Li Borges diz ser “supermulher”, mas cheia de defeitos

A Bárbara de Apocalipse, atriz fala de empoderamento e de sua feliz carreira


  • 18 de abril de 2018
Fotos: Faya


Por Luciana Marques

Se a âncora de telejornal Bárbara Queiroz, de Apocalipse, é uma à frente do seu tempo, que pensa em ter um filho por produção independente e não quer depender de homem para nada, sua intérprete Li Borges, de 43 anos, também se vê como uma mulher empoderada. Mas, diferentemente da personagem, ela é muito bem casada com Alex Nader, e tem uma filha, Nina, de 7 anos.

“Entendi que não preciso ter esse lugar de que o homem dá o sustento e a mulher vai cuidar dos filhos e da casa. Cuido da casa, da minha filha, da profissão, e não tenho babá, nem empregada. Sou uma supermulher! Estou brincando, sou cheia de defeito. A gente não dá conta de tudo, e não precisa dar. O importante é a gente ter noção disso”, ressalta.

Li Borges, que iniciou a carreira em uma caravana de circo, onde aprendeu a andar com perna de pau e fazer malabares, também nunca deixou de se virar na profissão. E se orgulha em dizer que nunca passou necessidade vivendo de sua arte, o que é raro hoje, já que há muitos artistas sem trabalho. “Mas, para isso, tem que se produzir, não pode ficar esperando as coisas cairem do céu”, avisa ela.

Foto: Sergio Baia

Como tem sido fazer a Bárbara, de Apocalipse?

Estou amando viver a Bárbara. Ela é uma jornalista, âncora de um telejornal e vive uma relação um pouco conflituosa com o Diogo (Freddy Costa). Porque, na vedade, ela é uma mulher muito independente, tem muito medo de se apaixonar, de se entregar a um relação. E o Diogo é um cara super interesante, apaixonado por ela, querendo casar, ter filhos, formar uma famíia, e ela não quer. Ela está apaixonada por esse homem, já engravidou, mas perdeu o bebê, mas ela não se entrega. Ela vai até um certo ponto. Tem uma cena meio absurda, que ela vai contar da gravidez para ele, mas vai armada, diz, eu já pensei em tudo, você pode ficar tranquilo, não precisa nem pagar pensão. Ele olha, e diz, oi? Eu quero casar com você, cuidar dessa criança, ver ela crescer...

Imagina o motivo dessa armação dela, dessa dureza?

Eu não sei ainda, a gente ainda não descobriu... Então, eu acho que tem algo mais para a frente que a gente vai descobrir e que justifica essa trava toda dela, essa defesa. Ela se arma toda, se mostra uma mulher forte, independente. Tipo, eu só quero te usar para ter filho, mas eu quero ser uma mulher independente, vou cuidar de tudo e está tudo certo. Mentira! Em algum lugar, ela mente para si mesma, e daqui a pouco a gente vai descobrir o motivo disso. Tem que continuar acompanhando a novela...

Bárbara Queiroz (Aline Borges). Foto: Munir Chatack/RecordTV

Bárbara tem esse lado, de empoderamento feminino. Como é a Aline em relação a isso?

A Aline é casada, tem uma filha de 7 anos. Eu sou casada há 9 anos. E venho de uma família mais tradicional, os meus pais são mais velhos, tenho quatro irmãos, sou a quinta, a mais nova. E eu fui criada numa família em que não se valoriza muito as mulheres. Era sempre assim, você está crescendo, amadurecendo, vamos estudar, mas você tem que estar pronta para casar. Foi essa a educação que me deram. Na verdade, porque foi essa educação que a minha mãe recebeu. Então, não tive muito essa referência de mulher empoderada. Minha mãe abandonou o trabalho para cuidar da família, dos filhos. E hoje ela se arrepente, é frustrada com isso, mas não conseguiu reverter ao longo da vida. Ela abriu mão do trabalho para cuidar dos cinco filhos. Essa era a referência que eu tinha de mãe.

E como consegue se dividir entre mãe, mulher e profissional?

Eu sou a melhor mãe do mundo para a minha filha, a melhor que posso ser. Sempre fui mãezona. Quando eu tive a Nina, eu estava muito bem empregada, já na Record, quando engravidei. Então, pude ficar em casa, curtir a minha gravidez, esses çrimeiros anos da minha filha, contratada. E isso foi muito importante. Depois que completou 1 ano e meio, voltei a fazer novela, não parei de trabalhar. E continuo até hoje, fazendo novela, filme, teatro. Não paro. Graças a Deus, eu sou uma mulher empoderada. Eu assumi o meu lugar, entendi que não preciso ter esse lugar de que o homem sustenta a casa e a mulher vai cuidar dos filhos e da casa. Cuido da minha casa, não tenho babá, não tenho empregada, cuido da minha filha e cuido da minha profissão. Eu sou uma supermulher! Estou brincando, não sou supermulher, não, sou cheia de defeito. A gente não dá conta de tudo, e não precisa dar. E está tudo certo. O importante é a gente ter noção disso.

Pode explicar melhor?

A coisa da mulher empoderada que eu falo, é no sentido de você acreditar que você é capaz de realizar tudo aquilo que você sentir vontade. Que você é capaz de trabalhar, sim, de conquistar o seu espaço, sim, você tem voz , sim. E eu tenho visto muito isso na minha vida e isso vai reverberando também para a famíla. Nas conversas de almoço, a minha mãe tem reclamado muito que o meu pai não faz nada em casa. Só que ele tem 86 anos. E eu falo, mãe, a vida inteira a senhora fez para ele, agora, aos 86, a senhora vai conseguir mudar? Então, fica a dica, para as mulheres. Se empodere, ocupe o seu espaço, acredite na sua força, todos nós temos força, voz e a gente precisa se apropriar das nossas qualidades e buscar o nosso espaço. E dá para fazer tudo.

Com o marido, Alex, e a filha, Nina. Foto: Reprodução Instagram

Você iniciou na carreira com quase 20 anos numa caravana de circo. Essa batalha, desde nova, na estrada, foi importante para entender os altos e baixos da profissão e seguir em frente?

Para quem me pergunta no Facebook sobre a nossa carreira, eu costumo perguntar de volta se a pessoa quer realmente ser ator ou ser famoso. E se você quer ficar famoso, ser popular, não vai por esse caminho, porque a gente rala muito. É muito difícil! Cada vez mais tem muita gente querendo essa profissão e o mercado fica mais difícil. Eu não posso reclamar, tenho 43 anos de idade e desde que comecei a trabalhar, só vivo da minha arte. Nunca precisei fazer uma outra coisa. Sempre fiz teatro, cinema, mais curtas, TV nunca parei. Tem hora que dá aquele vácuo, acaba o contrato, e você tem que guardar grana. E você tem que se produzir, não pode ficar esperando as coisas cairem do céu. Precisa fazer, se juntar com uma galera, vamos fazer uma peça, um estudo. Agora mesmo entrei num grupo que a gente está estudando para fazer um espetáculo infantil, feminista, muito interessante. E para mim está sendo um aprendizado, estou começando a ler muita coisa, a ver filmes, e estar assim descobrindo novas coisas para a minha vida, para a relação com a minha filha. É muito importante a gente estar sempre aberto a estudar.

É que existe por trás dessa profissão um  “glamour”, que na verdade não existe, não é?

As pessas, às vezes, acham que eu sou rica, porque estou na televisão, me pedem dinheiro emprestado no Face. Eu não sou rica, eu tenho uma vida normal, eu ralo para caramba para me manter, pagar as minhas contas. Mas eu sou muita grata mesmo ao universo, as pessoas, aos profissionais que apostaram na minha carreira porque nunca passei necessidade vivendo da minha arte. E no Brasil você viver de arte é dificílimo. Tenho diversos amigos talentosíssimos, que estão buscando o seu caminho, ralando e não conseguem absolutamente nada. E estão desviando, falam, eu não vou ser mais ator, vou fazer outra coisa. Mas eu estou aqui e continuo feliz na minha caminhada.

Aline com o colega de cena Junno Andrade, o Arthur Pestana da trama. Foto: Reprodução Instagram

Você faz uma jornalista e dá notícias catastróficas. Como está sendo esta experiência, ainda mais num momento de tantas atrocidades também no mundo?

Nossa! Eu estou amando fazer a Bárbara, essa âncora de telejornal. Nunca fiz nada parecido. A gente fez workshop aqui no jornalismo da Record. E eu estou gostando muito, porque as personagens que fiz até hoje não chegam nem perto dessa seriedade que tem uma âncora. E, ao mesmo tempo, me traz um olhar que nunca tive. A gente vê muitas profissões, mas não entende muito o que é cada coisa. Estou entrando bastante nesse universo, assistindo mais telejornais para ver esse tom, ouvindo muito mais, mas é um aprendizado. Estou dia após dia tentando trazer cada vez mais verdade para essa jornalista. É uma profissão muito séria, e estou ficando fascinada. As pessooas falam, nossa você leva jeito, porque não faz jornalismo? Não é assim. Tem que estudar para caramba. Então, se eu tiver uma folga em algum momento, quem sabe eu me aventuro para fazer uma faculdade de jornalismo?

Qual a sua relação com religião?

Eu tinha uma avó, que já está no céu, e ela era da Igreja Batista. E era muito religiosa. Lembro que toda a noite ela lia textos da bíblia pra gente. Eu sei o Salmo 23 inteiro, porque toda a noite ela lia para mim. Mas nunca fui de nenhuma religião, embora tenha ido com ela algumas vezes na Igreja Batista, fui algumas vezes na igreja Católica, frequentei o espiritismmo algumas vezes. Mas não me prendi a nenhum deles. Sou uma pessoa extremamente espiritualizada. Acredito em Deus, nas boas energias, na intenção do bem, no bom caminho. E é isso que me leva. Minha religião é minha fé em Deus, nessa força divina, maior. Todos os dias que eu acordo eu agradeço a Deus por estar viva, peço proteção a minha família, para o meu trabalho.

Alguns personagens falam muito de fé na novela, quais ganhos leva para você com isso?

No meu núcleo de jornalismo não tem muito. Mas eu vejo e tenho cenas com a Zoe (Juliana Knust) em relação a isso. Esses dias eu fiz uma cena em que a minha personagem duvidava o tempo inteiro da fé dela. Então, quando vejo uma situação dessas, com certeza, eu aprendo. É uma janelinha que se abre. É um lugar que não me oponho, não rejeito. Procuro ouvir, entender, aceitar, e tirar o melhor de cada situação, cena, em relação a fé, religiosidade. Com certeza, estou ganhando muito fazendo uma novela bíblica.



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