Como se explica o sucesso de uma novela reprisada no horário nobre?

O pesquisador em teledramaturgia Valmir Moratelli analisa os fatores por trás do fenômeno Fina Estampa


  • 27 de maio de 2020
Foto: Montagem


* Por Valmir Moratelli

Assim que foi escalada para substituir Amor de Mãe, Fina Estampa provocou críticas de todos os lados. Foi considerada esteticamente datada, com personagens caricatos e de humor duvidoso para os padrões atuais – como o afetadíssimo mordomo Crô (Marcelo Serrado). Mas a resposta do público foi o oposto do que a crítica apontava. Nas primeiras semanas no ar, Fina Estampa emplacou média acima dos 34 pontos na Grande São Paulo, desempenho superior ao da sucessora, que beliscava os 33 pontos quando foi interrompida. Como então explicar o sucesso de uma novela reprisada diante de uma inédita? Há vários fatores por trás desse fenômeno.

Primeiro, novela é emoção. Ao contrário de uma série, a construção narrativa da telenovela é feita sob amálgamas de concreto folhetinesco, ou seja, à base de lágrimas e paixões. Dificilmente se esquece primeiro de uma novela do que de um filme. Isso porque uma novela é criada para se acompanhar e se apaixonar por nove meses, uma gestação! Quando ela se encerra, fica um vazio pelos personagens que frequentavam nossas casas toda noite. A reprise é uma chance de receber essa visita novamente, no conforto do sofá da sala. Carminha (Adriana Esteves), por exemplo, voltou recentemente com Avenida Brasil no Vale a Pena Ver de Novo. Ninguém duvidava que seria sucesso absoluto. A gente ama receber Carminha em casa. Candinho voltou agora em Êta Mundo Bom!, com o mesmo êxito.

O segundo fator está na questão da empatia e da recordação. Uma novela reprisada traz consigo um baú de lembranças da época que foi exibida pela primeira vez. Assistir a Fina Estampa é uma viagem a 2011, quando o Brasil vivia o pleno emprego, se cobrava melhor remuneração da mulher no mercado de trabalho, o poder de consumo das classes populares estava fortalecido. Assim, uma reprise é também afago a nossa memória. O Canal Viva é prova disso, por atrair legião de saudosistas a sua programação diária.

Vale ressaltar que o folhetim de Aguinaldo Silva é construído em torno da figura materna de Pereirão (Lilia Cabral), uma mulher batalhadora e humilde. Exatamente como a doce – e já saudosa – Lurdes (Regina Casé) de Amor de Mãe. Ambas, Pereirão e Lourdes, poderiam ser primas. Elas fazem de tudo para defender os filhos, puxam a orelha quando é preciso, abdicam da vida íntima pela família. Quando Lurdes saiu do ar, o público manteve o ritmo com a passagem de bastão para Pereirão.

Por fim, não menos importante, voltar a acompanhar a lutadora Pereirão, por mais que saibamos seu happy end, não enfraquece a audiência, porque novela é spoiler. Não é como série, que o público espera ser surpreendido. Tanto que revistas especializadas sempre adiantaram desfecho das tramas de novelas. No caso das inéditas, a telenovela se alimenta dos vazamentos de capítulos. Uma novela reprisada é o maior spoiler que se poderia acompanhar.

Estes três fatores (emoção, memória e spoiler) passam como rolo compressor em cima das teorias que criticam os diálogos rasos e cenas bobas de Crô. Mas somado a isso acrescento o que respalda essas afirmações. As pessoas, em sua maioria, estão em casa isoladas, sem ter o que fazer, entediadas. Relaxar depois das avalanches dos telejornais é uma forma de escapar da realidade apocalíptica. Poderia não ser Pereirão a nos acompanhar nesse difícil momento. Talvez fossem Flora e Donatela, ou quem sabe a megera Branca, ou Jade e seu amor por um clone. Novela, reprisada ou inédita, só faz sucesso se tem história para contar. Ainda bem que temos um bom estoque delas.  

* Valmir Moratelli é pesquisador em teledramaturgia e autor de “O que as telenovelas exibem enquanto o mundo se transforma” (Ed. Autografia)



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