Giselle Batista: “Toda mulher ainda esbarra no machismo e sabe bem como isso se apresenta”

No elenco de Homens?, a atriz destaca temas necessários mostrados na série e reflete sobre feminismo


  • 22 de junho de 2020
Foto: Jairo Goldflus


Por Luciana Marques

No elenco da série Homens?, do Comedy Central Brasil, Giselle Batista se identifica com a independência e a liberdade da personagem Natasha. Na trama disponível na Amazon Prime Video Brasil, ela surge grávida, mas não é namorada de nenhum dos caras que se relacionou no episódio anterior. Em meio a histórias de pegação de um grupo de amigos na faixa dos 30, que ainda não amadureceu, a atriz destaca que a produção, apesar de ser comédia, debate assuntos muito importantes, como machismo, aborto, preconceito e traição. “Os temas são profundos, e as mulheres grandes protagonistas de suas histórias”, ressalta.

Aos 34 anos, Giselle se define como feminista. Ainda nova, mesmo sem entender mais a fundo sobre o termo, sempre questionou a competição entre mulheres. “Sempre vi nelas irmandade e força”, conta. E ressalta que esse entendimento tem muito a ver com o fato de ter nascido junto com uma grande mulher, a irmã gêmea, Michelle Batista, também atriz. E quando a questão é o machismo, ela afirma que toda a mulher ainda esbarra com isso. E o que tenta fazer é pulverizar ideias sobre o assunto em seu entorno.

O que mais instigou você ao participar da série Homens? Muitas coisas me animaram em relação ao projeto. O elenco sempre me salta aos olhos primeiro, são pessoas que admiro muito, os roteiristas, a temática, tudo me interessava. Muito bom quando a gente faz um trabalho com tantos estímulos. Esse projeto me fez e me faz muito feliz.

A atriz com o colega de cena Gabriel Godoy, em bastidores da série Homens? Foto: Reprodução Instagram

Apesar de ser uma comédia, a trama aborda o machismo, que vem incrustado há anos na sociedade. Qual a importância de se falar de um assunto tão sério, mas com leveza? Sempre falo que Homens? parece ser mais uma série sobre pegação e universo masculino, mas não é. Todo mundo que assiste se surpreende. Justamente porque é um outro olhar sobre as coisas. Os temas são inteligentes, profundos e as mulheres grandes protagonistas de suas histórias. Muito importante a gente levar todos os temas pra dentro de casa e abrir debate.

Você, como mulher, ainda sente o machismo forte, vivencia isso ainda? E como tenta conversar sobre com pessoas próximas, em uma relação, com seu pai, tios... porque vem muito de cultura, né? Sim, é uma construção social. Toda mulher ainda esbarra nisso e sabe bem como o machismo se apresenta. Às vezes na diferença salarial, às vezes nas piadas de um domingo em família, às vezes na rua com pessoas que você nunca viu. Me sinto bem confortável na minha casa em me colocar e falar sobre essas coisas. Não tenho o poder de mudar o mundo todo de uma vez, mas posso ir pulverizando novas ideias no meu entorno.

A sua personagem é uma mulher forte, ousada, que faz o que quer com o corpo, muito na linha da mulher empoderada, livre. Você se vê hoje como essa “nova mulher”, se definiria como feminista? Me defino feminista, sim. Acho que sempre fui mesmo quando eu não entendia o termo ou nunca tinha ouvido falar em sororidade. Sempre questionei a competição entre mulheres e encontrei nelas irmandade e força. Nasci com uma grande mulher, né? Minha irmã (Michelle Batista).

Foto: Jairo Goldflus

Vê muitas semelhanças entre você e a Natasha? Acho que a independência e a liberdade da Natasha também fazem parte de mim. Admiro o fato dela falar tão bem e ser tão esclarecida.

Homens? segue essa linha do humor. É um gênero que você se sente bem confortável, curte fazer? Numa obra com vários temas polêmicos às vezes é no que parece desconfortável que a coisa rola e conseguimos trazer um tom reflexivo. Como uma cena de amor numa clínica de aborto. Tem coisas que preciso pensar bastante, outras a gente vai observando, formando opinião a respeito, juntando elementos e, por fim, colocamos em cena. Mas a Natasha levanta bandeiras que eu já penso há anos. Me sinto bem segura em defender as ideias dela, porque também são minhas.

A área da cultura está bastante afetada. Como acredita que deve ser essa volta do teatro, do audiovisual, está muito preocupada com tudo isso? Estamos vivendo um momento terrível  da nossa história. Não bastasse a pandemia que assola o mundo o nosso desgoverno torna o cotidiano cada dia mais difícil. Não achei que fosse viver uma ameaça à democracia desse jeito. A área da cultura está bastante afetada como todas  as outras, mas ao mesmo tempo, me orgulho em pensar que a cultura vem salvando a quarentena de muita gente. Imagine tudo isso sem música, sem poesia, sem filme, sem série, sem livro... E sim, estou preocupada, claro. Todos estamos.

E quais as novidades do canal do youtube em parceria com a sua irmã. Vocês têm conseguido produzir mais nesse momento? Seguimos lançando vídeo novo toda terça às 11 horas. Esse é o nosso compromisso com o público. Nunca deixamos de fazer. O canal é sempre um grande aprendizado e uma troca muito bonita. Nessa quarentena fizemos muitos vídeos em família, já que venho me dividindo entre a casa do meu namorado e a dos meus pais. Tem sido bem orgânico tudo isso. Até porque nessa quarentena acho que ninguém deve se sentir obrigado a nada. Ficar bem já é muito. Temos feito muita yoga, muitas receitas e muitos livros e séries. Me empenho em produzir bem-estar. São tempos bem difíceis.

Foto: Jairo Goldflus

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