria Kelly: “Um povo sem a educação é manipulável, preso em currais de ignorância”

Fundadora do grupo teatral Carmin, a Neide de Malhação exalta trama por mostrar temas que “libertam”


  • 23 de agosto de 2019
Foto: Nana Moraes


Por Luciana Marques

Em sua primeira novela na Globo, Malhação: Toda Forma de Amar, - antes ela fez a supersérie Onde Nascem Os Fortes -, Quitéria Kelly dá vida à Neide, coordenadora da escola Otto Lara Rezende. Na trama, a personagem adotou o jovem Bill Clinton (Thiago Genini). Temas com esse tipo de cunho social instigam a atriz. “Todas as questões abordadas nessa temporada de Malhação significam muito para nós que desejamos discutir questões que nos libertem”, afirma.

Natural de João Pessoa, mas criada em Natal, Quitéria Kelly está morando já há algum tempo no Rio. Mas estar longe de casa não é muito problema para atriz, que costuma viajar muito pelo país com o grupo teatral Carmin, do qual é fundadora. “O grupo foi criado com a intensão de fazer peças que falem das pessoas que estão à margem da sociedade”, conta.

Produzido pela companhia, o espetáculo A Invenção do Nordeste, que marcou a estreia de Quitéria como diretora, ganhou prêmios como o Shell de Dramaturgia, Cesgranrio de Melhor Espetáculo 2018 e APTR de Dramaturgia e atores coadjuvante.

Como tem sido participar de Malhação como a Neide, o que tem lhe dado mais prazer? Conhecer o universo da TV tem sido uma grande experiência. Fazer Malhação é, literalmente, uma grande escola. O ritmo de trabalho, a quantidade de textos para decorar e a repercussão direta do público nas redes sociais tem sido enriquecedor para minha carreira.  

E a troca com a galera jovem, esses atores já chegam bem preparados? Os jovens atores são extremamente talentosos, criativos e generosos. Eu fico impressionada com a disposição, a proatividade e a tranquilidade com que eles recebem conselhos dos diretores e dos atores mais velhos. É tudo uma grande família. A gente se protege, se ajuda e é muito bonito ver a evolução de todos, até mesmo de nós atores mais velhos, mas que como eu, nunca tiveram uma experiência mais intensa na TV. Temos que aprender tudo novamente, ou seja, estamos todos aprendendo o tempo todo, sem diferença de idade ou experiências anteriores. 

Foto: Globo/Estevam Avellar

A Neide é coordenadora de escola numa época em que a educação está passando por um momento difícil, de corte de verbas. Como é representar essa classe, que está bem próxima a dos professores, né? A educação, assim como as artes, é algo tão libertador que para as cabeças mais conservadoras chega a ser incômoda porque eles não sabem lidar com a imensidão da liberdade. Por isso, a educação e as artes vêm sofrendo cortes, ameaças e perseguições. Um povo sem a educação é um povo manipulável, preso em currais de ignorância.

O núcleo da Neide também trata da questão da adoção. Como é pra você interpretar essa mulher que adotou o Bill Clinton, hoje um menino muito querido por todos. O que você mais tem aprendido com isso? É muito legal a gente tratar desse assunto numa novela como a Malhação. Esse assunto precisa ser naturalizado. A maternidade é muito mais do que dar a luz a um filho.

Há identificações entre você e a Neide? Neide é uma mulher determinada, forte e sonhadora. Essas características me inspiram bastante e muitas das atitudes da Neide me estimulam a tomar decisões mais precisas. Ela luta pelo que quer, mesmo que seja difícil de se conquistar. 

Como foi a sua mudança para o Rio, em termos de adaptação e até de oportunidades de trabalho, mesmo você já tendo um grupo de teatro? A minha vinda para o Rio se deu muito mais por questões pessoais do que por busca por trabalho. Vim para o Rio em 2018 depois de uma separação de um casamento de 15 anos. Eu precisava respirar novos ares, conhecer outros lugares e outras pessoas. O meu grupo de teatro viaja bastante e trabalhamos muito pouco em Natal, então sair de lá não seria um problema para o meu trabalho com eles. Depois de 8 meses morando no Rio, surgiu o convite para a Malhação e resolvi ficar por aqui. Continuo trabalhando no Grupo de Teatro e agora pretendo ficar no Rio até o final de Malhação. Estou curtindo morar aqui. O Rio é uma cidade porto, tem sempre gente chegando e indo embora. Talvez, por isso, os moradores daqui não estranhem muito as novas culturas, novos sotaques e novos costumes. Eu me sinto acolhida aqui. 

Neide (Quitéria Kelly) e o filho, Bill Clinton (Thiago Benini). Foto: Reprodução Globo

O teatro é a sua base, você fundou o Carmin. O grupo tem alguma "linha" diferente? O Grupo Carmin foi criado com a intensão de fazer peças que falem das pessoas que estão à margem da sociedade. Começamos com um espetáculo chamado “Pobres de Marré” onde mostrávamos o universo das moradores de rua. Em seguida, fizemos uma peça chamada “Jacy” onde pesquisamos a velhice e o abandono de idosos. Atualmente estamos com um espetáculo dirigido por mim chamado “A invenção do Nordeste” onde abordamos a história do país, a xenofodia e os estereótipos sob o povo nordestino. Acho que o segredo do teatro feito pelo Grupo Carmin é não ter segredos, é um teatro feito para ser uma conversa gostosa de mesa de bar, onde o público é convidado a se sentar na mesa e pensar junto com a gente, rir, se emocionar, concordar e discordar.  No nosso teatro "tudo pode só não pode qualquer coisa". O Carmin tem uma pesquisa sobre o teatro documental, além de gostar de mexer com a história, com as memórias, os documentos... Gostamos de brincar com a realidade e a com a ficção.  

Numa época em que o país vive talvez a fase mais difícil para a cultura em geral, como você que vêm do teatro, tem driblado isso? A arte teatral é resistência pela própria natureza da linguagem. Os desafios de levar público para dentro de uma sala para escutar histórias é, por si só, uma luta constante. Sem contar as dificuldades de montar espetáculos, de conseguir patrocínio, etc. Não bastasse esses desafios que a classe artística tem que enfrentar diariamente, agora temos que lidar com a total ignorância de gestores públicos que nunca frequentaram salas de teatro, cinema, dança ou qualquer outra linguagem artística. E, ainda assim, se acham capazes de opinar em uma matéria que eles desconhecem totalmente através da censura de obras, corte de verbas para a produção de novos trabalhos e marginalizando o artista sem pudores. Continuar produzindo ainda é a melhor resposta porque a arte é libertadora e esse é o medo deles, que continuemos. No meu grupo nós temos criado formas de continuar produzindo nossas obras. Através da lojinha de souvenir, destinamos porcentagens de bilheterias e cachês às novas produções e seguimos produzindo. Resistência é nossa arte.   

A Invenção do Nordeste já foi bastante premiada. Por que você acha que a peça chama tanto a atenção? A invenção do Nordeste gerou uma curiosidade no público porque se trata da história do Brasil ou seja, o público se sente parte da peça. Acho que também existe uma grande falta de conhecimento da nossa própria história. As pessoas se assustam quando assistem à peça e percebem um Brasil que o Brasil não conhece. A peça coloca a História em xeque e faz com que nos questionemos sobre a nossa própria origem e cultura. É uma verdadeira quebra de conceitos estabelecidos.

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