Danilo Mesquita. “Às vezes, você só quer um abraço de quem te ama”

O Valentim, de Segundo Sol, fala da saudade da família, da Bahia e de música


  • 07 de junho de 2018
Foto: Globo/João Cotta


Por Luciana Marques

Sabe aquele baiano gente boa, que exala “axé” por onde passa. Esse é Danilo Mesquita, de 26 anos, que vive o também baiano Valentim em Segundo Sol. “Eu passo oito anos da minha vida tentando ser menos baiano para trabalhar, e agora que eu tenho que ser baiano, dá um medo de ser muito baiano fora do normal”, diverte-se o ator, que mora no Rio desde os 18 anos.

O fato de viver longe da terra natal para realizar o seu sonho na carreira, é o maior dos desafios para o ator, que destacou-se como o Nicolau em Rock Story, em 2016. “Às vezes, você quer só um abraço, um abraço de alguém que te ame 100%, sei lá. Se falar muito da minha mãe, eu começo a chorar”, diz ele, que, assim como o personagem é apaixonado por música.

Quer se encantar ainda mais por Danilo, leia a entrevista completa. E ele ainda é politizado, fala de seus ideias, como poucas vezes se vê entre jovens da classe artística. 

Karola (Deborah Secco) e Valentim (Danilo Mesquita). Foto: Globo/Estevam Avellar

O que tem mais encantado você ao viver o Valentim?

Valentim é um baiano de 18 anos, filho desse cara que se transformou num mito, então, ele nasceu já sendo filho desse cara e é uma pessoa que todo mundo conhece na cidade, ele é o único herdeiro do Beto Falcão (Emílio Dantas), tem a música dentro dele como algo muito forte, porque ele compõe também, a música é muito importante para ele, algo que ele quer seguir, mas tinha medo justamente por ser filho desse cara. Ao mesmo tempo que ele é um menino muito alegre e comunicativo, a insegurança dele na música é muito forte. É um meninão, intenso, que age muito com o coração, eu o acho encantador.

Por ele ter sido enganado, acaba meio rebelde, briguento, é isso?

O cara que se finge de morto e aí ele tem um filho, cria esse filho sem poder falar que é o pai, é muito doido. Acho que por ele ser jovem, essa intensidade, esse coração, às vezes, ele arranja essa confusão, é meio briguento, acho que é por causa disso também. Essa confusão toda na cabeça de um menino de 18 anos. Para ele entender isso tudo, é muita coisa, por isso que depois ele age com o coração.

E a relação dele com a mãe, a Karola (Deborah Secco), que ele acha que é a mãe dele...

Ele tem uma relação de amor e carinho com essa mãe que criou ele, eles se amam muito, porém o embate deles é muito firme principalmente nessa questão do dinheiro, nessa questão também dela querer tomar conta da carreira dele, como se quisesse transformar ele num novo Beto Falcão e ele, pela insegurança não quer. Então, esses são os embates entre eles.

Foto: Globo/João Cotta


Ele já teve o primeiro encontra com a Luzia (Giovanna Antonelli) mãe biológica dele. Vai passar esse sentimento, de ter aquela afinidade com ela?

Sim, eles ficam muito próximos, ele já conhece meio que de longe o som dessa artista chamada Ariella e aí com o convite da galera dele para ver um show, ele fica louco pelo som dela e ela também logo de cara ela se apaixona pelo jeito dele, então eles viram muito amigos. Sem saber de nada, de primeira eles viram muito amigos. Acho que tem uma relação ali de admiração, de encontro mesmo.

Depois de Rock Story, a música continua com você nessa novela, né?

Eu tenho a sorte de amar música. E ela faz parte da minha vida, de alguma forma pago minhas contas também com música, não só com atuação. É massa, eu aproveito porque eu toco violão diariamente, a música está na minha vida diariamente, também componho, tenho um projeto com meus amigos e a gente se junta para fazer um som, então, é uma delícia ter ela perto de mim, espero que ela continue sempre e vai continuar.

Você acha que foi a música que te deu esses dois últimos personagens?

Provavelmente se não tocasse ou se não tivesse nenhum contato mais próximo com a música, seria muito difícil fazer, porque Rock Story, por exemplo, foi um personagem que exigiu muito. A gente cantava mesmo, saia daqui e tinha um ou dois dias para pegar a voz, não era um trabalho fácil. Então, ajuda, me abriu as portas. Saindo da novela fui fazer um musical, passei uns 6 ou 7 meses rodando o Brasil com o musical, e foi uma experiência nova, nunca imaginei que fosse fazer. Foi o Rio mais Brasil o Musical, com direção do Ulisses Cruz.

 

Como baiano, agora ficou mais fácil com esta questão do sotaque para a novela, não?

É uma loucura isso, porque saio de Salvador com 18 anos, venho para o Rio, e aí venho para cá, mudo de sotaque e aí para você conseguir trabalhar, eu ouvia assim: ‘Pô, o texto foi muito maneiro, mas tem muito sotaque, tem que ser menos baiano’. Eu passo oito anos da minha vida tentando ser menos baiano para trabalhar e agora que eu tenho que ser baiano, dá um medo de ser muito baiano fora do normal. Mas é uma delícia, principalmente contar minha história, um pouquinho da história do meu povo, da minha cidade, eu sou um nacionalista, sou um cara apaixonado pelo meu país, enlouquecido pela minha cidade, então estar podendo contar um pouco da história do meu povo, eu fico me achando.

Ícaro (Chay Suede), Rosa (Letícia Colin) e Valentim (Danilo Mesquita). Foto: Globo/João Miguel Júnior
 

Você vive há 8 anos no Rio, do que você mais sente falta da Bahia?

Da minha avó, da minha família, da minha mãe. Falar da mãe eu começo chorar. Eu sinto falta de tudo, para mim é sempre difícil sair de Salvador. Eu me adaptei ao Rio muito fácil, vivo muito bem aqui, até porque vim com 18 anos, muita euforia, cidade nova, morar sozinho, mas sinto muita falta de Salvador. Eu sofro muito com comida aqui no Rio, desculpa meus amigos cariocas, acho que é muito ruim e caro, nem todas, tem restaurantes bons. Mas sinto falta do tempero e da forma de fazer, sinto falta basicamente da comida da minha avó mesmo, da minha mãe. Eu fui criado num bairro onde minha avó mora há 40 anos, onde todo mundo me conhece, chego lá e fico sem camisa, descalço. Fica no bairro do Cabula. Então, ainda que eu me adaptasse muito bem, eu não estou na minha terra, eu adoro o Rio, mas eu sinto saudade de tudo. Quando eu estou em Salvador, fico do lado da minha família, é o sentimento de maior amor do mundo.

Você pensa em voltar para lá?

Olha, se eu falar que não penso é mentira, mas acho que para o meu trabalho, para as coisas que eu quero, para o meu dia a dia, é realmente ficar aqui.

Além da saudade, teve outro perrengue que você encontrou nessa sua vinda para o Rio?

Todos os perrengues de quando você sai de casa com 18 anos sozinho para ir para outro estado, sem ninguém do lado. Às vezes, você quer só um abraço, um abraço de alguém que te ame 100%, sei lá. Mas eu também não posso reclamar não, sou gaiato, sou ousado e faço amizade com todo mundo. Sou cheio de amigos aqui, e eles são a minha família aqui, quando eu preciso do abraço, eles estão lá. Como eu falei, são oito anos e já criei raízes interessantes. Às vezes, vou ficar um mês em Salvador, mas eu falo: Pô tenho as coisas aqui, fico com saudade dos meus amigos’. Apesar de ir feliz, também já criei raízes aqui, mas essa dor é um pouco mais tranquila. Mas eu passei todos os perrengues.

Por tudo que você tem conquistado, está valendo a pena então?

Está, sim. Sempre morei longe, nunca na zona sul, morei na Ilha do Governador, depois na Penha, e eu estudava em Botafogo, e os perrengues diários que todo mundo passa, eram duas horas e meia para ir e duas horas e meia para voltar. Como falei, sou de uma família pobre, não tinha dinheiro para gastar na rua, então tinha que esperar o dia todo para comer em casa, essas coisas que todo mundo passa, tem que passar mesmo porque é importante passar. Eu achei massa que passei, e isso tem a ver com você correr atrás, isso te dá força para quando você consegue, você dá valor, saber que não foi à toa e que foi batalha sua.

Foto: Globo/João Cotta
 

Você é uma pessoa muito apaixonada pela sua cidade, pelo seu país e tem seus ideais. Quais são os erros que você acha que nós temos no Brasil e que deveria melhorar?

Acho que o Brasil é um bebê gigante e que sofreu a miscigenação que nenhum outro país sofreu, a quantidade de etnias, de pessoas que vieram para cá, e que a gente tem muito pouco tempo para entender isso, sabe? É tudo muito recente, a escravidão é recente, e a gente repete os erros. A gente tem uma história de violência, porque a nossa colonização foi violenta, a ditadura foi violenta. Então, a gente tem esses reflexos, comete os erros, justamente de ser um país colonizado e de achar que o de fora é melhor, porque a gente tem um complexo de vira-lata de achar que a gente não presta. O grande caminho para a gente não repetir, e a gente está repetindo os nossos erros ultimamente, é a gente se discutir como país. Eu acho que a grande questão é a gente não fugir dessas discussões, seja montando peças com autores brasileiros, seja fazendo a nossa música, acho que a arte é um caminho muito interessante para a gente se discutir e estar ligado nos livros de história, é importante.

Você tem esperança nas eleições?

Como a gente conseguiu recentemente um avanço muito grande no país, principalmente na questão social, um país que tira 30 milhões de pessoas da miséria, é uma coisa que nunca aconteceu antes na história do mundo, e em tão pouco tempo. Isso é um avanço, que foi bloqueado, mas acredito nas eleições, no povo e até mesmo que a gente erre nessa, erre daqui a quatro anos... Ninguém deu um golpe para dois anos depois voltar principalmente num governo de esquerda, então vamos viver momentos difíceis, mas acho que esses momentos que vamos viver serão justamente para se conhecer, se discutir, fortalecer o nosso intelecto, nossa história. Justamente, para a gente não repetir mais uma vez aquilo que a gente repetiu lá da colonização, lá da ditadura, que é o que a gente está fazendo agora.

E o ritmo axé?

Eu sou ‘axézeiro’ demais! Eu nasci dentro do axé, meu pai era produtor de banda de axé a vida inteira, então... Eu tenho muito ídolo, mas por exemplo e quando eu era criança eu ouvia muito. Meu pai era roqueiro e ‘axézeiro’. Eu ouvia muito Renato Russo e Cazuza, eu era e ainda sou fissurado e paralelo a isso, tudo de axé, eu ouvi muito de Netinho, Tatau. Tatau é uma figura que eu amo, sou apaixonado pelo trabalho do Tatau. Carlinhos Brown, que eu adoro, mas também Caetano, Gil, Tom Zé, Milton Nascimento é um cara que eu sou apaixonado, mas falando de axé e Bahia, eu ouço tudo o que está rolando na Bahia agora.

Beto Falcão (Emílio Dantas) e Valentim (Danilo Mesquita). Foto: Globo/João Belote
 

Qual o hino do axé que grudou na sua cabeça e não saiu até hoje?

Tem muita música de axé, gosto da Timbalada. É uma banda que para mim foi uma das maiores invenções musicais do Brasil, as músicas da Timbalada me pegam muito pelo pé, mas Chame Gente do Moraes Moreira, também é uma música dessas clássicas que para a gente que gosta muito do carnaval, que nasceu em 26 de fevereiro, sou do carnaval, um pai que trabalhou 27 anos no carnaval, essas músicas me emocionam muito.

Seu pai estava trabalhando e você ia na pipoca?

A primeira imagem que eu tenho do carnaval quando pequeno é meu pai me pegando na arquibancada, me colocando no ombro dele e a gente na pipoca do Araketu, bem moleque e é a primeira lembrança que eu tenho. E aí eu saio desde meus 13 anos no carnaval, me emociona muito. Eu chego no carnaval de Salvador e eu choro. Eu sou apaixonado pelo axé.

 



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