Felipe Haiut e o seu movimento com a arte que “inspira a viver”

No ar em Bom Sucesso, ator está à frente de ONG que leva teatro e música a hospitais


  • 13 de agosto de 2019
Foto: Guilherme Lopes


Por Luciana Marques

Em Bom Sucesso, Felipe Haiut dá vida ao profissional de tecnologia da informação Jefferson. Introspectivo, ele se solta mesmo em seu canal no YouTube onde cria personagens femininas e vozes para elas, como no famoso Girls in the House. Essa faceta de dublador é novidade para o ator, mas a da criação artística não. “Independente das condições, também sinto a necessidade de seguir criando. É uma questão de sobrevivência”, ressalta ele, autor do livro A Garagem, que virou peça.

E é justamente fazendo arte, e sabendo do seu poder de transformação, que o ator de 31 anos tenta driblar todo esse momento de desmonte da cultura que o país vive. “Eu acho que quem tem qualquer tipo de hostilidade em relação à arte, precisa ter mais contato, ver o seu impacto pra entender como é necessária numa sociedade”, diz. E Felipe pode falar isso com propriedade a partir do resultado do seu lindo trabalho com o projeto Conexão do Bem, que leva teatro e música a hospitais.

Jefferson (Felipe Haiut). Foto: Globo/João Cotta

Como está sendo fazer o Jefferson, o que tem mais instigado você? Estar com o elenco e a equipe da novela tem me proporcionado momentos bacanas de se viver. Tem muita diversidade, afeto e parceria. É um clima leve e divertido e isso tem me instigado no trabalho.

Ele leva vida “dupla”, é mais introspectivo na editora, mas se solta ao criar personagens on line, vozes... Isso é algo próximo a você? Não. Eu sou mais do ao vivo. Não faço muitas concessões sobre o que eu estou sentindo para estar com alguém ou algum lugar. Quando eu saio de casa, vai o pacote completo.

Você se surpreendeu com essa sua nova faceta de criar vozes, de fazer dublagem? Sim. Eu recebi como um desafio: como que eu vou fazer isso? No processo de pesquisa, o trabalho com a Leila Mendes, preparadora vocal da novela, foi fundamental. A gente debatia as personalidades e ela me instruía tecnicamente, nomeava o que eu estava experimentando e me apresentava caminhos com a voz. O trabalho de preparação foi fundamental.

O Jefferson se mete numa espécie de quarteto amoroso no momento em que, junto com a Thaissa (Yasmin Gomlevsky), transformará a Evelyn (Mariana Molina) em uma mulher sensual para ela conquistar o Felipe (Arthur Sales). O que acha que pode sair desse “caldo”? Eu acho que esse caldo vai dar uma canja. Pela primeira vez ele tá vendo, fora do mundo virtual, o impacto do trabalho dele. Tá se sentindo reconhecido e orgulhoso de si. Fora o impacto que isso pode ter, estamos falando de paixão, né? E de manipulação. A dupla - Thaissa e Jeff - que tá brincando com fogo, ao manipular o casal, pode acabar se queimando.

Foto: Guilherme Lopes

Há muitas identificações entre você e o Jefferson? Quais? Eu escrevo dramaturgia, e eu identifico que o Jeff também tem uma onda assim. Me parece que existe um dramaturgo dentro dele ainda não identificado. Não é a toa que ele trabalha numa editora e apesar de todo o trabalho por lá, sem ninguém desconfiar, ele usa o tempo que sobra na editora para criar personagens e os conflitos deles. Além de pensar toda a dramaturgia dos personagens, ele também os dubla com diferentes personalidades. Eu acho que é na criatividade dele que eu me identifico mais.

Como foi o seu galgar até conseguir um espaço, passou por muitos perrengues, lembra de algum momento mais complicado? Quem escolhe essa profissão sabe das dificuldades que pode passar, mas a gente escolhe por paixão e porque o teatro é transformador na vida de todos nós. Mas é muito menos glamuroso do que parece.

Acha que tudo tem acontecido no momento certo na sua carreira ou demorou demais? Hoje, olhando pra trás, entendo que as coisas tem o seu tempo mesmo. Que é preciso calma. Desenvolvi muitos projetos nos últimos anos: fundei uma ONG que leva teatro e música pra hospitais públicos, escrevi peça, publiquei livro e plantei árvore. Só o filho eu fiquei devendo (risos).

Você tem um currículo respeitado no teatro, é bacharel, cursou O Tablado... Vendo hoje a situação que vivemos com esse desmonte da cultura, o que tem feito para driblar isso tudo e continuar? Eu sigo fazendo teatro. A partir da minha experiência nos hospitais, eu vejo a potência transformadora que o teatro e a música têm bem na minha frente. Quando uma criança hospitalizada esta vendo um instrumento musical ser tocado pela primeira vez ou os atores improvisando uma cena na sua frente, aquele espaço extremamente assustador pra ela se transforma. Eu já vi pediatrias se transformarem em fundo do mar e no espaço sideral. Eu já vi pacientes voltando a falar cantando uma música com a gente.

A novela trata da questão da efemeridade da vida, do quão devemos aproveitá-la... E você faz trabalhos de levar arte e música a hospitais. O que mais tem aprendido com essas visitas sobre essa linha tão tênue entre a vida e a morte? Que a gente morre mesmo e esse papo que todo mundo morre velhinho é mentira. A gente não sabe se chega até lá. Ninguém sabe o amanhã. Não dá pra não viver o presente projetando um futuro. Aprendi que também é muito importante ter qualidade de vida. Se cuidar, ter tempo de qualidade consigo mesmo, com os amigos, silenciar, ouvir música, se expressar, chorar, se divertir.

Jefferson (Felipe Haiut) e Susana Nolasco (Ingrid Guimarães). Foto: Globo/César Alves

Por que e quando você decidiu idealizar esse projeto Conexão do Bem dentro de hospitais? O Conexão do Bem surgiu da minha vontade de transformar o mundo ao meu redor. E como eu poderia fazer isso como? Fazendo o que mais gosto, que é teatro e música. Eu entendi que a minha profissão poderia estar também a serviço do social e, dessa forma, consegui me entender cidadão e o meu papel na sociedade. E surgiu também do desejo de fazer um experimento artístico, de ver o poder da arte dentro de um espaço diferente e inusitado, que é o hospital. Quando comecei esse trabalho, de uma maneira bem despretensiosa, fui entendendo que o impacto era profundo naquele ambiente, ele transformava a atmosfera do lugar, as pessoas e aquele espaço em um lugar mais humano. A idealização do projeto foi em 2011, me juntei com mais alguns artistas e nós começamos a fazer essa pesquisa de teatro e música dentro do hospital para ver o impacto que teria. O projeto também vem do desejo de me sentir vivo e de inspirar as pessoas a viver. O Conexão do Bem é um movimento que inspira as pessoas a viver. 

Felipe por Felipe, como se definiria? Alguém que sempre quis responder essa pergunta e nunca conseguiu achar uma resposta.

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