Giovanna Grigio: “A gente deve ter a liberdade de amar quem quiser”

Destaque de sua geração, atriz protagonizou primeiro beijo entre meninas em Malhação


  • 05 de março de 2018
Foto: Vinícius Mochizuki


Por Luciana Marques

Simpática, falante, alto astral e pronta para os desafios. Aos 20 anos, a atriz Giovanna Grigio vem se destacando como um grande talento de sua geração. Em Malhação: Viva a Diferença, que terá o último capítulo exibido hoje, segunda, dia 5, o papel de Samantha, até então pequeno, acabou crescendo e sendo histórico para a trama teen.

Junto de Manoela Aliperti, a Lica, ela protagonizou o primeiro beijo entre meninas na novela. “Tenho muito orgulho desse trabalho e da mensagem que a gente passou”, diz ela, em entrevista ao Portal ArteBlitz, no Gran Nobile Rio de Janeiro Barra. A participação na novela também lhe transformações pessoais. “Acho que me acordou para a vida”, conta.

Carreira

Aos 6 meses de idade, Giovanna já fazia publicidade. Com 9, foi repórter do Melhor do Brasil, da Record. Depois estudou teatro na Fundação das Artes de São Caetano do Sul. Ainda apresentou o Band Kids, e atuou em Chiquititas, como a Mili, em 2013. Em 2015, fez a Gerusa de Êta Mundo Bom! Nos palcos, participou das peças Meninos e Meninas e Aprendiz de Feiticeiro. Nos cinemas, atuou em Eu Fico Loko.

"Com a Samantha ganhei confiança, em primeiro lugar. Acabei me achando linda e gostosa como ela (risos). E acho que, pela obra, aprendi a abrir os olhos para o mundo."

Samantha e Lica (Manoela Aliperti). Foto: Globo/Raquel Cunha

Você ainda é jovem, mas já fez muita coisa na carreira. Tudo tem acontecido até mais do que você imaginava?

É muito louco, porque quando eu era criança, eu já sonhava em estar na TV. Eu lembro de mim, pequenininha, sentada no sofá com a minha avó. E ela dizia, ah, minha filha, um dia você vai estar na novela. E eu tenho 20 anos e já fiz 3 novelas. Caraca, o que é isso? E, mesmo assim, os sonhos vão mudando. Conforme a gente vai alcançando nossos objetivos, nossas ambições vão se tornando outras, maiores. Sou muito feliz, porque acho que já fiz muita coisa legal, importante, relevante para a sociedade e, para mim, claro. Então, gratidão sempre. Amo o que faço! Nunca vou conseguir parar de trabalhar na vida.

E como foi interpretar à Samantha?

A Samantha foi um presente inesperado. No começo, era uma personagem muito menor. E a história foi acontecendo, e quando chegou o capítulo que eu teria um romance com a Lica, pensei: 'Caraca. O que é isso? Não acredito!'. Ninguém esperava, nem eu, nem a Manu, acho que nem o Cao (Hamburguer – autor). Ninguém imaginava que a história ia tomar esse rumo. E foi maravilhoso! A Samanha sempre foi uma garota muito forte. Era uma menina muito desinibida, confiante, e eu aprendi a ser muito confiante com ela. Tive que aprender a me amar cada vez mais para passar isso para ela. E foi maravilhoso! Um beijo, Sam, valeu por isso! (risos). Ela era assim, chegava nos garotos que queria ficar, ela falava sobre sexo, coisa que é muito tabu entre as garotas.

Para você, ainda tão jovem, como foi dar vida a uma personagem homossexual?

Samantha sempre foi muito empoderada. E teve a descoberta do amor, só que diferente do que ela esperava, era com outra menina. Acho que isso, não necessariamente foi uma questão. Lógico, foi um choque tanto para a Lica quanto para a Samantha, porque nenhuma das duas estava esperando ou estava acostumada com isso. Porque as duas só ficavam com meninos. Mas, mesmo assim, não teve um lance, de, 'não vou ficar com ela porque é menina'. Não! Elas são abertas. Se abrem para esse romance, com medo, tipo, será que vai dar certo? Elas têm muito em comum, então, é a descoberta de um amor muito sincero. E, agora, no fim da novela, o público pode ver, a gente gravou o clipe de uma música do Erasmo Carlos e do Roberto Carlos, chamada Gente Aberta. A música fala muito desse sentimento da Samantha pela Lica. 'Eu não quero mais conversa com quem não tem amor. Gente certa é gente aberta, e se o amor me chamar, eu vou'. É muito bonita. Nossa, fico toda arrepiada...

Foto: Vinícius Mochizuki

"Agora, me sinto envolvida em causas que não são necessariamente minhas, mas sei que só vou ser feliz lutando por isso. A causa LGBT, a racial, do ensino público. Acho que essa Malhação me acordou para a vida."

E a tão falada cena do beijo, foi difícil?

No começo, acho que foi. Não é que deu medo, é porque a gente não é acostumado a ver beijos entre duas meninas ou dois caras na TV. E quando chegou o capítulo, a gente pensou, nossa, será que vai para o ar, será que o público vai aceitar? O que vai acontecer? E foi para o ar, o público aceitou, abraçou isso. E foi mais de uma vez que aconteceu. E eu acho que, na verdade, não é o beijo que é a grande importância disso, é o casal. O que essas personagens estão levando para o mundo. Óbvio que o beijo é uma representação muito forte do que isso quer dizer. Outro dia, recebi uma mensagem de uma amiga minha, que estava andando com a priminha dela de cinco anos na rua, e ela viu duas meninas se beijando. E disse: 'Olha prima, são duas meninas, igual a Lica e a Samantha. Eu adoro a Lica e a Samantha'. Então, caraca, olha isso que a gente está fazendo, a gente está transformando esse tabu em amor, a gente está despertando o amor nas pessoas. Acho que foi uma troca tão gostosa entre a gente e o público, o Cao, o Paulinho (Silestrini), nosso diretor, que cuidou de cada detalhe com tanto carinho. E eu tenho muito orgulho desse trabalho e da mensagem que a gente passou.

Quais foram os maiores ganhos para você de ter vivido a Samantha?

Com certeza, a minha confiança. No começo, me passaram que a Samantha é a gata da escola, ela pega todo o mundo, ela é poderosa. E eu, insegura, ai gente, mas porque me escolheram para fazer essa personagem? (risos) Como é que eu vou ser a gata da escola, não tinha essa confiança. Foi algo que eu construí com a Samantha, com cada fala dela. Tinha uma que era maravilhosa... O Juca ia pegar um livro e emprestado com ela, e era de ficção científica, e ele olhava para ela e dizia: 'Caramba, Samantha, você lendo ficção científica, nunca pensei'. E ela respondeu: 'Só porque eu sou linda e gostosa, eu não posso gostar de naves, aliens e etc.' E aí eu aprendi a me achar linda e gostosa mesmo e passar essa verdade para a Samantha. Acho que confiança, em primeiro lugar. E acho que, não necessariamente pela Samantha, mas pela obra, aprendi a abrir os olhos para o mundo.

Foto: Vinícius Mochizuki

Explique um pouco mais sobre isso...

A gente acordou. Essa é a real! Essa novela fez a gente acordar. E fez o telespectador acordar para o que estava acontecendo com o mundo. Porque eu sou uma pessoa privilegiada, eu sei dos meus privilégios, eu tinha condição de frequentar escola particular a vida toda, moro praticamente próximo da capital, é uma vida muito privilegiada comparada a outras. E, a partir do momento que a gente assume nosso privilégio, a gente entende que está tudo errado. Agora, eu me sinto envolvida em causas que não são necessariamente minhas, mas eu sei que só vou ser feliz lutando por isso. As causas LGBTs, que eu me identifico muito, acho que é tão importante a gente ter a liberdade de amar quem a gente quiser. As causas raciais, falam que não existe racismo no Brasil, está muito louco quem fala isso, porque é muito grave. É tudo muito difícil! A gente teve muita discussão sobre o ensino público. Então, eu acho que Malhação me acordou para a vida.

"Sou muito feliz, porque acho que, com apenas 20 anos, já fiz muita coisa legal, importante, relevante para a sociedade e, para mim, claro. Então, gratidão sempre!"

Você disse que a chegada dos 20 anos mudou muita coisa em você. O que, por exemplo?

Sim! Eu fiz 20 anos, em 19 de janeiro, mesmo dia Janis Joplin. E todo o aniversário eu faço uma lista de coisas para fazer no ano. Só que, dessa vez, eu estou fazendo as coisas da lista, antes eu ficava deixando para depois, e não fazia nada. Coloquei que queria fazer uma tatuagem, e eu fiz, um olho na minha nuca. E pulei de asa delta. Foi sensacional! Nossa, uma das experiências mais incríveis que tive. Quase arreguei, mas quando você está lá em cima, voando, nossa, senti uma paz. Eu parei e falei, caraca, a gente fica triste com coisas tão bobas, é tudo tão pequeno. Vivi uma adrenalina, um momento de percepção, que mudou tudo. Eu sai muito tranquila. Eu tirei conclusões filosóficas. Quem tiver essa oportunidade, vá em frente.

Foto: Vinícius Mochizuki

E quais os seus sonhos na carreira?

Quero atuar para sempre. Tenho muita vontade de escrever e de dirigir também. Fazer as minhas próprias histórias e mostrar para o mundo. Tenho vontade de estudar fora, conhecer outras culturas, estilos de atuação, de cinema. Mas sou muito apaixonada pelo Brasil. Amo esse país. Tinha muito esse sonho, nossa, vou ser uma atriz de Hollywood e vou morar na califórnia, fazer muitos filmes, e ser feliz para sempre... Ultimamente, estou tendo outro pensamento. O nosso produto nacional é tão bom, a gente tem tanto filme bom, nosso cinema é respeitado lá fora. Então, acho que tenho vontade de trabalhar no cinema brasileiro, levar para mais lugares do mundo e também para quem não tem condição de assistir. E viajar pelo o mundo!

Veja e entrevista também em vídeo, abaixo!

Agradecimentos: Gran Nobile Rio de Janeiro Barra. Av. Lúcio Costa, 3150, Barra da Tijuca, Rio. Contato: 21-31398000.



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