Natalia Grimberg: Chefona de Malhação se orgulha de jovens

De assistente de direção em 2002, à diretora artística da temporada atual


  • 09 de julho de 2018
Foto: Globo/Raquel Cunha


Por Redação

Se Malhação: Vidas Brasileiras está fazendo o maior sucesso, ainda mais no formato em que a cada 15 dias um jovem protagoniza a trama, muito disso tem a ver com as decisões firmes de Natalia Grimberg. Diretora artística da novela, ela se orgulha de ter reunido um time super talentoso de jovens nessa temporada. “Eu escutei mais de 500 entrevistas pelo Brasil todo”, conta.

De pulso firme, bom humor e, às vezes, mãezona que dá puxão de orelha, ela tem um motivo a mais para festejar esse trabalho na Globo. Professora de teatro desde os 16 anos, ela, que também escreve roteiros de peça, iniciou na emissora como assistente de direção da própria Malhação, em 2002. “Se alguém me falasse que eu iria voltar nesse cargo, ocupado na época por Ricardo Waddington, eu iria rir”, diz.

Mas aconteceu, e hoje ela é uma das mulheres poderosas na Globo. Entre seus outros trabalhos na direção, destacam-se novelas como Belíssima, em 2007, que marcou sua estreia, Cordel Encantado, de 2011, Cheias de Charme, de 2012, Saramandaia, de 2013, Verdades Secretas, de 2015, e A Lei do Amor, em 2017.

Natália com os atores da trama e sua equipe de direção. Foto: Globo/João Miguel Júnior

Como é trabalhar com todos esses jovens de Malhação?

O projeto dessa temporada em especial me instiga muito, é claro que a Malhação é um lugar onde a gente sempre descobriu talentos, é só olhar nas novelas atuais todo mundo que veio de lá. Mas essa temporada tem um compromisso com a realidade, de tirar o jovem das redes sociais, o que ele posta, e a gente descobrir quem ele é. A gente trabalha com umas temáticas fortes, mas ao mesmo tempo com leveza, procurando um equilíbrio, a gente fala, sim, de bullying, de assédio, de gordofobia, mas tudo de uma maneira transparente, sem vergonha, não é nem de expor o jovem, mas é deixar ele desnudo.

A gente sabe que a maioria dos atores jovens são muito completos. Como funciona essa escolha?

São mesmo, e eu tenho o maior orgulho deles. Não foi uma escolha muito comum, a Globo me apoiou muito. A gente fez um trabalho muito diferenciado nessa temporada, eu escutei mais de 500 entrevistas pelo Brasil todo, afinal é Malhação: Vidas Brasileiras, eu não queria cariocas falando com sotaques de outros lugares, eu não estava representando o Rio de Janeiro, estava representando o Brasil. A gente pegou jovens do Brasil todo para entrevistas pessoais e aí a gente foi selecionando, eu escolhi 80, eles vieram para os estúdios Globo, eu fiquei um mês com uma preparadora com eles todos os dias. E aí eu chamava a autora pelo menos uma vez por semana, a gente foi, inclusive, mudando a história de personagens pelos atores, então eu consegui selecionar 17 atores, de oito ou nove estados diferentes do Brasil.

Você sente um peso em lançar novos rostos?

Não digo a palavra peso, porque eu acho que é a parte mais legal. Eu amo trabalhar com jovem e acho que estou no lugar certo, eu acho que os jovens estão aí para transformar. Eu dou aula de teatro desde os 16 anos, então não é um peso. Mas eu tenho que me controlar porque eu dou puxão de orelha, às vezes, viro um pouco mãe. Porque imagina, para eles, de repente, é uma enxurrada de gente falando, de gente enaltecendo, de gente criticando, não deve ser fácil.

Ela dirige Flávio Migliaccio, Nicette Bruno, Felipe Rocha e Camila Morgado. Foto: Globo/João Miguel Júnior

Nós conversamos com atores desta temporada e ficamos sabendo de histórias pelas quais passaram, então teve tudo a ver na hora da escolha, não é?

Essa troca existiu desde o início, eu tinha um personagem que cantava e eu busquei um menino que já tocasse, eu não precisava ensinar o violão para ele. Precisava de um atleta e aí eu combinei com a autora de deixar o esporte em aberto, esperamos descobrir o que algum menino fazia e acabou que foi a dança.

E para vocês, da direção, como é ver toda a repercussão da trama, o sucesso nas redes sociais?

É muito legal, porque a rede social de Malhação é uma rede muito consolidada, acredito que sejam 12 milhões de jovens e a Malhação é uma marca muito forte, tanto que a temporada que acaba sempre fica muito apegada.

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E tem algum apelo do público na internet pedindo alguma mudança?

Não, hoje em dia é legal que eles ficam muito no tema, se a gente está falando sobre a gordofobia, sempre bomba, as redes sociais enaltecem as meninas, e isso nos dá um orgulho danado..

Mas você se deixa influenciar pelo que lê nas redes sociais?

Para falar a verdade, não. Eu acho que temos que estar abertos a tudo, porque a gente não sabe de onde vem, existem críticas construtivas e críticas nem tanto, porque a pessoa que critica vai criticar qualquer coisa. A gente tem que ficar atento a qualquer coisa, mas não dá para você mudar uma estrutura porque um ou outro falou.

Essa temporada tem tratado de assuntos polêmicos. Teve por exemplo a cena do terreiro de candomblé e do discurso de ódio... Como é para você tratar de um assunto que até para o horário das 21h sofreria uma avalanche de comentários, de preconceito?

A gente busca muito essa coisa da realidade, tem uma pesquisa muito grande, a gente tem uma parceria grande com a área de desenvolvimento social da TV Globo. A gente não quer camuflar, nós conversamos muito com o pessoal do candomblé, e eles sofrem muito preconceito, a gente recebeu várias mensagens. Eu falo sempre que é uma novela que busca o humano, o íntimo, o privado, não o estereótipo.

E você é cria de Malhação, foi assistente de direção, agora é diretora artística. Como vê essa sua trajetória?

Eu nunca parei para pensar nisso, mas eu acho que se em 2002 alguém me falasse que eu iria voltar aqui no lugar do Ricardo Waddington, que tinha esse cargo na época, eu iria rir. Mas a minha carreira foi construída com tanto trabalho, não foi de uma hora para outra, mas é óbvio que bate uma emoção.

A diretora e a autora Patricia Moretzsohn. Foto: Globo/João Cotta

Essa trama é protagonizada por uma mulher, a professora Gabriela (Camila Morgado), você trabalha com diretoras mulheres, a autora (Patricia Moretzsohn) é mulher... Como é para você isso tudo, ainda mais num momento em que se fala tanto nessa nova mulher, forte?

Acho que o melhor feminismo é quando a gente está fazendo, quando a gente sai do discurso e coloca na prática, não só o feminismo, mas como qualquer outro tema. A gente tem mulheres interessantes em cargos interessantes, mulheres negras maravilhosas nessa equipe que ganharam promoção, e não foi uma coisa pensada, escalar mulheres. Eu queria pessoas interessantes, pessoas que amem estar nesse projeto, porque eu amo. É a minha cara. Eu procuro pessoas nesse sentido, acho que as mulheres são mais empolgadas.

Há 20 anos atrás era uma profissão dominada por homens, não é, dá uma satisfação a mais hoje estár conduzindo essa equipe?

Dá! E é bonito falar, porque esse ano faleceu o Roberto Farias. E a última coisa que eu fiz na atuação, porque eu comecei como atriz, e aos 15 anos você não sabe ainda o que quer, ainda mais por não ter ninguém na família que trabalhasse com isso... Eu fiz uma minissérie chamada Contos de Verão, tinha 15, 16 anos, e eu passei 40 dias em Búzios com o Roberto Farias, e eu falei, não, gente, eu que não quero estar aqui, eu quero ser aquele homem ali. Aí falaram que era impossível, quase não tinha mulher na direção, e eu dizia, não, que palavra é essa impossível... Tanto que com 20 anos eu virei autora, assistente de direção, e com 27 anos fui promovida.

Você sofreu preconceito no início, por ser uma profissão dominada por homens?

Eu sempre fui bem recebida, trabalhei com Carlos Manga, com Roberto Talma, com grandes profissionais. Realmente, era um outro tipo de pensamento e tal, mas isso nunca me afetou. Eu brincava, era mulher, jovem, loira, e ainda tinha aquele estereótipo da loira burra, eu fazia piada, eu faço até hoje quando eu erro, desculpa gente, eu sou loiraaa, errei. Você vai descontraindo, porque eu chuto a porta, mas eu tenho humor. E aí você vai conseguindo as coisas.

Chegou onde você sonhou, ou tem muita coisa ainda?

Eu acho que eu tenho bastante estrada. Como eu olho para os meninos, eu fico imaginando, sei lá, onde eu estarei daqui a 10 anos...

Quem sabe um Oscar?

Eu já ganhei um Emmy Internacional por Verdades Secretas, eu estava lá com a equipe, foi bonito!



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