Eduardo Speroni: “Aprendi sobre desconstrução da figura do macho”

Ator opina sobre fim ideal para Bebeto e avalia estreia na TV após 10 anos de teatro


  • 12 de maio de 2019
Foto: Sergio Baia


Por Luciana Marques

Com 10 anos de teatro, tendo atuado em peças importantes como Caranguejo Overdrive, Bicho e Purple Drive, Eduardo Speroni teve a oportunidade de estrear na TV somente este ano. “Não me cobrava, mas sempre tive interesse”, conta. E quando veio a chance de viver o dançarino Bebeto, de O Sétimo Guardião, ele agarrou com todas as forças, mostrando o quanto a sua base teatral foi importante para este momento.

O público da trama das 9 tem se emocionado com o drama do jovem, que sofre preconceito do pai, Nicolau (Marcelo Serrado), e ouve diariamente dele que dança é coisa de “viado”. Com o desenrolar da história, Speroni, que tem recebido elogios pela atuação, fala dos aprendizados. “Como homens, não precisamos mais ficar afirmando nossa masculinidade. Me considero um homem feminino”, diz. No bate-papo com o Portal ArteBlitz, o ator fala ainda do fim ideal para Bebeto e também para Nicolau (Marcelo Serrado).

Bebeto (Eduardo Speroni). Foto: Globo/João Cotta

O que você mais tem aprendido ao viver o Bebeto?

A família tem que ser o nosso maior suporte. O pai de Bebeto, o Nicolau, não aceita os desejos do garoto e por isso vive uma grande frustração. Acredito que essa relação familiar retratada na novela está sendo importante para mostrar aos pais e mães desse Brasil que eles não devem interferir nos sonhos e talentos de seus filhos. O mais importante é que eles sejam felizes. Para isso acontecer é necessário suporte. Quanto mais apoio e respeito, maiores são as chances de sucesso e felicidade. Além disso, aprendi muito sobre a desconstrução da figura do “macho”. Devemos acabar com esses padrões que querem definir o que é masculino e o que é feminino. Eu me considero um homem feminino, e isso não interfere na minha sexualidade. Prezo e tenho respeito pela diversidade. Por isso, no meu convívio social, estou cercado de pessoas de todo tipo, que resistem e lutam por uma transformação social.

 

 

A trama já vai para a sua última semana. Qual o final você deseja ao personagem?

Gostaria que o Bebeto conseguisse seguir na carreira de dançarino, com a aceitação e respeito do pai. Desejo que ele vire um bailarino de muito sucesso, capaz de viajar o Brasil e o mundo levando sua arte às pessoas.

Aguinaldo Silva já disse que Nicolau não terá redenção. Como ele deve acabar, na sua opinião?

Para mim, o Nicolau tinha que se arrepender de tudo que fez e disse, reconhecendo que o mundo mudou e que ele sempre esteve errado em suas atitudes. Mas, mesmo assumindo o erro e transformando sua opinião, ao meu ver ele deve terminar sozinho. Divorciado e com a família afetivamente afastada. Porque tudo que ele fez não pode ser apagado.

Foto: Sergio Baia

Qual a importância de se mostrar na TV casos como o de Nicolau, um homem com pensamentos tão retrógrados, que acaba impossibilitando a felicidade dos filhos? 

Como no caso do Bebeto, muitos jovens brasileiros ainda enfrentam um pai que acredita que dança não é coisa para homem. Portanto, com muito teor crítico, estamos mostrando que devemos acabar com esse estigma. Esse tipo de opinião, que cria padrões para separar homens e mulheres, não pode mais ser aceito. Devemos lutar por uma igualdade entre os gêneros. Tocamos em temas polêmicos, entre eles machismo e a homofobia, que na minha opinião devem ser levados a debate. Com isso, somos capazes de transformar culturalmente a sociedade.  Na maioria das vezes são cenas de forte embate dramático, o que acaba exigindo mais concentração. Estamos mostrando situações delicadas, de preconceito e violência, que necessitam de cuidado e esmero na hora de serem retratadas. 

Que tipo de criação você teve?

O pai do Bebeto tem um pensamento radical e retrógrado, que não esteve presente na minha criação. Nunca me foi imposto nada, sempre tive liberdade de escolha. Mas posso dizer que tive uma criação machista, pois infelizmente vivemos numa sociedade ainda machista. Porém, meu pai nunca foi radical, sempre esteve aberto a escuta. Sinto que ele aprendeu muito ao longo desses anos. Hoje em dia, temos profundas conversas e analisamos constantemente nossas atitudes. Juntos, buscando uma melhora e tendo a consciência da necessidade de mudança. Precisamos mudar nossa sociedade, devemos lutar pela igualdade e respeito entre homens e mulheres.

Acha que os jovens da sua geração já vem com um pensamento diferente em relação ao machismo?

O preconceito e o machismo ainda estão presentes na realidade do jovem brasileiro. Entretanto, tento ser otimista. Acredito que estamos caminhando para uma sociedade menos preconceituosa. Mas estamos longe. Precisamos dar muitos passos a frente. Infelizmente, muitos jovens continuam sendo vítimas de homofobia nas escolas. Muitas garotas ainda são vítimas do machismo social. Dentro de casa, o patriarcado dominador e a figura machista do pai ainda estão muito presentes. Isso tem que mudar. O jovem precisa ter sua liberdade individual garantida. A diversidade deve ser respeitada.

Nicolau (Marcelo Serrado), Afrodite (Carolina Dieckmann) e Bebeto (Eduardo Speroni). Foto: Globo/Estevam Avellar

Como está a repercussão do personagem, o que mais ouve?

Tem sido muito satisfatória. Recebo muitas mensagens de espectadores em repúdio ao Nicolau, por causa do seu pensamento machista e conservador. Também recebo mensagens de incentivo ao Bebeto, das pessoas dizendo que acreditam em seu sonho e torcem por ele. Já tive casos onde espectadores se abriram e me contaram que tinham largado a dança, mas que o Bebeto estava dando força e estímulo para eles retomarem. Estou muito feliz, essa prova de transformação social é algo muito gratificante para um ator.

Você também tem uma ligação com a dança, curte?

A dança entrou na minha vida por causa da novela. No teatro, sempre trabalhei o corpo. Sendo um instrumento muito presente em alguns espetáculos que fiz, principalmente no mais recente, o Caranguejo Overdrive, da Aquela Cia. de Teatro. Mas dançar profissionalmente era algo que nunca tinha feito. Portanto, antes de começar as gravações, fiz quase dois meses de preparação de dança com a Sonia Destri Lie, da Cia. Urbana de Dança. Passamos pelos fundamentos e depois nos aprofundamos no streetdance, estilo que eu conhecia, mas nunca havia praticado. Ao longo da novela, continuei fazendo aulas com a coreógrafa Dandan Firmo. A dança é uma grande forma de expressão artística. O corpo é capaz de provocar estímulos no espectador que a palavra muitas vezes não consegue. Depois da novela, não penso em seguir carreira de dançarino. Mas com certeza pretendo usar a dança em futuros trabalhos como ator. É uma bagagem que vou levar para a vida.

E para a sua carreira, qual a importância de viver um personagem assim, denso, no horário nobre?

Tenho a consciência do peso de um trabalho como a novela das 21h. Ela é assistida por milhões de brasileiros. Portanto, estou me esforçando e agarrando com unhas e dentes essa história. A pressão é grande. Mas, para mim, a cobrança deve estar no processo e não no resultado. Por isso, a cada dia me esforço em dar ao público e à crítica um trabalho em constante desenvolvimento.

Você é um ator jovem, veio do teatro e teve agora essa oportunidade de estrear na TV com este papel forte... Acha que veio no momento?

A televisão era um território desconhecido pra mim. Estou muito contente em poder desbravá-lo agora. O ator tem que experimentar. Portanto, ter a oportunidade de passar por todos os meios, visto que já vinha atuando em teatro e cinema, é muito gratificante. Viver de arte no brasil é muito difícil, porque sabemos que os incentivos estatais e privados são restritos, principalmente, pra quem faz um trabalho de pesquisa. Infelizmente, no nosso país, não se investe no que não trará retorno financeiro. Então, erroneamente acabamos incluindo as expressões artísticas dentro dessa lógica do que é vendável ou não. Arte pra mim é diversidade. Um artista tem que ser curioso, precisa de referências e nunca pode parar de aprender. Cada projeto é uma história diferente, lidamos com o novo o tempo inteiro. A arte é um território fértil onde se permite muita experimentação, capaz de aflorar o instinto criativo das pessoas.

 

 

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