Eriberto Leão a serviço da arte

Ele fala do personagem gay, homofóbico: “A mentira aprisiona e você fica a mercê de forças”


  • 06 de dezembro de 2017
Foto: Globo/César Alves


Por Redação

Em mais um trabalho denso em seus 20 anos de carreira, Eriberto Leão tem chamado a atenção pela atuação como o médico Samuel, um gay, homofóbico. O personagem não se aceita, tanto que casou com a enfermeira Suzy (Ellen Rocche) para manter as aparências, mas continua tendo casos com homens. “Quando você vive uma mentira, fica a mercê de forças interiores e exteriores. E, aprisionados, somos capazes de qualquer coisa”, avalia ele.

Para Eriberto, fã de Jim Morrison, do movimento da contracultura e de Jesus Cristo, o importante é levantar a discussão. “A arte é isso, abre porta. E o público escolhe se vai entrar ou não...”, diz. E, pelos índices de audiência que só sobem, os telespectadores estão cada vez mais ligados para saber como essa história vai acabar. Mas, antes, curta aqui no ArteBlitz uma entrevista com esse ator que se joga nos desafios. Como no recente quadro Show dos Famosos, do Domingão do Faustão.

"Todos os personagens que estão ali existem na vida real. Agora, o que leva a um personagem desses? A que as pessoas discutam esse assunto. O papel da arte é fazer a gente pensar, questionar..."

Você vive um personagem que vai na contramão da luta do movimento LGBT, de as pessoas assumirem a sua orientação sexual... Como vê isso?

Estou a serviço da arte, sou um intérprete. Todos os personagens que estão ali, existem na vida real. Agora, o que leva a um personagem desses? A que as pessoas discutam esse assunto. O papel da arte é fazer a gente pensar, questionar, trabalhar com a dialética, as diferenças. A humanidade só evoluiu porque a gente pôde compreender essas diferenças e saber que sem o elétron, não existiria o próton. Cada um tem a sua força. E o negar é o problema. Se você tem um personagem que nega determinadas forças dentro de si, desejos, a maneira como ele trabalha isso dentro dele, é o que a gente deve pensar. Cada um tem o direito de ser reservado ou de de falar o que quiser, desde que esteja consciente das consequências de seus atos. A minha responsabilidade é como intérprete, amo arte e, para mim, essa novela é uma obra de arte. Samuel é um personagem muito rico. Espero que a história gere discussões e conclusões.

Em Babilônia, o personagem do Marcos Pasquim seria gay e o público acabou rejeitando, já que ele sempre fazia papel de galã. Você também já viveu muitos mocinhos...Teme que possa ocorrer rejeição?

Mas para um ator cujo principal trabalho no teatro foi Jim Morrisson, para um ator que é apaixonado pela contracultura, Allen Ginsberg, William Burroughs... Apaixonado por Jesus Cristo, que diz que a verdade nos liberta, estando na verdade, está tudo certo. Então, isso tudo são coisas que fogem do nosso alcance e a única coisa que eu tenho que fazer é me dedicar ao máximo.

"Todos nós temos a nossa sombra. O que sempre busquei foi não negar a minha e compreendê-la."

Assim como  Samuel, teve algum lado de sua personalidade que já tentou esconder?

Todos nós temos isso, a nossa sombra. O que sempre busquei foi não negar a minha e compreendê-la. Devo muito isso aos meus mestres, o próprio Jim Morrison que diz que a gente tem que enfrentar o nosso medo, se não, ele vai nos perseguir a vida inteira.  Nietzsche também dizia que você tem que revelar os seus demônios para devorá-los e adquirir os poderes deles. O grande problema está quando você não assume a sua sombra. O que sempre busquei foi a arte que me trouxe isso, de identificar em mim determinadas partes do que a gente pode chamar de sombra. Ah, elas existem, isso me interessa, isso não. Isso é sombra ou é só algo que é estabelecido. Você só é livre se está com a casa limpa, se está com poeira debaixo do tapete, qualquer um que pisar, vai virar pólvora e explodir. Então, o que me interessa é essa liberdade dentro da verdade.

Samuel participou da tramoia para internar a Clara (Bianca Bin). Ele pode ser um pouco vilão, mau-caráter?

A partir do momento em que você esconde algo, fica a mercê desses desvios de caráter, na mão de alguém. O que faz ele se desviar, é ele não aceitar o que é, mentir para ele mesmo. 

"As pessoas falam muito... Não houve nenhum tipo de conflito no Show dos Famosos, apenas diálogos. E a gente tem que estar aberto a isso, a opiniões."

Você, como ator, gostaria que ele vivesse um grande amor com um homem?

A novela é longa. Tudo pode acontecer. O que eu desejo é que ele seja o mais verdadeiro possível para que tudo que precise acontecer, aconteça, inclusive, isso. Será que ele merecer um final feliz? Se merecer, sim. Mas quem sou eu para dizer se ele merece ou não.

Na participação do Show dos Famosos, você mostrou ali suas verdades, , interpretou ídolos seus, como o Belchior. Como lidou com comentários do júri de que deveria arriscar mais, se jogar. Rolou saia justa?

Essa apresentação do Belchior foi uma das coisas mais maravilhosas da minha vida. Recebi um retorno de todas as comunidades ligadas a ele, um dos maiores letristas e músicos da nossa história. Inclusive, da família dele. Então, quando você está na sua verdade e tem coragem de estar nela, se age com o coração, tudo que faz, volta. A minha relação com o Belchior e todo o universo que se conecta a esse gênio poético passou a fazer ainda mais parte da minha vida. E está tudo certo! Não teve nenhum tipo de conflito no programa, apenas diálogos. E a gente tem que estar aberto a diálogos, a opiniões. Você não precisa concordar comigo em tudo, mas eu tenho que respeitar a sua opinião e você, a minha. E que possamos mudar em algum momento para ter a clareza de saber o que realmente é melhor. Porque só vai ser melhor o que for melhor para todo o mundo.



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