Edu Coutinho, o Fábio de Bom Sucesso: “Tenho aprendido muito e TV tem alcance absurdo”

Cria do teatro, ele fala da estreia na TV e chama de burro governo que vira as costas à cultura


  • 19 de janeiro de 2020
Foto: Ricardo Borges


Na contramão de muitos jovens atores, Edu Coutinho fez inicialmente a sua carreira no teatro para só agora ter a sua primeira experiência em novelas, como o Fábio de Bom Sucesso. Para o ator baiano, mestre em artes cênicas e jornalista, que vive no Rio há pouco mais de um ano, a sua estreia na TV não poderia ter sido em uma melhor trama, com um elenco tão afinado. “É um grupo talentoso, diverso, pé no chão, sem afetação”, afirma ele.

Com 27 anos, Fábio ressalta a importância do artista hoje gerir a própria carreira e desenvolver projetos. Tanto que ele também passeia em outros veículos como o rádio.  Desde 2016, ele produz e apresenta o programa Lusófonos, que destaca artistas de países de língua portuguesa, na Rádio Educadora Bahia. Após Bom Sucesso, Edu começa a ensaiar uma nova peça. E sobre o desmonte das artes no Brasil, ele ressalta que “um governo que vira as costas para a cultura é um governo burro”.

Fazer novelas era um desejo? Sempre existiu uma curiosidade, uma vontade de aprender a atuar em outros meios, tanto na televisão quanto no cinema. Venho de uma experiência em teatro, me formei atuando no palco, e sabia que se algum dia tivesse a oportunidade de fazer uma novela, seria uma experiência interessantíssima. Tenho aprendido muito com Bom Sucesso.

Gisele (Sheron Menezzes) e Fábio (Edu Coutinho). Foto: Reprodução Globo

Você está morando no Rio de Janeiro há pouco mais de um ano. Imaginava trabalhar na TV tão rápido? Não imaginava. Me mudei para o Rio enquanto escrevia uma dissertação de mestrado e durante esse primeiro ano aqui fiquei num movimento muito introspectivo. Ficava muito tempo em casa, sozinho, escrevendo, e com o tempo percebi que a cidade e o mercado profissional de alguma forma me pediam um movimento inverso, de abertura, movimento. Por isso não imaginei que faria TV tão rápido. Um dia fui assistir a uma peça de teatro e conheci o produtor de elenco da novela, Fábio Zambroni, por acaso, na plateia. A partir daí ele acessou o meu vídeo cadastro na Globo e surgiu a oportunidade de fazer o Fábio em Bom Sucesso. 

Entrar no meio de uma novela que já era sucesso deu um certo receio? Tive um medo duplo: por ser o meu primeiro trabalho na televisão e por entrar no meio de uma novela que já era um grande sucesso. Mas com o tempo fui relaxando, me soltando, entendendo as coisas... Não sabia se o Fábio ficaria até o fim da trama. Na verdade, cada novo bloco de capítulos que chegava era uma surpresa pra mim. O Fábio entra na trama empenhado em desvendar o assassinato do irmão, depois acaba se apaixonando, em seguida se envolve em outras investigações para salvar a editora Prado Monteiro...

Bom sucesso tem um elenco jovem grande. Como tem sido a troca dentro e fora de cena? O clima nos bastidores de Bom Sucesso é muito bom. O elenco é generoso dentro e fora de cena, tanto os mais experientes quanto os mais jovens. Foi muito especial aprender com eles na contracena e ainda mais especial conviver, conhecer um pouco de cada um. E é realmente bacana ter tantas caras "novas" no elenco, tanta gente que não havia feito televisão antes. Essa é uma aposta coletiva da equipe: da direção artística, dos autores, da produção de elenco.

Em cena não se percebe o seu sotaque baiano. Como você tem trabalhado essa questão? Eu tento dar uma neutralizada quando estou gravando. É um exercício de fechar as vogais, tirar um pouco da melodia do sotaque... Eu já tinha feito isso muito tempo atrás, numa época em que trabalhei numa rádio de notícias, e acho que essa memória de alguma forma ficou. É quase um botão que aperto. Às vezes eu escorrego, um pouquinho do sotaque baiano vem, mas pelo menos ele não fica "na frente". A não ser que essa seja a intenção.

Foto: Ricardo Borges

Como tem sido o retorno do público? Tem sido uma experiência engraçada. A televisão tem um alcance absurdo, então de uma hora pra outra virei o "cara da novela". É uma frase que ouço muito na rua, no metrô, na praia, na farmácia... Mas o mais interessante é que muitas das pessoas que vêm falar comigo são realmente fãs de Bom Sucesso, gostam da novela, assistem todos os dias, admiram o trabalho. E aí o contato que às vezes é pra pedir uma foto acaba virando uma conversa sobre a trama, sobre os personagens...

O que veio antes: o jornalismo ou o teatro? Eu me formei como jornalista e como ator simultaneamente e sempre trabalhei nessas duas áreas. Fui estagiário e depois coordenador de comunicação do Teatro Vila Velha, em Salvador, e lá aprendi muito, tanto como jornalista quanto como artista. Acho que uma coisa acaba complementando a outra. Cada vez mais o ator precisa gerir sua própria carreira, pensar em estratégias de divulgação e promoção de seus trabalhos, planejar e desenvolver os seus próprios projetos... A experiência como jornalista, mais especificamente como assessor de comunicação, talvez me ajude nesse sentido.

Você comanda um programa de rádio na Bahia, o “Lusófonos”, que destaca artistas musicais dos diferentes países de língua portuguesa, veiculado mensalmente pela Rádio Educadora Bahia. Como o projeto foi idealizado? O Lusófonos surgiu a partir do meu trabalho de conclusão de curso em jornalismo. Pouco antes de me formar, num ano em que estudei como intercambista na Espanha, fiz amigos portugueses e percebi que eles consumiam muito da música brasileira e que eu, brasileiro, não conhecia praticamente nada da música portuguesa, e menos ainda dos outros países de língua portuguesa. Então veio a ideia de fazer um piloto de programa de rádio que apresentasse para os brasileiros diferentes artistas de Cabo Verde, Moçambique, Portugal, Angola, Guiné-Bissau, Guiné Equatorial, Timor Leste... O resultado foi bacana e uma das avaliadoras do TCC, que era coordenadora da Rádio Educadora, me convidou para tocar o projeto lá. Em fevereiro de 2020 o programa completa 4 anos no ar. É uma pesquisa que realizo muito intuitivamente, vasculhando a internet ou pedindo indicações de amigos, conhecidos, pessoas que viajam ou vivem em países lusófonos. É uma tentativa de contribuir para que a gente se abra mais para outras culturas. O Brasil é enorme, então fica muito voltado para as suas próprias produções musicais, ou então fica refém do que importamos de países de língua inglesa.

Se fosse governante, que atitudes tomaria em relação a cultura? No meu governo a cultura teria lugar central. É no território da cultura que se expressam as identidades de um povo, que se combate violências e desigualdades, que se consolidam as práticas de liberdade e democracia. E para além da dimensão simbólica, que aliás é importantíssima pois decisiva no jogo de poderes em escala global, a cultura é também uma das saídas para o desenvolvimento econômico do país. O dinheiro investido na cultura retorna muitas vezes multiplicado. O cinema é exemplo disso, movimenta uma indústria gigante, gera milhões de empregos, direta e indiretamente, não só em Hollywood, também aqui no Brasil. O mesmo acontece com as outras linguagens artísticas, com outros setores da economia criativa... 

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