Jeniffer Nascimento: Da origem humilde à consagração no PopStar

Atriz lembra batalha desde os 5 anos. “No começo quebrei muito a cara, não tinha norte”


  • 02 de novembro de 2018
Foto: Sergio Baia


Por Luciana Marques

*A entrevista também está disponível em vídeo, abaixo.

Todo o domingo desde a estreia da segunda edição do PopStar, as redes sociais piram a cada apresentação de Jeniffer Nascimento. A jovem de 25 anos exala talento, atitude e segurança ao interpretar hits eternizados na voz de divas como Whitney Houston e Beyoncé. Vencendo ou não a atração, a paulistana já deixa a sua marca naquele palco. No último programa, ao entoar Girl on Fire, de Alicia Keys, ganhou notas 10 e estrelas de todos os jurados. “As pessoas acham que entro no palco super segura, mas ninguém imagina a crise de ansiedade que tenho a semana inteira”, conta.

Mas para Jeniffer, mais do que um desafio artístico e também psicólogico, a participação no reality tem lhe trazido um carinho ainda mais especial. “Hoje graças ao programa as pessoas me param na rua e me chamam por Jeniffer, conhecem a minha história”, diz ela, que se destacou em Malhação: Sonhos, em 2014/15, como a Sol, e em Pega Pega, em 2017, como a Tânia.

E falando em trajetória, neste bate-papo descontraído com o ArteBlitz, a atriz nascida e criada no conjunto habitacional Cohab 1, em Artur Alvin, zona leste de São Paulo, lembra da sua luta por um espaço nas artes desde os 5 anos de idade. Ela também fala da emoção de ver que está servindo de exemplo para muitas crianças e jovens negras, e ainda revela o nome de alguns “padrinhos” que lhe ajudaram a abrir seus caminhos.

Foto: Globo/Estevam Avellar

Desde nova, você já se sobressaia, gostava de cantar, de aparecer nas festinhas?

Meus pais brincam que na infância eu era super decidida, que eu sempre soube o que eu queria ser. Desde que eu me entendo por gente eu ficava em frente do espelho imitando a Xuxa, fazia ligação, voz de personagens e da apresentadora. Ia para atrás da TV e ficava chorando porque queria descobrir como é que entrava lá. Aí meu pai fez uma TV de papelão para eu poder entrar e ser feliz. Então, sempre soube da minha paixão pela arte, minhas brincadeiras sempre tinham a ver com arte.

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Quando você percebeu que era isso mesmo que queria fazer profissionalmente?

Com 5 anos de idade eu estava assistindo um programa de TV, se não me engano, do Gugu Liberato. E aí passou uma propaganda de uma agência de atores mirins. E pedi para minha mãe me levar porque queria ser artista! E minha mãe louca comprou a ideia . Mas essa agência não deu muito certo, era meio roubada, daquelas que você gasta milhões para fazer um book, faz vários trabalhos e não ganha nenhum cachê. Mas foi ótimo como experiência. Depois fui indo para outras agências, até que em uma delas descobri que ia rolar um workshop de um curso profissionalizante de teatro. E no final eles iam escolher uma criança para ser bolsista do curso, eu participei e fui a escolhida. Minha carreira começou na publicidade.

E quando vieram os primeiros trabalhos como atriz?

Fiz publicidade dos 8 aos 13 anos. E aos 13 anos eu estava naquele limbo da puberdade. Você não é nem criança e nem adolescente, está meio estranha, de aparelho... Aí não estava passando em mais nenhum teste de publicidade. E minha tia viu um anúncio de um teste para o musical do Peter Pan, mas ali dizia que precisavam de meninas de 13 a 15 anos, loiras e ruivas para ser a Wendy. Aí falei: 'Não tenho perfil, o que vou fazer lá?' E ela disse: 'Mas você nunca fez um teste para um musical, vai pelo menos para conhecer, o não você já tem'. E eu fui. Cheguei lá e não sabia o que era partitura, todas as crianças mega estudadas. Mas aí cantei Hero, e passei! Os gringos falaram para a minha mãe: 'A vontade da sua filha era tanta de fazer esse musical que ela vai fazer um papel de um menino que nunca foi feito em país nenhum'. E aí eu fiz um menino perdido, e assim começou minha carreira profissional no teatro musical. Depois fui emendando um musical no outro por 6 anos.

Foto: Globo/Isabella Pinheiro

E no meio disso tudo você também teve alguns “padrinhos” especiais, né?

Fiz o Castelo Rá Tim Bum, depois Hairspray, com direção do Miguel Falabella, e aí as coisas começaram a tomar uma proporção maior. O Miguel escreveu uma participação para mim no Toma Lá Dá Cá, foi minha estreia na TV. E o Edson Celulari pagou um curso para eu fazer na Broadway. Fiquei um mês estudando em Nova York. Depois fiz outros musicais. Tentei participar de O Rei Leão, foram 10 testes. E mais para o final, a diretora Julie Taymor falou: 'Você é ótima, mas não tem cara de leoa'. Fiquei arrasada, porque todo mundo dizia que a personagem era a minha cara. E fiquei naquela crise de não querer mais fazer musicais!' E surgiu o reality Fábrica de Estrelas. Pensei, como estou um pouco desiludida com musicais, vamos entender o que é a Jeniffer cantora? E foi ótimo, fui uma das cinco vencedoras, a gente integrou o grupo Girls, que infelizmente durou pouco. E em seguida fui chamada para Malhação. Fiz a Sol, e o público abraçou essa personagem sonhadora, batalhadora, com uma história até um tanto parecida com a minha.

Hoje quem vê você brilhando no palco do PopStar nem imagina os obstáculos que você passou...

Eu lembro que quando eu entrei em Malhação, as pessoas falavam: 'Como é que você se sente, tão nova, já na Globo?' E eu dizia: 'Tão nova? Eu comecei minha carreira com 5 anos, tenho 20, foram 15 anos de estudo para chegar numa primeira grande oportunidade'. Sempre tive o pensamento muito positivo, óbvio que já caí em várias roubadas. Faz parte do amadurecimento. No começo a gente quebrou muito a cara porque não tinha um norte, eu e meus pais. Eu moro na Cohab 1, em São Paulo, não tinha ninguém ali do meu lado que sobrevivesse da arte ou que tivesse algum contato com o audiovisual que poderia orientar a gente. Então, a gente descobriu na raça mesmo o que funcionava e o que não funcionava.

Foto: Sergio Baia

E a questão da representatividade, de hoje você ser exemplo para tantas crianças e jovens?

Para mim ser uma figura de representatividade é uma honra. Acho que é uma responsabilidade e ao mesmo tempo um privilégio. Quando comecei tinha poucas referências. Acreditava pouco até onde podia chegar, porque não via muito disso. Na minha época vem muito na memória, por exemplo, a Taís Araújo. Mas ela era uma entre milhares. Hoje o fato de ter mais figuras de representatividade, mais mulheres negras na televisão, com suas personalidades, estilos, é muito importante para as crianças se inspirarem. Agora no PopStar eu estou recebendo diversas mensagens. Uma mãe falou: 'Minha filha fica te assistindo e agora quer fazer seus penteados'. Uma disse que a filha sempre quis cantar e agora pediu para colocá-la na aula de canto. Isso para mim é muito gratificante. Acho que isso é necessário!

Você está arrebentando no palco PopStar. Sempre teve essa segurança toda?

Sou uma pessoa extremamente perfeccionista, ansiosa, então o programa, além de estar sendo uma grande oportunidade, um desafio artístico, está sendo um desafio pessoal e psicológico. Fico muito nervosa! No primeiro ao vivo eu fiquei tão preocupada de estar sem voz na hora, que durante a semana criei uma gripe que não existia. Então é um exercício diário, toda a semana faço auriculoterapia para poder me equilibrar, medito, faço orações, sempre tento equilibrar corpo e mente. Ensaio pelo menos três vezes por semana, faço aulas de canto, de dança. Acho que o meu desafio no programa é me superar a cada apresentação. Penso que cada uma tem que ser feita como se fosse uma final. Então, eu me cobro muito, e quando eu chego ali no palco o nervosismo é imenso, mas que bom que consigo disfarçar.

Foto: Globo/Paulo Belote

O que você tem mais aprendido com o programa?

Comecei com uma responsabilidade grande por ter tido as melhores notas na estreia. Ao mesmo tempo que isso é bom, é assustador. Então eu tenho aprendido a exercitar a minha calma, ter muito pé no chão. Não vejo esse primeiro lugar como um resultado já decidido jamais. Sempre quero dar o meu melhor, e vejo o quanto os meus amigos também estão correndo atrás. E torço por todos, e eu acho que o que eu mais aprendi nessa competição, porque já participei de outro reality, é que você não precisa desejar o mal de outra pessoa para se dar bem. Você pode desejar o bem, ajudar a outra pessoa, dar dicas. Nosso clima nos bastidores é muito esse, a gente se ajuda. Acho que isso é o que eu mais tenho aprendido com os meus amigos dali, que a gente pode estar numa mesma energia. Esse programa é uma travessia para todos, no final um vai ganhar o tal do prêmio material, só um! Mas todo mundo vai sair dali ganhando alguma coisa, sabe?

Acredita que com o programa muita gente passou a ver a Jeniffer artista com um outro olhar?

Eu acho que esse programa trouxe uma proporção muito legal para Jeniffer mesmo. Por exemplo, quem me conhece ou que me para na rua, sempre me chama pelo nome de um personagem. Sou sempre a Sol, a Tânia (de Pega Pega), não tinha essa coisa de saber qual é o nome da atriz. Até dentro da casa mesmo, quem já tinha feito algum trabalho comigo me conhecia, mas do contrário não. Acho que esse programa foi legal para as pessoas conhecerem quem é a Jeniffer Nascimento. E conhecem mais um dom meu, mais um talento, que é a música, porque como a minha grande projeção foi na Sol, muita gente achava. Então foi muito legal nesses dois aspectos, para conhecerem a Jeniffer e para saber que a Jeniffer atriz também canta, que a Jeniffer é uma artista.



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