Marcella Muniz festeja primeira vilã, Judite: “Achincalhada”

Ela vibra com feedback do papel em Jesus e diz que pausa na carreira foi opção de vida


  • 18 de outubro de 2018
Foto: Rodrigo Lopes


Por Luciana Marques

*Entrevista também disponível em vídeo, abaixo.

Prestes a completar 40 anos de carreira, Marcella Muniz vive a sua primeira grande vilã em uma novela: a amarga Judite, mulher de Caifás (Eucir de Souza), na trama bíblica Jesus, na Record TV. “Quando eu comecei a ler os capítulos, eu juro, eu suava, e falava: 'Não vou conseguir fazer isso'”, lembra.

Mas a atriz tanto conseguiu, que é um dos destaques da trama. Nas redes sociais, tem sido “achincalhada” pelas grandes maldades de Judite. “Como nunca tinha feito vilã, estou tentando responder, pedindo calma”, conta Marcella, que iniciou no teatro aos 13 anos, fez a primeira novela, Os Imigrantes, na Band, em 1981, e atuou em tramas globais como Pão Pão, Beijo Beijo, Sassaricando e O Salvador da Pátria.

Mãe de Priscila, de 34 anos, Thaís, de 26, e Thiago, de 24, Marcella avalia que até poderia ter tido uma trajetória um pouco diferente nas artes, mas que foi opção própria de vida ter dado uma pausa na carreira para se dedicar à maternidade. “Eu causei isso tudo para construir o que eu construí de bom, e aí você colhe. Mas nada como o recomeço”, diz.

Judite (Marcella Muniz). Foto: Divugalção

Como está sendo essa experiência de fazer a sua primeira vilã?

É minha vigésima primeira novela, e quando eu peguei a Judite, essa vilã da novela junto com o Caifás, outro grande vilão da história de Jesus, eu juro que eu suava. Eu falava: 'Gente, eu não vou conseguir fazer! Isso vai contra mim!' Acho que foi uma das coisas mais difíceis, pra montar o personagem, porque pra você fazer vilão é um passo para cair no caricato. Tem que ver onde você vai humanizar a vilã porque senão, não fica crível. Construí a minha Judite de uma forma que ela tem um tom sempre baixo, é tudo interno, ela é muito segura, tem propriedade no que faz. Ela não altera a voz... Acho que eu montei uma Judite que provavelmente todo mundo está gostando, no sentido de estar odiando.

Daniel Villas, o Malco, de Jesus: “Entre o certo e a devoção”

Mayana Moura, o “Diabo”: “Dizem que estão com medo de mim”

Você se inspirou em alguma grande vilã?

Uma que me chamou muito atenção dos tempos contemporâneos, foi a Nazaré, da Renata Sorrah, em Senhora do Destino. Ela sorri matando! E é exatamente como o meu personagem é. E é muito difícil. Mas você vai fazendo, fazendo, e acaba até se acostumando com o com o jeito de ser e tal.. E aí eu saio de cena e falo: 'Gente, isso não é verdade! Eu sou uma pessoa boa'. Eu sou budista, eu passo um daimoku e saio daquela energia

Você acha que ela é má mesmo, ou é uma dureza da vida, por não conseguir ter filho, por ter sido traída pelo marido...

A Judite foi criada pelo Anás (Paulo Figueiredo), o sumo sacerdote, e já existe uma coisa de lei de Deus, na época, sem prejulgamento, funcionava assim! Então, eu acho que você não pode fazer julgando. Acho que ela tem uma amargura porque naquela época já era ruim se você não desse um filho homem ao marido. Não dar nenhum filho, é pior ainda. Se você desse uma filha mulher, ela poderia ser dada, jogada na rua. Então, era lei ter um filho, e eu não consegui nem dar um filho pro sumo sacerdote, a figura mais das leis de Deus. Então, eu acho que é uma junção de coisas para a Judite ser assim. Eu defendo a minha personagem. Agora, ela ama aquele homem, o Caifás, ela gosta mesmo dele.

Judite (Marcella Muniz), Caifás (Eucir de Souza) e Livona (Bárbara Borges). Foto: Divulgação

Então, tem um afeto dela ali?

Então, isso foi uma construção minha! Quando eu conheci o Eucir (de Souza – o Caifás), eu cheguei e falei pra ele: 'Oi! Prazer, tudo bom? Me mudaram de personagem pra fazer a sua mulher, vou te dizer uma coisa, a Judite te ama, tá? E é assim que a gente vai construir o personagem'. E ele falou: 'Gente? Me apaixonei por você, porque é uma atriz intensa'. E o Edgar (Miranda - Diretor) tinha me passado pra esse personagem, porque eu ia fazer outro, exatamente por essa intensidade como atriz. E o Eucir também tem isso, e eu acho que a gente está batendo um bolão também exatamente por essa intensidade, por essas sacadas e detalhes.

Você acha que ela pode se regenerar, se redimir?

Eu acho que você se regenerar das coisas que você fez, essa culpa tem que ser bem trabalhada, né? Mas eu não acho que ela seja assim uma grande culpada do que é. Ela é o que é também pelas circunstâncias da época, da vida, do marido, naquela época você não escolhia o marido que queria, você não escolhia a vida que queria, então você vai vivendo dentro daquele segmento, daquele padrão já estabelecido. Quando eu fiz o workshop de Jesus, é impressionante! A mulher naquela época não existia. Ao mesmo tempo, quem manda em casa é a Judite, quem manda em Caifás, é a Judite. Mas fora de casa, no exterior, a mulher não existia, a mulher ficava menstruada, ficava impura, tinha que ficar presa. Se a mulher não desse um filho homem, podia ser jogada na rua ou devolvida. Então, é muito doloroso, complicado pra gente entender isso tudo nos dias de hoje.

Foto: Rodrigo Lopes

Mesmo assim, nesta época a gente já via muitas mulheres fortes, como a Maria de Nazaré...

A Claudia Prócula (Larissa Maciel), mulher de Pilatos (Nicola Siri)... Se você for ver na novela, todas as mulheres são uma fortaleza, e é impressionante como já é da essência. Eu não tenho nada assim de, ah, sou feminista, não! Sou feminista no sentido de que as coisas têm que ser respeitadas. Mas é impressionante de como naquela época a mulher era tão anulada e ao mesmo tempo era a fortaleza de tudo como até hoje. Eu acho que sempre atrás de um homem tem sempre uma grande mulher. Eu acho que as mulheres têm talvez mais esse chip bem resolvido, pegam um homem e colocam o homem pra voar. Acho que existe muito isso, a força da mulher é grande, a força da terra, de parir. Eu acho que a mulher tem isso a mais do que o homem.

Como tem sido o feedback da personagem, o que você tem ouvido nas redes sociais?

Como agora começaram mesmo as maldades de Judite, as coisas que ela tem que fazer pelas circunstâncias, eu estou sendo achincalhada nas redes sociais. E como nunca fiz , estou respondendo todo mundo com o maior carinho, pedindo calma! Calma gente! Tenta entender o lado dela, aí tem umas vezes que eu respondo assim: 'Se você está me odiando, é porque está muito bom!' Mas estão achincalhando a Judite! Eu entendo como o público vê. Mas como a atriz que faz a Judite, aí eu tenho que dar uma defendida.

Caifás (Eucir de Souza) e Judite (Marcella Muniz). Foto: Divulgação

Você imaginava algum dia fazer uma novela sobre a história de Jesus?

Nunca imaginei fazer essa novela! Quando eu estava fazendo Belaventura, foi uma coisa que eu nem pensei, nem procurei. Mas foi um grande presente do Edgard Miranda. E eu acho que vai ficar pra história, né? Acho Jesus uma história universal, forte, um acontecimento! Fico muito feliz de estar fazendo parte deste elenco, desta história contada pela Record.

Qual a sua ligação com religião?

Eu sou budista, de Nichiren, budista mesmo, ativa. Acredito em qualquer força, no universo que conspira a favor, nas coisas boas. Acredito que as culpas são sempre internas, não externas, acredito que você tem sempre que rever dentro de você as coisas seja qual religião for. Mas a minha religião fala muito disso, da Lei de Causa e Efeito, da flor de lótus. Acho muito importante nos dias de hoje você ter fé em alguma coisa, seja o que for, mas eu acho que esses jovens têm que procurar ter fé, ler, acho que é o que falta muito também.

São quase 40 anos de carreira, você começou aos 13 no teatro, como avalia tudo isso, acha que tudo ocorreu como devia ser ou não?

Foi meio que uma opção de vida. Eu poderia estar, sei lá, por um olhar de alguém, bombando... Mas eu parei muito minha carreira para criar meus filhos, e foi uma opção minha. Eu tive os meus três filhos quando eu era funcionária da TV Globo, aí teve um momento em que eles falaram: 'Está bom, chega de ter filho... Dá uma voltinha por aí'. E eu parei mesmo para ter filho, era meu projeto de vida, ter uma família grande. Sim, deixei de fazer algumas coisas porque eu quis, não culpo à maternidade, foi uma opção minha de vida. É como eu acabei de falar da religião, é a Lei da Causa e Efeito, eu causei isso tudo pra construir o que eu construí de bom, e aí você colhe. Mas nada como o recomeço, nada como você se reinventar, nada como correr atrás e nada como ter força. Eu acredito nisso!

Agradecimento: Tea Shop Rio Design Barra. Av. das Américas, 7777 – Barra da Tijuca. Piso Térreo – loja 156.



Veja Também