Homem de fé em Apocalipse, Marcos Winter quer distância de rede social

“Se eu tivesse, já teria tomado um tiro na testa. Minha palavra é muito pesada”


  • 20 de dezembro de 2017
Foto: Munir Chatack / Record TV


Por Redação

Com 33 anos de carreira, um poderoso currículo de mais de 35 novelas e séries, papeis de destaque como o Joventino, de Pantanal, em 1990, várias peças, Marcos Winter está de volta ao ar em Apocalipse, como Oswaldo Santero. Adolescente revoltado e problemático, após cometer atos de vandalismo e ser preso, o personagem se converte ao ler a Bíblia e vira um homem de fé. “Ele sai da cadeia como um cara mudado mesmo. Vem como um pilar de moral, como pessoas absolutamente comuns, que trabalham, tem seus conflitos, mas que tem uma fé muita arraigada. E é esse o perfil dessa família toda, dos arrebatados... Nem sei se posso falar muito. Mas a história conta isso”, diz o ator.

Sem papas na língua, Winter não foge de assuntos polêmicos, pelo menos, em entrevistas  ao vivo. O ator, que tentou levar para a TV a peça Monólogos de Marijuana, com esquetes que abordam mitos e lendas sobre a maconha com ironia e sem fazer apologia ao uso, se diz totalmente a favor da descriminalização das drogas. Sempre muito engajado em causas de direitos humanos, porém, admite não ter rede social. “Se tivesse, acho que já teria tomado um tiro. A minha palavra é muito pesada”, avalia.

"Meu personagem existe por causa da fé dele, e é um jeito bacana de você ser uma pessooa do bem. Ele sempre tem uma palavra legal, uma oração."

Seu personagem passa por transformações fortes, como analisa isso?

A história é suficientemente forte para entender tudo isso. Ele é um rapaz que foi criado no meio da violência, da bandidagem, marginalizado, se envolveu com tudo isso, foi para a cadeia no dia anterior de uma revolução, de uma chacina. E sobreviveu. Ele existe através dessa fé. Acho que isso é legal, tem muita gente assim. E é um jeito bacana de você ser uma pessoa do bem. E o Oswaldo é um cara que sempre tem uma palavra legal, um momento de oração. São pessoas comuns, que tem problemas emocionais, conflitos.

Juma (Cristiana Oliveira) e Joventino (Marcos Winter), sucesso em 1990, em Pantanal

Como se preparou para viver esse homem tão religioso?

Eu, particularmente, não tive muito tempo, porque fui um dos primeiros a começar a gravar. Tinha acabado de fazer a série Magnífica 70 e, no mesmo dia, vim na Record. No dia seguinte, já estava gravando. Mas a gente teve um encontro com todo o mundo, a autora, tivemos algumas palestras, tem também alguma coisa que a gente lê. Hoje tem a internet, com muitos documentários interessantes sobre isso na TV fechada, no Discovery. 

"Se você está com 30 anos, acha que está no auge. Com 15, então, mais ainda. Eu estou com 51 e já dá meio para entender que essa história de auge é relativa."

Você passou por quase todas as TVs, como avalia esse seu caminho da carreira?

Comecei a fazer teatro em 84 e a primeira novela foi na Globo, em 88. De lá para cá, foi muita coisa. Teve Manchete, Pantanal, depois voltei para a Globo, fiz muitos trabalhos. Aí saí da Globo, fui fazer a Record em SP. E a gente não para... Antigamente, quando comecei, eu até brinco, era complicado... Mas hoje em toda a família tem um artista.

Há uma fase de sua carreira que definiria como o auge ou está sempre em busca?

Isso é bobagem! Se você está com 30 anos, acha que está no auge. Com 15, então, mais auge ainda. Eu estou com 51 e já dá meio para entender que essa história de auge é relativa.

"Eu sou absolutamente a favor da descriminalização da maconha. Acho uma hipocrisia o que acontece por aí, o que se ganha com o tráfico."

Teve uma época em que você ficou um tempo longe do ar também...

A profissão mudou muito. Fiz uma escolha há muitos anos, de não fazer parte de nenhuma rede social porque a minha palavra é muito pesada. Eu sou muito envolvido, minha vida inteira engajado com a relação de direitos humanos, trabalho escravo, com violação sexual infanto-juvenil. Então, acho que eu tendo uma rede social hoje, já teria tomado um tiro na testa. Porque tem muita gente desonesta por aí. A gente vai esperar uns 40 , 50 anos para ter alguma esperança aqui. Infelizmente, cagaram com o nosso país. Essa é a minha opinião mesmo, por isso que eu não tenho rede social. 

Você atuou na peça Monólogos de Marijuana, sobre a maconha, e tentou levar para a TV. O projeto não seguiu em frente?

Tentei oferecer para TVs, algumas até contataram comigo, mas ainda não tiveram coragem. Acho que faltou coragem.

Qual a sua posição sobre a descriminalição da maconha?

Eu sou absolutamente a favor. Acho uma hipocrisia o que acontece por aí, o que se ganha com o tráfico. Queria ver se tem algum macho aí que proíbe o chope, o vinho. Então, acho que tem que separar primeiro o que é droga e o que é veneno. Não pode liberar o crack, porque ele vai te matar. Enfim, como não se liberam diversas substâncias que vão ser fatais. Agora, o vinho é uma droga, a cerveja é uma droga, a gente está tapando o sol com a peneira. Em seis mil e tantos anos de história escrita, não existe ninguém que morreu por causa de maconha. Fiz uma peça que falava justamente sobre isso. Acho uma hipocrisia o que está acontecendo , dentre outras coisas... E me deixem quieto, por favor!



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