Emanuel Jacobina sobre fim antecipado de Malhação: “Sintetizei 20 capítulos em 4 da melhor maneira possível”

Criador da trama teen fala que não tinha ideia que a produção chegasse a 25 anos e como celeiro de atores


  • 26 de março de 2020
Foto: Rodrigo Lopes


No próximo dia 3 de abril irá ao ar o último capítulo de Malhação: Toda Forma de Amar. Mas por conta da luta contra a disseminação do Coronavírus, o final da trama teen precisou de uma boa adaptação. E, nada como Emanuel Jacobina, um dos criadores da série, há 25 anos, e autor dessa temporada para fazer uma verdadeira mágica nessa reta final. “O final foi antecipado em 20 capítulos porque não se podia continuar gravando. A Globo me pediu para sintetizar esses 20 capítulos em 4, e eu fiz isso da melhor maneira possível”, diz.

Para poupar parte do elenco e equipe, no fim da história os protagonistas Rita (Alanis Guillen) e Filipe (Pedro Novaes) vão aparecer contando tudo o que aconteceu na vida dos outros personagens. Inclusive, o assunto Coronavírus será falado abertamente pelos personagens. Ao ver Malhação chegar em sua 27ª temporada, ainda com ótimo fôlego, mesmo em época de streamings e muitas opções aos jovens, Jacobina diz que, lá atrás, não imaginava que durasse tanto. “E a ideia de celeiro para atores foi uma percepção de oportunidade vista mais pelos diretores do que por nós”, conta.

Como foi buscar inspiração para escrever Malhação - Toda Forma de Amar? São dois argumentos que formaram minha história. O primeiro diz respeito a duas mães, uma biológica e a outra adotiva, disputando a guarda da mesma criança. A inspiração veio de uma pergunta e da minha vontade de falar sobre o que é ser mãe. Pai é quem cria, diz o ditado popular. E mãe? Não é também quem cria o filho? E a outra inspiração, para a história dos cinco jovens que testemunham o sequestro seguida da morte de um rapaz negro na periferia de uma grande cidade, veio dos noticiários do jornal e da minha vontade de denunciar a infiltração das milícias nas polícias de alguns estados brasileiros, principalmente o Rio de Janeiro, denunciar esse abuso. O miliciano é o pior tipo de criminoso, pois se esconde atrás da autoridade estatal para matar, traficar e roubar.

Rita (Alanis Guillen) e Filipe (Pedro Novaes). Foto: Globo/João Miguel Júnior

Esperava algum tipo de reação do público ao jovem casal gay Guga (Pedro Alves) e Serginho (Pedro Oliveira)? Esperava que houvesse reação e ela aconteceu, tanto a negativa quanto a positiva, maior que a outra. Na trama, ainda vemos temas bastante recorrentes em outras fases de Malhação, como gravidez na adolescência, primeira vez, problemas na escola...

Por que acha que, mesmo repetidamente, são assuntos que sempre despertam o interesse do público? São temas universais. Mas cada autor trata da sua maneira.

Cada vez mais, também vemos as tramas adultas ganhando força em cada temporada. Por que isso tem acontecido? Eu sempre tenho adultos quando escrevo uma temporada de Malhação. Às vezes, eles ganham mais destaque pela própria característica da história. Por exemplo, pra combater a milícia, precisava de um policial adulto. E o contraponto à mãe biológica adolescente era a mãe adotiva adulta.

Você escreve de acordo com o retorno do público ou segue o que planejou? Tento responder ao anseio do público, mas acredito que mudar demais o que está planejado é um erro. Toda história tem um DNA previsto em sinopse, contrariar radicalmente esse DNA é o segredo do fracasso.

Escrever uma novela que tem quase um ano no ar deve ser uma tarefa difícil. Como é o seu dia a dia de trabalho? Na verdade, foram 12 meses exatos no ar. Trabalho mais de manhã. Acordo às seis e meia. Após umas três horas de trabalho, tomo café e costumo caminhar ou correr na Lagoa. Minha criatividade não pega no tranco, ela desperta junto comigo e vai diminuindo ao longo do dia em função de inúmeros problemas e chatices que o cotidiano nos impõe e que acabam com os sonhos. À tarde, portanto, trabalho, mas criar é mais difícil. Deixo pra tarefas organizativas da história. À noite, uso principalmente pra revisar o que fiz durante o dia. Você pode perguntar, mas e a vida social? Os amigos? Os encontros? Sinceramente, quando se escreve novela, toda a vida social fica extremamente reduzida.

Filipe (Pedro Novaes), Lígia (Paloma Duarte), Rui (Romulo Arantes Neto) e Nina. Foto: Globo/Cesar Alves

Cite um momento importante do seu ponto de vista dessa temporada. Vou citar três. O momento em que Lígia e Rita resolvem que vão cuidar de Nina juntas e o momento em que o Zé Carlos é sequestrado pela milícia e em seguida aparece morto. E ainda o momento do beijo entre Serginho e Guga.

Anos atrás, muitos atores rejeitavam a ideia de fazer parte do elenco de Malhação. Nessa temporada, por exemplo, você contou com nomes no elenco, como Karine Telles, Paloma Duarte, Roberto Bomtempo... O que acha que mudou? A qualidade da dramaturgia, dos diretores e dos autores envolvidos, trouxe esses atores para junto de nós.

Malhação vai fazer 25 anos consecutivos no ar em maio. Como é ver esse projeto em 1994 e agora, em 2020? Eu e Andrea Maltarolli não tínhamos ideia de que fosse durar tanto. Mas algumas pessoas, como o nosso orientador, Flavio de Campos, tinha a percepção dessa possibilidade. A ideia de celeiro para atores foi acontecendo naturalmente, foi uma percepção de oportunidade vista mais pelos diretores do que por nós. 

Que conselho você daria para quem deseja seguir a carreira de roteirista/autor de novela? Se estiver começando, estudar, ler livros sobre teoria, ver muitos filmes, séries, novelas, escrever pouco, mas todo dia, procurar trabalho, mesmo que sub-remunerado.

Tem vontade de escrever mais para teatro, cinema, série? Já escrevi para os três. Mas estou avaliando se não é o caso de olhar com mais carinho e dedicação para a literatura e o teatro.

Com o fim de Malhação, já tem algum novo trabalho? Vou descansar dez dias antes de começar a desenvolver uma sinopse de novela para as 19h.



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