Eduardo Sterblitch em novos ares: “Universo conspira quando é para acontecer”

Acostumado a trabalhos no humor, ator estreia em novelas como o romântico e bronco Zeca de Éramos Seis


  • 17 de outubro de 2019
Foto: Globo/Victor Pollak


Último vencedor do Troféu Domingão do Faustão na categoria Comédia, Eduardo Sterblitch fez sua estreia em outra praia: as novelas. E ele vem encantando no papel do doce e bronco Zeca, de Éramos Seis – personagem interpretado por Osmar Prado na versão de 1994 -, ele exercita um lado seu pouco conhecido do público. Afinal, Sterblitch ganhou fama como o Freddy Mercury Prateado, do programa Pânico na TV e, recentemente, foi visto na série Shippados, disponibilizada na plataforma de streaming da TV Globo.

Com o costumeiro bom humor, ele faz brincadeira até mesmo com o desafio de dar vida ao primeiro personagem em folhetins, que tem também uma carga dramática, principalmente nas cenas com a jovem Justina (Julia Stockler), que sofre de doença mental. Assim, ele conquista a soturna Emília (Susana Vieira), mãe da jovem. “É minha primeira novela e talvez a última, se eu for muito ruim. Se eu mandar muito mal, me matam logo”, diverte-se.

Você sempre teve o desejo de atuar em uma novela? Já pensei sim, mas nunca achei que faria, de fato. Sempre odiei televisão. Era aquele ator que queria fazer teatro para sempre, ia morrer pobre (risos). Fazendo televisão, você também morre pobre, mas nunca imaginei que eu fosse me entregar ao mercado televisivo. Aí pintou o Pânico e ele me ensinou a fazer humor e televisão. Com eles, aprendi a ser engraçado e a entender a televisão de uma forma mais profunda. E aqui, estou aprendendo a fazer televisão de uma outra forma.

Zeca (Eduardo Sterblitch). Foto: Globo/Raquel Cunha

Como surgiu a oportunidade de atuar em Éramos Seis? Eu sou péssimo em testes. Quando percebo que estou sendo testado, não consigo ‘funcionar’. Sempre fico ansioso em dar o melhor de mim e essa ansiedade me atrapalha. Eu dei muita sorte, porque o Chico Accioly (preparador de atores) pirou na ideia de que eu faria bem a novela. Aí me chamaram, o Carlinhos (Carlos Araújo, diretor artístico de Éramos Seis) gostou da ideia, a gente conversou, curtiu um ao outro… Eu diria que era pra ser. Inicialmente, nem seria eu. Era pra ser outro ator, mas ele não pôde fazer… O universo conspira quando é pra acontecer mesmo.

Como definiria o Zeca? Ele é um personagem muito autêntico. É como essas pessoas do interior que são muito simples e que você quer ficar do lado o tempo inteiro. É uma pessoa ‘de verdade’. Não quer ser o melhor, o mais rico ou o mais bonito. Ele simplesmente é ele e tem muito orgulho disso. É bem brasileiro também, e muito apaixonado (pela Olga, papel de Maria Eduarda de Carvalho).

Há identificação entre você e o personagem? Sou um romântico apaixonado, mas ele é mais do que eu. Eu desisto mais rápido. Ele ama a Olga, faz de tudo para ficar com ela. Não tem família, é sozinho. Foca a vida dele pra ficar com ela, e ela usa o amor dele para fazer com que ele seja o que ela quer.

E o público já tem elogiado muito sua química com a Maria Eduarda de Carvalho na trama… Eu não acredito nem quando falam bem, nem quando falam mal. Você tem que ir na sua, senão perde a pedalada. Eu estou muito empolgado, muito ansioso pra entender qual vai ser o resultado diante do público – o que o público vai achar. O público é o grande imperador dessa brincadeira toda, né?

Justina (Julia Stockler), Zeca (Eduardo Sterblitch) e Olga (Maria Eduarda de Carvalho). Foto: Globo/Raquel Cunha

Apesar de também ter um lado cômico, o Zeca terá muitas cenas dramáticas. Como é pra você, que vem do humor, fortalecer esse lado do personagem? Eu tento fazer tudo dramático. Não com relação a ‘ser triste’, e sim a não me preocupar com a comédia. Fazer o mais natural possível para que o público não enxergue o Edu, e sim o Zeca. Nunca fico pensando em como vou trazer a comédia, tento deixar natural. Até porque a autora (Ângela Chaves) já escreve o Zeca de uma forma graciosa – não necessariamente para rir, mas para encantar, te fazer torcer.

Éramos Seis é uma história que tem um lugar todo especial na memória afetiva do público. Isso é uma responsabilidade pra você? Eu penso bastante nisso. Mas tento evitar entrar nesse vício de pensamento, porque isso atrapalha, né? Você fica com a expectativa maior do que a do público. De fato, a novela é um fenômeno, já foi montada várias vezes… Mas eu acredito que o sentimento da novela, o que ela passa, em termos de sensação, independe de quem está fazendo. É uma visão diferente dessa mesma história.

Qual a importância de se recontar uma história como essa nos dias de hoje? Total. Eu sinto que o Brasil está dando um “tilt”. Todo mundo está muito nervoso e não sabe direito o porquê. Eu faço terapia há muito tempo e percebo que você tem que falar das coisas do seu passado pra tentar lembrar de alguma coisa, talvez inconsciente, que tenha relação com certa característica ou comportamento seu. Acredito que, quando a gente passa por crises, temos que buscar na história a resposta para o que está acontecendo.

Pode explicar um pouco mais isso? Estudei em escola particular e, mesmo assim, conheço pouquíssimo da história do Brasil. Acredito que essa história vai deixar claro algumas coisas do passado. A coisa do amor romântico, da família, do machismo, de como o homem não podia demonstrar sentimentos, da força das mulheres, o momento em que o espartilho é trocado pelo sutiã e as mulheres começam a votar. A novela vai mostrar porque a sociedade ainda é tão arcaica em lugares tão básicos e óbvios. E vai mostrar isso de maneira leve, sem tocar na ferida. Vai mostrar a realidade daquela época, e quem for inteligente e sensível vai conseguir pescar porque a sociedade está doente em alguns lugares. Pode ser curativo!

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