Dora de Assis: “Nunca quis só ser artista, mas produzir pensamento”

A Raíssa de Malhação diz ter o mesmo olhar crítico e sensível da personagem ao mundo


  • 09 de julho de 2019
Foto: Studio B.Art.


Por Luciana Marques

Em sua estreia na TV, Dora de Assis já vem conquistando o público com a sua ousada-tímida Raíssa, de Malhação: Toda Forma de Amar. Em comum com a personagem, a atriz cita o “olhar crítico e, ao mesmo tempo, sensível para o mundo”. Com apenas 22 anos, ela também surpreende por uma visão da carreira artística mais profunda do que muitos jovens de sua idade. “Nunca quis apenas ser artista, eu queria produzir pensamento, questionar esse sistema tão falido em nosso país”, diz.

Essa postura de Dora pode ter muito a ver com a sua criação, afinal é filha dos atores Lucília de Assis e Alexandre Dacosta, que atuam muito no teatro. E, diferentemente da personagem, sempre teve apoio em seguir o caminho das artes, apesar de “quase ter desistido”, antes de ser chamada para Malhação. “Tinha medo de me expor”, revela. E o que será que a atriz acha que vai rolar nesse imbróglio entre Raíssa, Nanda (Gabriella Mustafá) e Camelo (Ronald Sotto)?

Raíssa (Dora de Assis). Foto: Estevam Avellar

Como tem sido dar vida à Raissa, o que tem mais instigado você? A Raíssa tem um charme muito próprio, uma sensualidade que não é óbvia e que aparece nas brechas de um humor muito debochado e também através de uma vulnerabilidade leve e delicada. Poder trabalhar com todos esses elementos que não se misturam com facilidade: a ousadia e a timidez, a delicadeza e a dor, a ingenuidade e a profundidade emocional é o que mais me instiga nesse personagem.

Raíssa é uma menina um pouco tímica, mas forte, meio debochada, cheia de vida. Você se identifica em algo com ela? A Raíssa é uma menina com um senso de justiça muito forte. Me identifico com ela nesse aspecto e em muitos outros. Inclusive, se procurarem fotos minhas aos 17 anos, vão ver a Raíssa ali junto com suas hesitações por trás do cabelo enrolado e os óculos redondos. Nós duas temos um olhar crítico e, ao mesmo tempo, sensível para o mundo. Eu sempre senti que tinha pouca consciência da minha força, então ela aparecia em momentos de forma muito intensa e brusca. Acho que com a Raíssa também é assim... Ainda precisamos acertar essa medida (risos). No entanto, é exatamente essa força, aliada a uma delicadeza e uma certa ingenuidade, que fazem da Raíssa uma menina tão humana, tão sensível. Ter a Raíssa dentro de mim me dá muitas possibilidades, me faz enxergar que tudo no mundo ainda tem jeito.

Foto: Globo/João Cotta

Malhação mostra muito os conflitos da adolescência. O que você mais lembra dessa fase, foi complicada para você? A adolescência foi um período muito bom da minha vida, mas isso não significa que não foi complicada. Me lembro muito da urgência que o jovem sente, da pressa que eu tinha de viver, de sentir tudo de uma vez só e da impressão que eu tinha de que o mundo ia acabar naquele dia mesmo. Sempre vai ser difícil e necessário crescer. Como diria minha mãe, “se fosse fácil, não seria vivo".

Ela é apaixonada pelo Camelo, que namora a sua melhor amiga, a Nanda. Como que você acha que isso vai se desenrolar? A Nanda é uma grande amiga da Raíssa. Acredito que a inveja que a Nanda sente vem de uma força que a Raíssa nem sabe que tem. Isso complica a relação das duas porque falta clareza e comunicação a respeito do que elas sentem. E isso costuma acontecer muito nessa idade devido a uma dose de imaturidade aliada a uma sensação de falta de pertencimento ou uma necessidade de aprovação do outro. Já o Camelo desenvolve muita insegurança na Raíssa e uma certa confusão que ele acabou causando, né? (risos)

Como todo o jovem, a Raíssa vive um dilema sobre a futura profissão. No caso dela, tem toda a pressão da mãe para que ela faça direito, mas ela ama a música. Você já viveu algo assim? Meus pais são atores, por isso, na minha casa estranho seria se eu tivesse feito matemática, engenharia, economia (risos). Sempre houve um incentivo muito grande dos meus pais com a arte e ao conhecimento. Eles são pessoas muito valiosas que sempre me apoiaram em relação a minha profissão. Apesar disso, eles também tem um julgamento muito forte e que acaba gerando uma exigência maior deles em relação a minha atuação. Mas, aos poucos, fui entendendo que arte é algo pessoal e intransferível, que preciso, acima de tudo, seguir meus instintos do que acredito como artista e confiar nisso.

Ser ator no Brasil não é nada fácil. Em algum momento você pensou em desistir? Eu já tinha praticamente desistido quando fui chamada para fazer Malhação porque tinha medo de me expor. O Brasil é um país que tem como principal cenário uma desvalorização constante da cultura e da educação. Eu sou muito privilegiada de ter nascido onde eu nasci, de ter estudado onde estudei e de ter consciência da posição que ocupo sem me acomodar nela. Uso tudo que eu tive acesso para ir além do que me foi oferecido. Sempre busquei trabalhar, sempre estudei muito porque sabia que o que eu queria não dependia só de estabilidade financeira e estrutura familiar. Eu nunca quis apenas ser artista, eu queria viver artisticamente, produzir pensamento e questionar esse sistema tão falido que ainda predomina no nosso país. 

Nanda (Gabriella Mustafá), Camelo (Ronald Sotto) e Raíssa (Dora de Assis). Foto: Globo/Paulo Belote

Você começou nova no teatro, fez cinema, atuou na área de figurino, até foi premiada, acha que demorou para fazer TV ou veio na hora certa? Acho que tudo vem na hora certa. E não estou falando isso porque estou nesse momento tão bom. Na realidade, sempre confiei muito na vida. O artista sempre vai ser apaixonado pelo risco porque ele precisa encontrar novos lugares dentro de si o tempo todo... E isso exige muita coragem! Além disso, acho que ter trabalhado em outras áreas me proporcionou um conhecimento muito mais amplo acerca do mercado de trabalho e também da vida. Tudo agrega e acrescenta valor quando se trabalha com arte. Ao meu ver, a arte faz uso do “inútil” para criar novos pensamentos.

Você também escreve, né? Fale um pouco sobre o seu primeiro livro de poesias… Escrevo desde sempre. Na adolescência a escrita se tornou uma extensão do meu corpo, era uma forma de dar voz às sensações que eu tinha e que nem sempre tinham nome. Mesmo assim, eu queria dar nome e lugar para tudo o que eu sentia. Eram sentimentos que não cabiam só em mim. Depois de uns quatro anos escrevendo, percebi que ali existia um livro e que se chamaria Poesia Rouca. Escolhi esse nome porque a voz da poesia nem sempre é limpa, encorpada ou com a afinação perfeita. Ela nem sempre se comporta bem e, por isso, é linda porque é falha e, acima de tudo, porque é viva. A poesia é um olhar sensível que torna a vida muito mais interessante e menos medíocre.

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