Cristiane Amorim: “No fundo do meu poço, encontro uma mola propulsora”

Atriz conta como enfrenta obstáculos na carreira e fala do final ideal para Santinha e Fauze


  • 30 de julho de 2019
Foto: Gianne Carvalho


 

Por Luciana Marques

Natural de Amargosa, cidade do interior da Bahia com pouco mais de 35 mil habitantes, Cristiane Amorim, a Santinha, de Órfãos da Terra, realizou o sonho de ser atriz com muita persistência. Mas não foi fácil a batalha até conseguir um espaço. “Não consigo viver sem arte. Uma época tentei, mas adoeci. Minha alma falou mais forte. Estar trabalhando é um prazer maior do que qualquer outro”, diz. E essa determinação começou cedo.

Em 1992, sem nunca ter assistido sequer a uma peça de teatro, ela ingressou na Escola de Teatro na UFBA. A partir daí, participou da efervescente fase do Teatro Baiano nos anos 90, somando 18 montagens, até 2004. Depois foi a vez de tentar a sorte no Rio, e mais luta ainda. “No fundo do meu poço o que encontro é uma mola propulsora que me lança além”, conta.

Agora, sem nunca deixar os palcos de lado, claro, ela vem emendando bons trabalhos na TV. Órfãos da Terra é a terceira parceria da atriz com as autoras Duca Rachid e Thelma Guedes – antes ela fez Cordel Encantado e Joia Rara. “O maior aprendizado nessa novela está sendo sobre respeito”, afirma. E quer saber as novidades sobre o casal fofo Santinha e Fauze (Kaysar Dadour), que anda meio estremecido? Leia o nosso bate-papo, que está imperdível.

Santinha (Cristiane Amorim). Foto: Globo/Paulo Belote

O que mais instiga você ao viver fazer a Santinha? Ao longo dos meus 27 anos de carreira o que me instiga a fazer uma personagem é a resposta do público. A gente que é de teatro, que lida com o público diretamente, interpreta pelo público, pelas palmas. As pessoas estão gostando da Santinha. Vejo pela resposta das ruas. Outro dia assisti a um vídeo de uma menina de Xerém, Baixada Fluminense, em que ela disse que via a novela por causa da Santinha e imitava o jeito dela. Isso me instiga, pois significa que as pessoas estão gostando do seu trabalho. E o que me estimula a fazer cada vez melhor é continuar trabalhando nesse país difícil. A única que coisa que quero é continuar trabalhando como atriz. Quero fazer bem para ser vista e continuar a ser chamada.

 

Fale um pouco sobre esse momento da personagem, em que ela acaba usada por Fauze para perseguir a família de Laila (Julia Dalavia). Como será a atitude dela, ela será conivente? Ela vai ficar arrasada! Será uma decepção muito grande para Santinha. Ela achou que tinha encontrado um príncipe e o cara é o maior bandido. Santinha não será conivente de forma nenhuma com ele. Está sendo uma fase interessante, na qual a personagem está crescendo muito. Eu acho que ela perdoa. Mas para perdoar... Fauze vai ter que virar a casaca. Santinha só o perdoará se ele desistir de ser mal. É uma fase interessante porque os conflitos aumentam e isso para o artista é muito bom. Esse sequestro vai dar pano para manga.

Foto: Gianne Carvalho

Acha que Fauze gosta mesmo dela, mesmo com essas atitudes “tortas”? Fauze gosta dela sim. Ele se apaixonou por Santinha. Ele nunca tinha conhecido o amor. Mas ele ficou confuso. Acredito que ele vai aceitar a proposta de Santinha, que é trair Dalila e passar para o lado de Jamil e Laila, que é o lado que Santinha está no momento. Fauze veio de uma cultura diferente. Era capanga de um grande sheik, sempre foi um pau mandado, e agora vai ter que escolher por ele mesmo, pelo coração. Agora é que eu quero ver: como é lá no fundo o coraçãozinho do Fauze.

Qual o final você deseja para os dois? Acredito que eles fiquem juntos. O final que quero é que fiquem felizes, com um grande casamento chiquérrimo! Gostaria que fossem embora para Dubai. Sugeri esse final para um diretor: os dois chiquérrimos, ricos, tomando um grande milk shake (risos). Não é que a riqueza seja condição para alguém ser feliz, mas os dois tiveram uma vida muito sofrida. Ele como capanga, escravizado. Ela sempre trabalhou em casa de família. Quem não deseja ter um pouco mais de conforto na vida?

 

E a parceria com o Kaysar, como está? A parceria com Kaysar é maravilhosa, como foi desde o início. Agora temos cenas mais tensas, que ele acompanha tranquilamente. Nosso jogo de cena está ótimo.

A Santinha é do núcleo da família Nasser, encabeçada por Paulo Betti e Eliane Giardini, como é a troca com eles? Eu, Eliane e Paulo Betti nos divertimos muito! O núcleo é muito divertido. Paulo solta cada uma! Ele trabalha de forma leve! E Eliane também! A patroa sempre dá um chega pra lá na Santinha e na hora do ensaio a gente às vezes da sugestão de atuação no texto. Brinquei com a Eliane: ‘Quero fazer teatro com você!’.

Fauze (Kaysar Dadour) e Santinha (Cristiane Amorim). Foto: Globo/João Cotta

Todo o ator diz que aprende com os personagens. Nessa novela tão potente, com uma mensagem forte de empatia, o que você mais tem aprendido? O que mais tenho aprendido é com a novela, com o tema. A questão da empatia, do olhar pro outro, não julgar, entender as culturas. As diferenças entre os povos, isso eu venho aprendendo. Isso está sendo ampliado com um novo olhar. O maior aprendizado está sendo esse: o respeito. Eu já tinha isso em mente, respeitar o outro, o jeito do outro, as escolhas do outro, mas com essa novela ampliei muito mais o olhar. 

Passou por muitos perrengues nessa sua trajetória do interior da Bahia até chegar aqui, teve algum momento de maior dificuldade? No fundo do meu poço o que encontro é uma mola propulsora que me lança além, muito mais longe do que eu já fui. É o jeito: colocar uma mola no fundo do poço. Esses desafios sempre me instigaram. Quando diziam que eu não ia conseguir, traçava uma reta e ia. Capricorniana, né? O que mais me instiga são as críticas. Elas não me derrubam. Isso me torna um desafio e vou até o fim para vencer. Esse é meu lema.

 

Como você vê esse momento difícil em que a cultura atravessa, de onde tirar forças para resistir? A cultura no Brasil está tão negligenciada... É como se não tivesse importância. Temos que tirar da nossa alma! O artista não trabalha pelo dinheiro, trabalha pelo aplauso.

Você atua no longa Lima Barreto, Ao Terceiro Dia, o que tem sido mais bacana nesse trabalho? O longa Lima Barreto ao terceiro dia está ficando maravilhoso. As pessoas vão se surpreender muito com esse filme. A peça já foi um sucesso e o filme está lindo! Podem aguardar. Me orgulho muito. Bacana é mostrar outra vertente do meu trabalho para as pessoas que já me conhecem da TV. Bacana foi ter feito uma personagem dramática, de época, do ano de 1.800 mais ou menos, em um outro tom, uma outra forma de se colocar. Tem pitadas de humor sutis. Nesse filme o humor está muito sutil. É um filme forte, leve. É drama e tragédia com pitadinhas sutis de humor. Ela também tem um pouco de vilania. Mas a circunstância acaba sendo assim, na obsessão dela casar a filha.

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