Julia Stockler, a Justina de Éramos Seis: “Me faz olhar o mundo de novas maneiras”

Estreante na TV, atriz é professora no Tablado e protagoniza longa que representará o Brasil no Oscar


  • 14 de outubro de 2019
Foto: Sergio Baia


Por Luciana Marques

*Veja a entrevista completa no vídeo, abaixo.

Se até agora o público da TV não conhecia Julia Stockler, aos poucos o talento dessa atriz de 31 anos será assunto nas rodas sobre teledramaturgia. Na última semana, sua personagem apareceu pela primeira vez em Éramos Seis e já chamou a atenção. Justina sofre de um distúrbio mental não diagnosticado na época, e sua mãe, Emília (Susana Vieira), opta por mantê-la longe do convívio social. “Essa personagem é um presente, ela me faz olhar o mundo de novas maneiras”, conta.

Com uma carreira consolidada nos palcos, Julia dá aulas na tradicional escola carioca de teatro Tablado. Além da novela, ela é uma das protagonistas da série Jungle Pilot, no ar no Universal Channel, e também está no elenco de Gilda, no Canal Brasil. Outra felicidade da atriz é ver as conquistas do longa-metragem A Vida Invisível de Eurídice Gusmão, de Karim Aïnouz, o qual protagoniza junto com Carol Duarte e tem Fernanda Montenegro no elenco.

O filme foi escolhido para representar o Brasil no Oscar 2020 e o resultado se estará entre os finalistas na categoria Internacional sai em janeiro. O longa já levou vários prêmios no exterior como o da Mostra Um Certo Olhar, no Festival de Cannes. “É um momento maduro na minha carreira com trabalhos que me fazem pensar o mundo de hoje. Não estou fazendo nenhum trabalho que não tenha uma conexão política profunda com o que eu acredito. E isso pra mim é muito importante”, ressalta.

Justina (Julia Stockler). Foto: Globo/Raquel Cunha

Explica um pouco mais sobre essa doença da Justina... A novela se passa nos anos 20, e a Justina tem um transtorno mental, que nessa época não era diagnosticado. Talvez hoje em dia a gente pudesse levar isso para um espectro autista. Eu costumo dizer que ela é uma personagem extremamente sensível, intuitiva, artística e ingênua em algum lugar.

Como foi o laboratório para viver essa personagem? Eu fiz um trabalho grande de busca de referências, tanto em filmes quanto em livros. Eu fui ao Instituto Priorit, que fica na Barra, aqui no Rio. E eles têm uma acompanhamento com autistas de alta funcionalidade. A gente conversou muito, pintou junto. Isso pra mim foi importante nesse primeiro momento para situar o que seria esse espectro, porque é gigantesco e muito individual ao mesmo tempo.

Como é a ligação dela com essa mãe, a Emília? É uma relação de muitas camadas, complexa, porque a Emília ama essa filha, ela só não sabe o que fazer pra lidar com essa diferença. A Justina é muito carinhosa, ela tem o afeto acima de tudo. E a mãe afastou a irmã dela para que a irmã não pegasse a “doença”, porque ninguém sabia o que era. Só que essa irmã vai voltar e a gente vai ver o que vai acontecer entre elas.

E como é na sua estreia na TV ser logo filha de uma diva como a Susana Vieira? No início, eu fiquei com muito medo. Minha primeira novela, fazer logo a filha da Susana Vieira... O que é isso? Mas a Susana é uma atriz extremamente generosa. Ela é intuitiva, ela começou no teatro, e eu venho do teatro, Então ela sente logo os atores que têm jogo com ela. E ela me abraçou profundamente, me recebeu de braços abertos. Eu não tenho nada para falar a não ser coisas extremamente positivas sobre a Susana enquanto atriz e enquanto pessoa.

Justina (Raquel Cunha) e Emília (Susana Vieira). Foto: Globo/Raquel Cunha

A Vida Invisível está tendo conquistas atrás conquistas. Por que você acha que o filme tem chamado tanto a atenção? O filme fala sobre a condição da mulher nos anos 50. E eu acho que não é muito diferente do que a gente vive hoje. Apesar do que o que a gente vive hoje ser muito mais jogado embaixo do tapete, só que é uma opressão masculina irremediável em torno do desejo da mulher. São mulheres invisíveis numa sociedade extremamente patriarcal. E eu acho que a gente vive isso hoje de alguma maneira. O filme tem uma potência de amor entre as irmãs, fala de esperança, de saudade, vazio, sobre como empoderar as mulheres. A minha personagem, a Guida, ela representa a resistência feminina, porque ela trabalha numa fábrica, foi mãe solteira.  

Acha que demorou para ter um espaço na TV? Eu acho que veio no momento ideal, porque eu tenho uma trajetória no teatro grande, sou professora de teatro no Tablado, eu fiz um filme agora, A Vida Invisível, ganhamos Cannes. Estou com 31 anos e acho que é o momento de chegar numa novela e fazer um trabalho maduro. Então eu acho que o tempo é muito sábio.

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