Jonathan Azevedo: “O melhor remédio para preconceito, racismo, é o amor”

Ator, que fez o Sabiá, diz que a leitura o salvou e sonha abrir biblioteca em sua comunidade


22 de fevereiro de 2018

Foto: Alexandre Pollon

Por Luciana Marques

Um minuto de prosa com Jonathan Azevedo basta para se encantar por esse carioca da gema. Tranquilão, gente boa e divertido, ele conquistou o Brasil, em 2017, interpretando, pasmem, um bandido, o Sabiá, em A Força do Querer. Adotado aos quatro meses de idade pelo casal Sérgio Tibúrcio de Azevedo e Sildeia, o ator teve uma infância humilde, na comunidade Cruzada São Sebastião, no Leblon, onde o apartamento dos pais hoje virou uma espécie de “ponto turístico”. “As crianças batem na porta para ver o troféu do Faustão”, conta o ator, que venceu na categoria revelação.

A fase frutífera acontece após muita batalha na carreira, com início no grupo teatral Nós do Morro, no Vidigal, em 2002. Desde então, soma 14 filmes. No elenco da série Ilha de Ferro, com Cauã Reymond e Sophie Charlotte, Jonathan, que também é cantor, e integrava o grupo Melanina Carioca, parte para novo desafio musical. Agora, ele faz parte do dueto Neggs, com Jefferson Brasil.

Na entrevista, ele cita ainda alguns “pequenos” sonhos. Entre eles, ganhar o Nobel da Paz, um Oscar e, o maior de todos, fazer uma biblioteca na sua comunidade. E alguém duvida?

"Aprendi que a minha vida é uma jornada. Não importa a dificuldade que eu vá passar, Deus sempre tem algo mais bonito lá na frente. Sou consciente da minha função nesse plano, de ser feliz e levar essa alegria, esse amor às pessoas."

Foto: Reprodução Instagram

Você foi adotado ainda bebê. O que os seus pais significam na sua vida?

Eles representam tudo de maior que eu tenho. Meu pai representa o amor para mim, é uma pessoa de coração muito grande. E a minha mãe representa a fé, o acreditar. Eles são os alicerces que eu mais me apoio em qualquer situação. Sem eles, não sou nada. Pessoas que me pegaram, sem saber literalmente o que seria da minha vida, sem condições nenhuma de criar um filho no momento, mas, mesmo assim, se esforçaram. E hoje eles estão colhendo comigo o fruto disso tudo.

Já conseguiu realizar algum sonho deles, deu algum presente em especial?

Primeiro, levei eles para passar uns dias Búzios, eles amaram. No meio disso tudo, praia, meu pai adora pescar, ele trazia peixe para a gente. Agora, juntei uma graninha e vou fazer uma obra na casa deles, na Cruzada São Sebastião. Eu estou feliz de poder realizar isso para eles. Meu pai é aposentado, e ele teve um câncer de faringe, ficou três meses e meio internado no INCA e conseguiu se curar. Ele tinha 120 quilos e chegou a 46. É um cara muito forte.

Como é a sua relação com religião?

Cresci na igreja evangélica junto com a minha mãe. Minha avó era do candomblé, mãe de santo. E com essa misticidade toda que veio junto com a minha vida, de fato não sei quem são meus pais biológicos, enfim... E minha mãe me ensinou que a fé é você acreditar no impossível. Aí fui crescendo, amadurecendo, as coisas foram acontecendo, perdi vários amigos. Mas teve um que me marcou muito, porque se suicidou. E ele me avisava que iria se matar, tentou o que podia, mas chegou um dia que ele de fato se matou. Mas eu acho que, por mais que nós tentássemos, tinha uma coisa que a gente não podia evitar.

"Sem meus pais, não sou nada. Pessoas que me pegaram bebê, sem condições nenhuma de criar um filho no momento, mas, mesmo assim, se esforçaram. E hoje eles estão colhendo comigo o fruto disso tudo."

E como você lidou com tudo isso?

Eu fui tentar saber o que acontecia com essas pessoas que se suicidavam. Aí fui conhecer um pouco mais sobre Allan Kardec. Me apaixonei pelas histórias dele. E eu gosto de ler, comecei com Chico Xavier. E, no meio disso tudo, eu aprendi que a minha fé é o que me move. A minha igreja é o meu corpo, meu santuário, é a minha energia. Viajei para Marrocos, e um marroquino me falou sobre o alcorão. E ele disse que a palavra mais dita ali é compaixão. E, na bíblia, é amor. E a compaixão leva ao amor e agrega várias coisas, como o amor também. E essa viagem foi antes de eu entrar na novela. Ali vi que estava preparado para viver um novo momento.

Com a parceira de cena em A Força do Querer, Juliana Paes. Foto: Reprodução Instagram

O que mais levou de lição de tudo isso?

Eu aprendi que a minha vida é uma jornada. Não importa a dificuldade que eu vá passar, porque Deus sempre tem algo mais bonito lá na frente. Sou uma pessoa consciente da minha função nesse plano. A função é ser feliz e levar essa alegria, amor, carinho que recebi do meu pai e da minha mãe, em vez de ser para cinco, 10 pessoas, para milhões.

Por que acha que o Sabiá, um bandido, caiu tanto no gosto do público?

Aí voltamos para aquela questão da luz. Quando eu tive oportunidade de fazer outros bandidos,em nenhum deles eu tive a preocupação de humanizar os caras. Não queria que o Sabiá fosse aquele ruinzão, matador do matador, eu queria fazer aquele cara que conversa com a comunidade, que troca ideia, ri. E também teve essa questão do vocabulário. Eu, Jonathan, transito em diversos mundos e adoro as gírias, invento o meu próprio vocabulário (risos). E eu tive a oportunidade de conhecer pessoas como a Gloria Perez (autora), o Papinha (Rogério Gomes, diretor), e eles deixavam eu falar o texto do meu jeito. E o que chegou, alem dessa comunicação, foi a energia de um cara que transportava amor. E acabou alcançando todas as idades, classes, os gays amam o Sabiá, as meninas, os homens, as senhoras. Acho que é porque o mundo que nós estamos vivendo está muito sem amor. Por incrível que pareça, e por mais que fosse bandido, ele era muito correto. E você enxergar amor onde nunca imaginava, é uma surpresa gostosa. Então, acho que era isso que eu, a Juliana Paes, Emilio Dantas, Marcos Junqueira, lembrávamos toda a vez que a gente estava em cena. Muito amor, era isso que chegava.

"Sabiá acabou alcançando todas idades, classes, os gays amam o Sabiá, as meninas, os homens, as senhoras. Acho que é porque o mundo que nós estamos vivendo está muito sem amor. Por mais que fosse bandido, era correto. E você enxergar amor onde nunca imaginava, é uma surpresa gostosa."

Você já fez mais de 10 filmes... Acha que demorou muito para chegar um personagem como esse?

Acho que tudo aconteceu na hora certa. E o que eu quero é poder fazer a diferença. E não para os outros, mas ajudar a minha comunidade, os meus pais, as pessoas que amo, e algumas outras que talvez eu nem conheça pessoalmente, mas, por terem essa trajetória parecida com a minha, passam a acreditar que possam também realizar seus sonhos. Quebrar as barreiras do que você achava que não era capaz.

Foto: Wilmore Oliveira

Você tem noção que já está sendo referência para as crianças da comunidade?

Sim e isso é incrível! Eu estava conversando com um menino baiano e ele disse que dava aula numa escola da Bahia, e pediu para os alunos, na época do Natal, escreverem num papel o que queriam ganhar do Papai Noel . Os 70, ou mais, escreveram, eu quero ter o cabelo do Sabiá, ou eu quero conhecer o Sabiá. E eram crianças de 7 a 10 anos.

Há atores negros que são referências de gerações, Tony Tornado, Milton Gonçalves, Lázaro Ramos. O que eles representam para você? Recentemente, o Lázaro até lançou o livro Na Minha Pele, que fala muito da questão do racismo...

Graças a Deus, tive esses anjos, gigantes, que abriram as portas para a gente. E sou uma pessoa que no meio dessa questão do pré-conceito, tento frisar o conceito, porque o pré já é passado. Eu acho que é uma coisa muito viva hoje, mas que é conversada de uma forma muito antiga. Então, graças ao livro Na Minha Pele, e toda a influência que o Tornado deu para a gente, não só como ator, mas como músico, o Milton, eu vejo que hoje nós chegamos na era do amor. Aonde poder falar de amor quebra preconceito também, porque, muitas das vezes, a pessoa que tem o preconceito, tem algo muito vazio dentro dela. Ela tem algo que não teve como se suprir, e vê em outra pessoa uma forma de querer desabafar. Vejo isso meio como uma doença, que precisa ser tratada. E o melhor remédio é o amor. Então, a melhor forma de você exigir respeito, é respeitando. Procuro cada vez mais respeitar cada pensamento, e levar conceito. O que seria o conceito para mim? É o conceito de que não é porque eu sou negro que vou deixar de ir em um restaurante, de tentar fazer uma faculdade, é poder ter.

"A pessoa que tem o preconceito, tem algo muito vazio dentro dela, que não teve como suprir, e vê em outra pessoa uma forma de querer desabafar. Vejo isso meio como uma doença, que precisa ser tratada. E o melhor remédio é o amor."

Você hoje tem um estilo todo próprio, é fashion. Sempre foi assim?

Minha mãe disse que quando eu era pequeno, gostava de escolher bota do Rambo, camuflado, depois virei surfista, skatista, aí comecei a andar largado. Depois veio o Melanina, e as pessoas diziam, você não pode andar largado, é artista. E quando fui fazer Malhação, o diretor disse: 'Como você consegue vir direto do mar para gravar? Os fãs vão querem tirar foto e você vai estar todo salgado'. Ali foi um start para eu me inteirar um pouco mais sobre moda. Tive pessoas que me ajudaram. Fui aprendendo e hoje coloco uma coisa aqui, outra ali, e chega até no ouvido do Neymar. Tanto que ele vem comentar minhas fotos (risos).

Como definiria seu estilo?

Luz na caminhada, seja o que você é. Não há nada melhor na moda do que ser o que você é.

Como está sendo participar das gravações da série A Ilha de Ferro?

Faço um personagem incrível, o Fiapo, melhor amigo do personagem do Cauã. Cara paquerador, alegre, para frente, gosta de conquistar mulher, de trabalhar, de defender os trabalhadores. E eu também posso brincar muito, porque ele tem um lado de sátira.

Com Jefferson Brasil, da dupla Neggs. Foto: Reprodução Instagram

E na música, como está o projeto Neggs?

Estou fechando agora o meu ciclo de oito anos com o grupo Melanina, um ciclo de muito aprendizado, onde nós levamos e recebemos muito amor. E começamos agora o ciclo do Neggs, meu e do Jefferson Brasil. A gente precisava ter um contato mais com as nossas origens, não só na questão pop, mas uma liberdade maior artística. E dentro desse projeto, a gente consegue alcançar isso. Vamos lançar tudo em breve, vem clipe do Neggs. É um brasileirão, rap, samba, suingue do funk, e vamos trabalhar muito com dança e com cena. Agora somos dois, podemos focar mais nos ensaios.

Tem mais projetos?

Vou fazer um filme em março. E quero muito poder amarrar outro trabalho na Globo. E eu quero muito estudar também, e estou tendo oportunidades. Ganhei uma bolsa de estudo, ou em Londres ou Los Angeles, quero aprender inglês, para somar e agregar mais com a empresa.

Qual é o seu maior sonho?

Meu sonho é ganhar um premio Nobel da paz, a premiação mais completa. Mas também queria um Oscar. Mas o sonho maior mesmo é abrir uma biblioteca na minha comunidade. Foi o que salvou a minha vida, que me fez olhar para o mundo de outra maneira. Meu pai lia muito, e eu queria ler. Ele lia O Alquimista, do Paulo Coelho. Eu comecei a ler e reler aquele livro, até que na quinta vez eu percebi o que era aquela busca. Eu vi que o meu tesouro está dentro de mim, da pessoa que eu sou. Cada dia que eu puder ser uma pessoa melhor, estou achando um novo tesouro, fico mais rico.