Kizi Vaz: “Bom Sucesso dá esperança de ver mais colegas negros em produções”

Atriz exalta a representatividade na trama e festeja papel como a "pilantra" ciumenta Rosemary


  • 20 de dezembro de 2019
Foto: Vitor Vieira Fotografia


No elenco das duas temporadas da série Ilha de Ferro como a Suélen, divertida cozinheira da plataforma de Petróleo, Kizi Vaz está de volta às novelas – ela fez Rock Story, em 2017 -, em Bom Sucesso. Mesmo que seja para uma participação, a atriz tem aprontado algumas contra Marcos (Romulo Estrela) e Paloma (Grazi Massafera) como a ciumenta Rosemary, esposa do Elias (Marcelo Faria). “Acho que ela é também um pouco pilantra, porque fecha muito com tudo o que o Elias faz, tudo que ele decide ela acata, por amor a ele”, avalia.

E este trabalho tem sido mais do que especial para a atriz. Primeiro, porque ela contracena com Guti Fraga, que vive o Padre Paulo, seu grande mestre no grupo teatral carioca Nós do Morro. E o fato ainda da representatividade na trama. “Isso me deixa esperançosa em acreditar que em outras produções vou poder ver meus amigos, que também são negros e muitas vezes não têm oportunidade. Fico feliz de, de repente, ter uma abertura maior também como uma mulher negra, estar em mais produções, em filmes...”, diz.

Como definiria a Rosemary? A personagem é uma mulher firme, forte nas atitudes, que não leva desaforo para casa, que defende o que é dela. Ela ama muito o Elias, então faz de tudo pra ficar com ele e não deixar que ninguém tire ele da vida dela. Eles têm uma relação, de certa forma, grosseira um com o outro, mas ela tem um lado feminino muito forte, se ele fala alto com ela, ela diz: “Fala baixo comigo”. Então a Rosemary representa essa mulher que vai atrás do que quer, sem o menor pudor, é o tipo de mulher que assume o jeito dela de se vestir, o jeito que é o corpo dela, o quadril, assume tudo.

Rosemary (Kizi Vaz) e Elias (Marcelo Faria). Foto: Reprodução Globo

Você já acompanhava a trama, curte, e como foi recebida pelo elenco? Sim, acompanhava e curtia muito, a questão da representatividade é algo que me chama atenção e o incentivo à leitura também. Gosto do lugar lúdico que a novela proporciona para quem está assistindo através das histórias dos livros. O elenco e toda a equipe me receberam muito bem, a energia de todos é incrível.

Bom Sucesso tem um protagonista negro, um casal negro, #Framon, e vários outros personagens bacanas e “reais”. Como vê essa questão da representatividade na novela? É uma das coisas que eu mais admiro na novela Bom Sucesso, toda essa representatividade que os autores, os diretores fazem questão. O negro tem que estar sim na televisão, no cinema, no teatro, tem que estar sendo representado. Fico muito feliz!

Você contracena com o Guti Fraga, que foi seu mentor no Grupo Nós do Morro. Como é a relação de vocês e como está sendo esse reeencontro na trama? Ah está sendo maravilhoso, estou muito feliz. Contracenar com o Guti é algo especial e mágico na minha vida porque eu aprendi muitas coisas com ele. Minha base artística veio do Nós do Morro, grupo do qual ele é o criador. Então contracenar com ele foi uma delícia, foi engraçado, rimos bastante, nos abraçamos, eu amo muito o Guti, muito, muito, muito, ele é meu segundo paizão.

Você também é uma das crias do Nós do Morro. E hoje faz sucesso na sua profissão. Que conselho daria para meninas da sua idade, na mesma situação que você quando começou? O conselho que eu dou para as atrizes que estão começando agora, que ainda também tem um longo caminho pela frente, é ter sempre os pés no chão, estudar, ler bastante, pesquisar... O ator tem que estar em constante pesquisa e estudo. Não se apegar só à televisão, é fazer teatro, cinema, e saber se produzir, produzir uma peça, produzir qualquer outra coisa que a pessoa se identifique, seja dentro da música, na poesia, interpretação. O ator hoje em dia tem que saber se produzir, para não esperar só o mercado, mas se colocar no mercado também, e ter sempre os pés no chão.

Você também mantém uma ONG que cuida da arte em Duque de Caxias. Como foi parar lá, e que tipo de trabalho a sua ONG desenvolve? O Curta Arte Caxias é um projeto no Jardim Primavera em Duque de Caxias. Criei porque quando eu morava lá eu sentia falta de ter alguma opção além da sala de aula, opções culturais para desenvolvimento da criança, para o conhecimento da criança dentro da cultura, enfim as crianças lá nunca tiveram contato com a cultura. E o meu projeto pode proporcionar isso a eles. Infelizmente ainda não tenho um espaço físico, mas faço uma vez por ano um evento grande com oficinas de teatro, música, dança, reciclagem e esportes. Meu desejo é ter um espaço físico pra que as crianças possam ter aulas de segunda à sexta.

Foto: Vitor Vieira Fotografia

Falando ainda em representatividade, você acaba sendo exemplo para muitas crianças, ainda mais com esse seu trabalho social. Como vê isso? Lá em Caxias vejo muito isso. Quando eu chego lá as crianças querem conversar, saber de coisas que eu tô fazendo, trabalhando. Acredito que eu represento um lugar de esperança pra elas, sabe? Um diferencial, um lugar de respiro sem ser todas as coisas de adulto que elas têm que viver, de festas para adultos. Então toda vez que estou lá e que eu brinco com eles, mesmo quando não são dias de eventos - porque minha família mora lá então de vez em quando eu vou lá -, eu acho que eles me veem assim: “Ah com a Kizi e através da Kizi eu posso ter contato com outras coisas”. Então eu acho que é um olhar de esperança que eles tem para comigo, um afeto, um carinho, acho que eu represento isso pra eles.

O que representou pra você a vitória da Zozibini Tunzi no miss Universo? Eu fiquei muito feliz e com o meu coração muito preenchido quando eu fiquei sabendo que a ganhadora do Miss Universo desse ano tinha sido uma Africana, eu fiquei muito, muito, muito feliz, ela com certeza representou o mundo inteiro e todas as pessoas negras. As meninas negras que vão ver essa mulher incrível, as crianças que sofrem bullying por serem negras, por terem o cabelo que dizem ser ruim - mas não existe cabelo ruim -, elas vão se sentir muito representadas por essa mulher. Vão ver que ela é linda e que ganhou o Miss Universo, e a criança negra que sofre o bullying, vai falar: “Olha isso, ela chegou até ali sendo negra com o cabelo igual ao meu, então eu também posso chegar, e em muitos outros lugares que me dizem que eu não posso”. É uma grande representatividade, isso foi um marco.

E como foi a experiência de participar de Ilha de Ferro, o que mais instigou você nesse trabalho? Fazer Ilha de Ferro foi uma grande experiência, porque eu nunca tinha feito nenhuma série e então esse trabalho veio em um momento muito bom da minha vida, como aprendizado, troca. Eu fiquei muito feliz pelo resultado tanto da primeira, quanto da segunda temporada, por trabalhar com um elenco tão incrível, uma equipe maravilhosa, os diretores ótimos. Ilha de Ferro foi um grande presente. O que mais me instigou nesse trabalho foi todo o universo offshore da plataforma, do petróleo e também fazer os cursos antes de começar a gravar, que foram os cursos de Salvatagem e HUET. Antes de entrar fiz várias coisas, fiz uma prova teórica e uma prática de combate a incêndio, então isso tudo foi muito bacana, aprendi muita coisa.

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