Patrícia Moretzsohn e a marca de 100 capítulos do sucesso Malhação

Autora avalia casais mais “shippados”, e fala do desafio de manter o nível das histórias


  • 26 de julho de 2018
Foto: Globo/Marília Cabral


Por Luciana Marques

A novela Malhação: Vidas Brasileiras chega nesta quinta-feira, 26 de julho, ao 100º capítulo como sucesso de público e crítica. A responsável pelas histórias que têm cativado e emocionado o público é Patrícia Moretzsohn. E ela adianta que ainda vem muita coisa bacana por aí, novos casais e respostas a questões ainda não resolvidas. “Nosso maior desafio é manter o nível das histórias”, diz ela, feliz também com a receptividade do novo formato que, a cada 15 dias, foca num protagonista.

Mas quando o assunto é o universo jovem, poucos autores tem o know how de Patrícia. Também pudera, aos 19 anos, em 1995, ela assinou a primeira temporada da trama teen ao lado de Charles Peixoto, Andrea Maltarolli e Emanuel Jacobina. E colaborou em edições até 2000, depois em 2008 e 2009, como titular, retornou em 2013, e agora esse ano para assinar a atual edição. “O que tenho reparado é que os jovens de hoje têm muita consciência de seu lugar no mundo”, reitera.

Confira um super papo com a Patrícia, autora ainda de tramas como a adaptação de Floribella, em 1994 a 1996, na Band, e colaboradora de Fina Estampa, 2011, e Tempos Modernos, em 2010. Aqui, ela faz revelações sobre os casais da novela que nem imaginava que “aconteceriam”, e diz qual tem sido o seu maior aprendizado ao escrever para esse público tão sedento de respostas sobre a vida.

Camila Morgado e a turma protagonista desta edição. Foto: Globo

Que balanço você faz desses 100 primeiros capítulos de Malhação: Vidas Brasileiras, que é esse sucesso todo?

Obrigada! Posso dizer que é tudo muito gratificante. Viemos com a proposta de mexer na estrutura de um programa já estabelecido há anos, junto a um público acostumado à linguagem de telenovela como algo contínuo. Hoje, 100 capítulos depois, vejo que o nosso formato híbrido foi muito bem recebido pelo público-alvo, já habituado com a linguagem das séries. Os telespectadores se identificam com os personagens, e o elenco e a equipe trabalham afinadíssimos. Estamos muito orgulhosos do resultado.

Qual tem sido o maior desafio para você nesta temporada, que tem esse formato inovador no Brasil, de focar numa história a cada 15 dias?

A primeira preocupação era com a aceitação do público, mas logo percebemos que os telespectadores absorveram bem a novidade. Com o tempo, passaram a aguardar ansiosamente pela quinzena de seus personagens favoritos. Hoje, eu diria que nosso maior desafio é manter o nível das histórias, evitando repetições e apresentando enredos que possam entreter, informar e surpreender sempre.

Algum casal, em especial, entre os mais “shippados”, Tito e Flora, Márcio e Pérola, Amanda e Kavaco, não estavam na sinopse, mas acabaram “acontecendo”?

Tito e Flora estavam na sinopse, faziam um triângulo com Érico. Mas #Florito pegou tanto, desde o início, que não podíamos mais separar. Amanda e Kavaco foi totalmente não-planejado. A princípio, tínhamos aproximado os dois muito de leve nas primeiras semanas para que Amanda pudesse amenizar um pouco o sofrimento de Kavaco, o protagonista da primeira quinzena. Mas o que era descompromissado no papel, ganhou um magnetismo muito grande no ar, e com isso o romance foi crescendo. Márcio, por sua vez, foi concebido para ser a outra ponta do triângulo com Pérola e Alex. Mas #Peromar ficou tão irresistível que, assim como #Kamanda, o casal acabou ganhando vida própria. 

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Há algum personagem que surpreendeu você e acabou crescendo por conta própria, pela torcida do público, e que você teve que mudar a história?

Isadora, com certeza! Não imaginava que ela viraria o 'ícone' que virou, e foi uma diversão poder contar com ela. Getúlio, até por estar ao lado dela, acabou se transformando muito, hoje é um respiro cômico. Vinícius também fez muito sucesso e acabou por ganhar uma história de amor com Talíssia, que ainda terá novos desenvolvimentos. E Bárbara, a prima empoderada de Úrsula, foi uma participação que impactou e marcou muito, não só nosso público como também o elenco, e agora estamos voltando com ela.

Junto com a diretora Natália Grimberg, vocês montaram um time forte de jovens. Eles têm surpreendido você?

Sempre! Além de muito talentosos, eles se entregam muito aos personagens, defendem, abraçam suas causas. Por isso, falo muito que esse trabalho é colaborativo: eles são os jovens que estão ao nosso lado, trocando com a gente e procurando sempre maneiras de trazer a público as questões que consideram importantes, 'dialogando' com seus próprios personagens.

Como você tem recebido o feedback do tratamento de assuntos tão sérios e densos, como gordofobia, racismo, intolerância religiosa, bullying, bulimia... Deve ser especial para uma autora perceber que isso tem tocado e ajudado muitas pessoas, né?

Muito! Eu ficava receosa de lidar com tantos assuntos sérios, numa época em que a gente tem a resposta quase imediata das redes sociais. Mas acompanho sim a repercussão e, de maneira geral, o retorno é muito positivo e gratificante. A verdade é que aprendi muito nesses últimos meses. Saindo da minha zona de conforto acabei me deparando com noções erradas que eu nem sabia que tinha. Fico orgulhosa por pensar que isso pode acontecer com uma porcentagem do público, gerando maior compreensão sobre os outros, com suas questões e dificuldades.

Você praticamente faz parte da história desse sucesso que é Malhação. O que mais instiga você nesse universo dos jovens e adolescentes?

O que eu tenho reparado é que os jovens de hoje têm muita consciência de seu lugar no mundo. Eles se posicionam sobre o que consideram injusto, e isso pode fazer a diferença nesse momento de crise humanitária que vivemos.

E nesse tempo todo, o que você tem mais aprendido ao escrever para Malhação?

Tem uma coisa que nasceu como percepção, e hoje é uma convicção: a de que quanto mais nossos personagens alternarem acertos e erros, mais se conectarão com os jovens do público, que, no fundo, ainda estão aprendendo a lidar com o mundo adulto e com suas próprias inseguranças.

Em tempos que se fala muito na força dessa “nova mulher”, como é para você escrever uma trama com uma protagonista feminina forte, como a Gabriela (Camila Morgado), com várias jovens aprendendo a lutar desde cedo, uma diretora também mulher, a Natália Grimberg... Qual a importância disso?

É fundamental. Acho que mulheres fortes da minha geração praticavam o feminismo meio sem saber. Hoje está tudo aí, a militância, os nomes técnicos para situações que a gente acabava enfrentando, sem imaginar que podiam ser isoladas como características de um meio machista. Saber que as meninas de hoje podem contar com essas ferramentas para se defender é um alento.

Com a diretora artística Natália Grimberg. Foto: Globo/João Miguel Júnior

O que você assiste hoje na TV, se é que dá tempo, (risos). Há alguma série, por exemplo, que lhe chama mais a atenção? Gostaria de escrever nesse formato?

Com a novela no ar, não consigo ver muita coisa, assisto só ao comecinho de algumas séries para me inteirar das tendências. Mas Game of Thrones e Stranger Thingspor, por exemplo, são prioridade - fico contando os meses para assistir às novas temporadas. Eu gostaria muito, sim, de trabalhar com o formato de série, mas também gosto da estrutura das novelas, gosto de encarar cada projeto como um novo desafio a ser destrinchado.

Como avalia a sua trajetória como autora desde a estreia, há 23 anos, na própria Malhação, até hoje, tudo tem acontecido de forma natural? O próximo passo seria uma trama solo das 7 ou até das 9?

É um processo bem natural e orgânico, gosto de fazer televisão, as coisas vão acontecendo e vou me dedicando, topando os desafios. Confesso que não consigo pensar no próximo passo, ainda temos tantos capítulos pela frente! Mas posso dizer que Vidas Brasileiras tem sido especial, pela oportunidade de abordar assuntos relevantes e buscar essa representatividade na TV, sem deixar de lado o entretenimento. Pretendo seguir nessa linha daqui para a frente.

Para encerrar, o que o público pode esperar ainda de Malhação nesta temporada?

Novos casais, novos temas, novas histórias sobre personagens que já tiveram suas quinzenas, mas seguiram com questões irrespondidas. Por exemplo, onde está o pai de Valentina, a filha de Talíssia? O que acontecerá com Amanda? Verena conseguirá realizar seus sonhos?... Responderemos a essas e outras questões nos próximos capítulos da novela!



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