Fabrício Boliveira, o Roberval: “Com Cacau, é amor mesmo”

Ator avalia dubiedade do papel e reflexão importante além do mocinho ou vilão


  • 30 de agosto de 2018
Foto: Globo/Estevam Avellar


Por Redação

Desde o início de Segundo Sol, o público já amou e já odiou Roberval inúmeras vezes. Para o seu intérprete, Fabrício Boliveira, um dos mais requisitados atores de sua geração, o mais interessante não é saber se ele é vilão ou mocinho. “O que vejo sobre resposta do Roberval é as pessoas trazendo as questões dele para dentro de casa. Uma arte que não está em só uma resposta, mas na discussão e embate”, avalia ele.

A partir do capítulo 100, pode ser que o telespectador comece a aplaudir novamente as atitudes do empresário. Ele será o grande aliado de Luzia (Giovanna Antonelli) para destruir as vilãs Laureta (Adriana Esteves) e Karola (Deborah Secco). E será que há lugar para um afeto verdadeiro no coração desse cara tão traumatizado? “Com a Cacau (Fabíula Nascimento) é onde eu sinto que passa longe a coisa da vingança. É amor mesmo”, opina ele.

Um dos nomes mais presentes atualmente no cinema nacional, Fabrício lançou esse ano três filmes: Além do Homem, Tungstênio e Simonal. E no início de 2019, estreia Breves Miragens, sobre um taxista na noite do Rio. “Tinham coisas programadas no roteiro que a gente não precisou fazer ficcional, tudo aconteceu. Polícia me parou, pediu dinheiro, fogo na rua, vi até a morte de uma pessoa ao fim de um jogo de futebol”, conta.

Cacau (Fabíula Nascimento) e Roberval (Fabrício Boliveira). Foto: Globo/Raquel Cunha

Como você definiria o Roberval?

O Roberval é traumatizado (risos). Essa novela inteira fala sobre traumas do passado e como é que a gente lida com ele. O Roberval parece muito só ser um cara que voltou por vingança, mas, de algum jeito, elas não estão dando certo, ou parece que não tem uma vingança tão relacionada com acabar com alguém. Parece que ele voltou um pouco mais para se resgatar do que para se vingar. Então, eu acho que ele fica nesse lugar de um cara traumatizado.

 

Caco Ciocler e o “ranço” com Edgar: “Voltou a ser submisso”

Fabiula Nascimento: “Cacau é real, dona de seu corpo, pensamento”

E essas ações dele, meio dúbias, como avalia?

Ele tem ações que não são tão corretas, mas ao mesmo tempo, os objetivos dele parecem corretos. Ele entra nesse espaço de dualidade e de não maniqueísmo, de não violãozinho e nem mocinho. O que sempre quis dentro desse personagem é abrir discussão, e isso tenho visto bastante nas redes sociais. As pessoas estão sem saber como qualificar ele. Ficamos acompanhando as ações dele para, a partir daí, ter algum tipo de reflexão. As pessoas estão trazendo essas questões dele para dentro de casa, pensando e julgando também, mas sem ter uma definição. Acho isso tão interessante para a arte. Para mim, essa é a grande vitória desse personagem.

Você disse que o Roberval tem o bem e o mal dentro de si. No momento, ele está sendo uma pessoa má na trama?

Em cada cena tem minúcias partículas de verdade, sinceridade e de possível olhar de compaixão pelo irmão, por exemplo. O Edgar vai trabalhar para ele, só que ele nunca trabalhou na vida, nunca fez nada a vida inteira. Esse cara que está dizendo que vai se vingar do irmão está, de algum jeito, dando uma possibilidade do irmão ter algum tipo de experiência profissional na vida. Ele deu uma possibilidade de emprego para a Karen (Maria Luisa Mendonça), para a Rochelle (Giovanna Lancellotti). É muito louco isso! Eu também fico super confuso e tentando, ao máximo, clarear e destrinchar cada pecinha, fala e ação dele para que se mantenha nesse espaço que a gente não consiga definir com exatidão se ele é vilão ou um mocinho.

A maldade do Roberval é justificável?

Justificável não é porque nenhuma violência hoje, principalmente a do casamento com Cacau (Fabíula Nascimento), é justificável. E essa, para mim, é a grande maldade até agora do Roberval dentro da história. Não é justificável, mas a gente entende. De algum jeito, você olha para trás e entende que é possível, e que não pode definir esse cara só como o destruidor. Até porque tem um lugar dentro dele que é de um cara que precisa de escuta, que não teve família e que foi renegado três vezes. Eu acho que lida muito com o nosso presente, de como vamos olhar para o outro a partir de uma ação que você fez. Tudo que você fez antes é legado? Você é só isso? Eu acho que estamos discutindo rótulos.

Depois do casamento, o público não ficou muito contente com ele...

O Roberval começou amado. Na volta dele foi muito odiado porque, talvez, fosse se vingar da Cacau. No pré-casamento foi amado de novo. Ele ama a Cacau, e todo mundo quer que ele volte e tenha essa relação. No pós-casamento, é odiado de novo. O que parece é que dentro do que o João (Emanuel Carneiro – autor) construiu, dentro do trabalho que estou fazendo junto com os atores e a resposta do público, está tudo condizendo. Está tudo indo por um caminho já meio pensado. Eu sabia que ele teria esse momento de resignação com o público.

Foto: Globo/João Cotta

Como foi fazer aquela cena do casamento de Roberval e Cacau?

É uma cena bastante violenta. Ela teve um corte, foi editada, e foi de um outro jeito ao ar. De algum jeito, o que ficou no ar é um Roberval muito machucado. Vinte anos depois, a causa do trauma dele volta. Claro que a ação que ele fez é indesculpável. É um homem agressor, novamente, se colocando frente a uma mulher. Eu fico pensando muito sobre as denúncias hoje, até que ponto elas são importantes ainda na arte, ou como na arte a gente já aproveita ela para apontar os novos lugares. Talvez, essa seja uma cena que ficou no meio do caminho. É difícil falar que gosto dessa cena. Ver uma cena hoje de violência explícita frente a uma mulher é tão difícil e complicado.

Nesta cena, somente o Ícaro (Chay Suede) tenta impedir que o Roberval bata na tia Cacau. Na vida real, você denunciaria uma briga de casal vizinho, por exemplo?

Denunciaria e bateria na porta. Eu ia dentro para descobrir o que estava acontecendo. Fato que eu não ia deixar essa mulher ser agredida. A gente ia parar a discussão sem saber para onde ia, mas eu estaria no meio. Hoje em dia não dá mais! Tivemos cinco casos recentes de feminicídeo. Isso é muito sério! E tem algum lugar que estamos deixando isso acontecer de forma tranquila.

Você acompanha a repercussão do personagem nas redes sociais?

Eu estou acompanhando o Twitter e me divirto. É uma coisa quase que esquizofrênica. Um dia é um amor e, ali mesmo, tem gente que odeia. No outro dia é um ódio absoluto, ranço total do Roberval (risos). Eu amo isso!

Como está sendo o assédio?

Na rua é engraçado. Eu fui levar meus pais para viajar para Salvador, eles estavam no Rio comigo e com meus irmãos. Eu fui no guichê para resolver fazer o ckeck-in, e a que mulher estava digitando me olhou e falou: ‘Eu não sei se te amo ou se te odeio’. Eu fiquei em silêncio e ri. Depois falei: ‘Mas você está falando de mim ou do personagem? ’. Ela respondeu: ‘Você sabe muito bem quem é’. E voltou ao trabalho, para o espaço dela de reflexão, de pensar cenas dos próximos capítulos.

Para você, qual é o sentimento dele pela mãe, Zefa (Claudia Di Moura)?

Com a mãe, ele tem ainda esse espaço que é do trauma passado que ele não consegue resolver de jeito nenhum.

Roberval (Fabrício Boliveira). Foto: Globo/Raquel Cunha

Você ainda acredita no casal Roberval e Cacau?

O que eu sinto pelos capítulos e dentro dessa construção é que esse cara ama essa mulher, mesmo fazendo toda aquela merda. Eu acho que ele vai insistir nisso um pouco mais, mas eu também não sei se ela vai ceder. Acho que foi traumático para ela. Eu acho que ainda abre uma brecha para o amor. Com vilania, mocismo, o amor impera se for um sentimento de verdade. E ele deve correr muito atrás porque aquela cena foi muito agressiva.

Você é um ator que tem muitos trabalhos no teatro e na televisão, mas somente agora está sendo reconhecido pelo grande público na TV. Como é isso para você?

Isso para mim é engraçado porque vim para o Rio há 13 anos para para fazer a minha primeira novela, Sinhá Moça (2006). Eu me sinto como uma fênix que está sempre ressurgindo, e sempre tem um novo personagem que vai contar uma nova história, e as pessoas vão esquecer um pouco dos outros. Acho gostosa essa sensação, parece que eu estou sempre virando uma outra pessoa. E uma coisa que eu adoro é ser chamado pelo nome personagem. As pessoas me chamam de Roberval, e eu acho uma maravilha.

Você parece muito com o cantor Seu Jorge. As pessoas já te confundiram com ele nas ruas?

Tenho uma lista de confusões: Seu Jorge, Lázaro Ramos, Flávio Bauraqui, Jonathan Azevedo. Eu trato isso de duas formas. Uma brincando, onde falo que nós negros no Brasil somos como chineses. As pessoas não conseguem ver e discernir quem é um e quem é outro. E a outra que é muito séria, a falta de negros na televisão. Isso faz com que a pessoa tenha um personagem uma vez e que a gente ache sempre que é o anterior que está ocupando. Eu fazendo agora o Roberval, no início as pessoas achavam que era o Sabiá (Jonathan Azevedo). Por que ele não está comigo nessa novela? Por que o Lázaro não está? Por que não temos maiores contingentes negros numa novela?

O que você deseja para o Roberval no final da novela?

Eu queria que o Roberval resolvesse esse trauma da vida dele. Tem uma coisa interessante que eu estou desejando para o Roberval, mas para o país também. Ele traz uma questão muito delicada que não conseguimos vencer ainda de o negro estar sempre no lugar servil. Eu queria muito que no final disso tudo, independente do Roberval mocinho ou vilão, conseguíssemos pensar e refletir de verdade sobre isso. Sobre como estamos tratando esse trabalho que é resquício da escravidão dentro do Brasil. As empregadas domésticas existem quase só no nosso país, porque fora as pessoas fazem faxinas diárias, ganham sua grana justa, mas morando em sua casa. De algum jeito, esse personagem traz essa discussão. E eu não queria que essa discussão fosse encoberta sobre mocinho e vilão.



Veja Também