Fernanda Ribeiro: Ela é a voz de princesas da Disney e da Diana de Lovecraft Country

Atriz, que foi vítima de racismo nas redes, dubla pela primeira vez uma personagem negra na série da HBO


  • 14 de outubro de 2020
Foto: Divulgação


Por Luciana Marques

Sabe quando a gente vai ao cinema ou assiste em casa a filmes de animação e desenhos infantis dublados e se encanta com as vozes dos personagens? Pois é, e a gente nem imagina quem está ali por trás, transmitindo todo o sentimento de princesas, heróis, vilões... Mas nós descobrimos uma dessas vozes: é de Fernanda Ribeiro. A carioca, de 19 anos, já dublou princesas, na fase criança, como a Charlotte, de A princesa e o Sapo, Ellie, de UP – Altas Aventuras, Rapunzel, de Enrolados, e Merida, de Valente. Além de Anaís Watterson, do desenho O Incrível Mundo de Gumball, Jessie, de Clay Kids, e Yuri, de Meu Amigãozão. “Pra mim, o primordial para ser um bom dublador é saber interpretar”, diz.

Recentemente, Fernanda postou em suas redes um vídeo mostrando o trabalho na dublagem de princesas como Merida e Charlotte. Além de muitos elogios, ela foi vítima de racismo, de pessoas dizendo que, por ser negra, não poderia ser dela a voz de uma princesa da Disney. “O que mais me feriu é saber que existem pessoas tão más”, fala. Um pouco depois desse triste episódio, Fernanda foi convidada para ser dubladora da série Lovecraft Country, da HBO. Mas quando lhe falaram, ela nem imaginava que a produção era protagonizada por negros e que ela daria a voz à Diana, papel da atriz Jada Harris. “É importante para mostrar que não só os brancos podem ser os heróis. E lá fora eles estão num patamar bem à frente do que nós aqui no Brasil nesse tema”, avalia.

Foto: Divulgação

Fernanda, que é irmã do também ator Ygor Marçal, o Mosquito, de Salve-se Quem Puder, entra na segunda fase para o elenco de apoio da trama das 7.

Você começou a atuar aos cinco anos. O que mais lembra dessa fase? Eu comecei bem pequeninha. Grease foi um trabalho que me marcou muito. Era a única criança fazendo a treinadora de vários adultos. Foi  engraçado! E na TV, me lembro muito da Daiane, de A Lei e o Crime. Mas a minha primeira personagem foi a tia Anastacinha, no Sítio do Picapau Amarelo, quando a Cuca transformou os velhos em crianças.

Depois, a partir dos 7 anos você começou a dublagem. Como você descobriu esse dom? Eu descobri na prática (risos). E foi muito inesperado o meu contato com a dublagem. Eu tava fazendo o curta-metragem Confusões de Adolescente, com a Marilis Rodrigues. E no mesmo local do curso, só que segundo andar, o Claudio Galvan dava curso de dublagem. E um dia eu estava sem fazer nada e falei, mãe, eu vou lá assistir, para ver como é. E eu voltei pra casa, amando aquilo. Eu pedi, mãe, por favor, me coloca no curso. Mas ela disse que não tinha dinheiro naquele momento. Passou um tempinho e a Marelis abriu o curso Vamos Fazer Arte. E lá tinha curso de dublagem na época. E fiz com a Flávia Saddy. E com uma semana de curso, o representante da Disney no Brasil, na época era o Garcia Júnior, me chamou para fazer o teste da Ellie, de Up – Altas Aventuras, porque ele tinha gostado muito da minha voz. Eu fiz e passei. Aí descobri que eu dava jeito pra coisa. Depois fui chamada para outros trabalhos. A Disney gostou muito da minha voz e me chamou para fazer outras princesas, a Charlotte, a Merida, a Rapunzel, todas elas pequenininhas. Porque eu era um neném, né? (risos). Então eu descobri que eu levava jeito para aquilo, amava fazer, aí não parei mais.

Trecho de A Princesa e o Sapo, em que Fernanda dubla a princesa Charlotte. 

O que é necessário na sua opinião para ser uma boa dubladora? Pra mim, o primordial é saber interpretar. Dublador sabe interpretar bem, porque a gente só tem a nossa voz pra passar sentimentos, emoções, pra passar tudo o que aquele personagem tá sentindo, na intenção que ele tá falando. Então, tem que saber interpretar muito bem. E o que eu indico sempre para as pessoas que me perguntam como ser dublador, o primeiro de tudo é fazer um curso de teatro. Porque como falei, tem que saber interpretar. E se você sabe interpretar com pessoas te olhando, você vai saber interpretar só com a sua voz. Ah, e outra coisa que eu falo sempre é: leia muito, em voz alta, que exercita muito a voz.

Quais os trabalhos de dublagem que mais marcaram você? O primeiro a gente nunca esquece, foi a Eli, do Up, e a Anaís, de Gumball. Não que os outros não tenham me marcado, mas esses dois são os meus xodós. A Anaís fiz da primeira até a quarta temporada. Depois trocaram a dubladora porque a minha voz engrossou muito. Ela foi um desafio pra mim, porque eu peguei ela novinha, bem no início da minha carreira. Foi um desafio porque ela era totalmente diferente de todas as princesas que eu tinha dublado antes.

Houve aquele episódio chato de quando você fez o vídeo de dublagem de princesas que, além de muitos elogios, você sofreu ataques racistas. O que mais feriu você nisso tudo? O que mais me feriu nisso é saber que ainda existem pessoas que praticam o racismo. Isso me machuca muito. E é isso que a gente tem que tentar mudar todos os dias, tentar mostrar que a gente merece ter o nosso espaço, as nossas oportunidades. E que ninguém pode parar a gente. Então, o que mais me feriu foi saber que existem pessoas más, que não querem a nossa felicidade e não valorizam o nosso trabalho.

Por outro lado, você tem noção que acabou também sendo referência para muitas meninas negras que devem ter ficado felizes de saber que por trás daquelas princesas há a voz de uma atriz maravilhosa, dubladora, negra? Sim, eu tenho noção. E recebi muitas mensagens e recados. Até hoje eu recebo de muitas crianças que me mandam áudios dizendo que se inspiraram em mim, que amam o meu trabalho, que sempre tiveram curiosidade em saber de quem é a voz. Os pais também falam, ah, eu tenho uma filha negra e ela quer ser dubladora, e eu vou mostrar você pra ela, para ela se inspirar, pra ela ver que é possível, que ela pode. E sim, realmente, todos nós podemos, não importa a nossa cor de pele, todos nós podemos. São muitas as mensagens de pais e crianças falando que se inspiram e que amam muito o meu trabalho.

Trecho do desenho O Incrível Mundo de Gumball, em que Fernanda dubla a Anaís. 

Você foi contratada para ser dubladora da série Lovecraft Country, da HBO. Como recebeu esse convite? Eu estava há um tempo sem dublar, aconteceu todas essas coisas do racismo, aí eu voltei, estou voltando aos poucos. Eu recebi o convite do Tiago, que é o diretor de dublagem da série aqui no Brasil. Só que antes de a gente chegar no estúdio, a gente não sabe quem a gente vai dublar e nem o que a gente vai dublar. E quando eu cheguei lá, fiquei sabendo que era essa série. Aí eu fui pesquisar. E o Tiago não sabia se a personagem ia continuar, disse que podia se tornar fixa, mas não sabia ao certo. Mas ela continuou, graças a Deus. E depois de um tempo, eu nem sabia que já tinha sido lançada. Ela foi lançada, no dia 16 de agosto, um dia depois do meu aniversário. Aí eu vi que a série já era sucesso. E é realmente é maravilhosa.

Na série, você dubla a personagem Diana, vivida pela atriz Jada Harris. E é a primeira vez que você dubla uma atriz negra. O que significa isso pra você, falando também da importância da representatividade? Foi uma surpresa pra mim. Eu lembro que na época de A Princesa e o Sapo, eu até falei na época para a minha mãe, porque engraçado, que uma menina branca iria dublar a Diana, uma personagem negra, e eu iria dublar a personagem branca, a Charlotte, sendo negra. Mas depois a gente vai entendendo que é por causa da voz, tem que ser compatível com a voz. Mas a Diana, de Lovecraft Country, foi realmente uma surpresa. Depois veio a Demi, que também é uma menina negra, de um documentário da HBO. Mas a Diana foi a primeira personagem negra grande que eu dublei. É realmente isso, a questão da representatividade. A gente está precisando muito. A gente não encontra uma série como a Lovecraft assim e com um público tão grande. E é importante para mostrar que não só os brancos podem ser os heróis, os protagonistas... A gente também pode. A série passa um pouco isso e mostra também um pouquinho do que a gente passa no nosso dia a dia, meio que para conscientizar. E mostra que a gente está ocupando o nosso lugar. Lá fora, pelo menos, eles estão lutando, fazendo de tudo para que isso aconteça. Eu consigo perceber que isso ainda falta no Brasil, infelizmente. Queria que estivéssemos no mesmo patamar que eles.

Fernanda (à esquerda), com a mãe, Andrea, e o irmão Ygor. Foto: Reprodução Instagram

Você também foi convidada para participar da segunda fase de Salve-se Quem Puder. Fala um pouco sobre esse trabalho...  Eu não tenho personagem fixo, eu faço elenco de apoio. Eu estou em várias cenas durante a novela, nessa segunda fase. E o convite, na verdade, a Frida, produtora de elenco, ela me mandou uma mensagem dizendo que estavam precisando de elenco de apoio, podendo ter participação com fala ou não. Aí eu mandei uma foto, porque eu já tenho cadastro na Globo, eles aprovaram e comecei a atuar na novela no dia do meu aniversário. Eu digo que foi meu presente de aniversário esse ano.

Seu irmão, o Ygor Marçal, também está no elenco. Como está sendo atuar na mesma trama que ele?Nossa, está sendo uma felicidade estar na mesma novela que ele. Eu não tenho cenas com ele, até porque dizem que a gente é muito parecido, então não pode ter contato na novela. A gente nunca gravou junto, mas está sendo especial, uma felicidade enorme para a família inteira. E a novela é incrível, a produção, elenco, todos muito acolhedores.

Qual o seu grande sonho como dubladora e como atriz? Eu tenho um sonho que em breve eu vou realizar. Eu estou fazendo faculdade de cinema (na Estácio) pra isso. O meu sonho é me tornar diretora de TV, cinema, teatro. Eu amo a profissão e acho que combina muito comigo. Eu sou tão diretora, que no primeiro período da faculdade me colocaram de líder de turma. Eu gosto muito de estar à frente da coisa, fazer a coisa acontecer e depois ver o resultado e ver que ficou bom.

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