Kelzy Ecard, a adorável fofoqueira Genu: “Novo universo estimulante para mergulhar”

Após sofredora Nice, atriz se destaca com papel leve em Éramos Seis e exalta generosidade da parceira Gloria Pires


  • 08 de outubro de 2019
Foto: Globo/César Alves


Por Luciana Marques

*Veja a entrevista completa no vídeo, abaixo.

Depois de um bom tempo dedicada quase que integralmente ao teatro, com vários prêmios no currículo, há cerca de dois anos Kelzy Ecard passou a brindar também o público da TV com o seu talento. Depois da estreia densa como a dona de casa Nice, que sofria abuso do marido machista em Segundo Sol, agora a atriz já se destaca num papel totalmente diferente: da fofoqueira Genu, no núcleo leve de Éramos Seis. “Eu sou uma sortuda antes de tudo”, diz ela, ressaltando que vê muitos colegas sem trabalho.

Na trama, a personagem adora saber da vida dos outros e é vizinha e fiel amiga de Lola (Gloria Pires). “É engraçado porque ela não fala da fofoca para os outros, ela comenta dentro de casa, não passa a informação adiante”, conta a atriz, que enaltece a generosidade em cena da colega Gloria. Há cerca de três anos percorrendo o país com a elogiada e premiada peça Tom na Fazenda, Kelzy diz que é hora de resistir porque uma sociedade sem manifestações culturais “emburrece, se brutaliza e se torna violenta”.  


Como está sendo participar de Éramos Seis? Tô feliz da vida! É outra experiência, diferente. É uma novela de época, com outra linguagem, com outro tempo de acontecimento. A personagem é muito diferente da Nice, que eu fazia em Segundo Sol. Então estou me divertindo loucamente.

Você chegou a acompanhar a versão mais recente da trama, de 1994? Eu assisti pouco, porque já estava trabalhando, não conseguia ver com a frequência que gostaria. Mas eu li o livro quando criança, e foi um dos livros que eu mais chorei de emoção. Eu me lembro de correr para a cama dos meus pais pra dar uma choradinha depois de ler. É uma história muito humana, muito verdadeira, real possível, independentemente de época.

Genu (Kelzy Ecard). Foto: Globo/Raquel Cunha

A sua personagem adora uma fofoca, né? Fale um pouco da Dona Genu... Ela é casada com o Virgulino, que pra minha sorte e alegria é feito pelo Kiko Mascarenhas, ator extraordinário que eu amo de paixão. Ela é vizinha e a melhor amiga da Lola. Ela é fofoqueira, fica o dia inteiro de olho no que está acontecendo com a vizinhança. Mas ela não é maledicente, é como se fosse a novela que ela assiste. Numa época que não tinha rádio, nada, ela só era uma dona de casa que se ocupava de ver a vida dos outros.

Você conseguiu trazer alguma coisa do livro que você leu na infância para a personagem? Sim. Essencialmente, a Genu é muito mais próxima do livro. A personagem existe do começo ao fim, porque alguns personagens não existem no livro, como o Virgulino. No livro ela é um pouco mais soturna do que a gente procura imprimir na novela, pois ela faz parte de um núcleo leve. Ela é sem noção, fala coisas absurdas, porque simplesmente solta as coisas.

Como tem sido a experiência de ter tantas parcerias bacanas na novela? Eu estou muito feliz gravando. Uma das melhores coisas do trabalho são as parcerias. E quando você atua, não tem outra! Não tem como você atuar se você não é parceiro. E tem um núcleo jovem incrível dos meus filhos, que são maravilhosos, tanto as crianças quanto os adolescentes. O meu marido é o Kiko Mascarenhas, na novela eu sou a melhor amiga da Gloria Pires. Bom pra quem isso? Pra mim, tá! Vocês não imaginam o prazer, a honra e a alegria que tenho de ser parceira de cena da Gloria. Vou todos os dias para o set como se estivesse indo para o melhor parque de diversões do mundo. Eu aprendo com ela, admiro vê-la fazendo. E além da atriz extraordinária que é, a considero uma das maiores que já vi atuando, ela é uma parceira generosa, divertida e companheira.

As pessoas ainda se lembram da Neide, a sua personagem em Segundo Sol? Ela foi a minha primeira personagem em uma novela inteira. Ainda hoje tem gente que me reconhece. Outro dia, recebi uma mensagem linda de uma mulher falando o quanto foi importante pra ela ter vivido essa história, porque muita coisa foi modificada pra ela no dia a dia. Ela aprendeu a identificar que o que passava era uma situação de abuso. Olha a responsabilidade que a gente tem e que às vezes nem sabe.

Virgulino (Kiko Mascarenhas) e Genu (Kelzy Ecard). Foto: Globo/Raquel Cunha

Você acha que demorou para ter esse espaço na televisão ou veio quando tinha que ser? Pra mim veio no momento certo, de verdade. Porque eu acho que agora eu consigo saborear esse trabalho. Eu vim para a televisão acho que com uma certa maturidade artística e de vida. Não sei se há alguns anos eu teria conseguido me dedicar tanto e usufruir tanto desse momento que é realmente um privilégio. Eu estou me divertindo horrores, estou vendo o quão é maravilhoso fazer televisão quando você tem material como a gente está tendo agora e como teve na última novela.

E são papéis fortes não só na TV como no teatro, né? Eu tenho tido a sorte nos últimos anos de poder escolher aonde trabalhar, e isso realmente é um privilégio, porque tenho amigos e amigas que não estão conseguindo trabalho. Então tenho tido a sorte de fazer essas escolhas e também de ser escolhida. Tom na Fazenda, por exemplo, é uma peça que fala do preconceito, da exclusão social, fala especificamente da homofobia, mas também do quanto a gente se esconde e se maquia na vida para poder ser incluído e ser aceito. É uma peça que está no terceiro ano em cartaz, passamos por 38 palcos diferentes, tem uma longevidade. E em Éramos Seis, todo o período em que a novela se passa é de muita transformação social. A gente vai passar por uma revolução no meio na novela e também pela questão do papel da mulher na sociedade. É um outro universo incrível e estimulante de estar mergulhando.

Você é uma atriz que veio do teatro, sempre está no palco, como tem driblado esta crise toda na cultura, essa coisa estranha da “demonização” dos artistas? A gente está sofrendo cortes e uma certa perseguição por instâncias que na verdade deveriam estimular a cultura e nos proteger. Porque a gente vê o quanto é importante o que a gente faz, e não estou falando de mim como pessoa física, eu falo de mim e dos outros como artistas. A sociedade que não se reinventa, não se vê, não se espelha, não se redescobre através das manifestações culturais é uma sociedade que emburrece, que se brutaliza, que se torna violenta. E é tudo o que a gente está vendo. Mas o que a gente vê nas salas de espetáculo é um público ávido por estar ali compartilhando. O Tom na Fazenda desde a estreia já teve grande transformação, e a gente já vê de uma ótica diferente, do quanto é importante. Aí virou um manifesto! Agora mais ainda é importante que a gente finque o nosso pé e possa falar do que a gente achar relevante. Não pode ninguém de cima dizer o que pode e o que não pode ser dito. Temos discussões importantes para todos os púbicos. Então é muito duro o que a gente está passando.

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