Claudia Raia: “O Brasil machista tenta abafar a mulher de 50 anos”

Com show de atuação, atriz diz como a Lidiane de Verão 90 a reinventou na comédia


  • 23 de julho de 2019
Foto: Reprodução Instagram


 

Com 40 anos de carreira, Claudia Raia é uma das nossas divas da TV e do teatro musical. E nessa reta final de Verão 90, pode-se dizer que mais uma vez ela deu um show à parte na pele da louca e adorável Lidiane, mãe da Manu (Isabelle Drummond). “Foi desafiador poder me reinventar num personagem de comédia após 36 anos de Globo”, diz a estrela de 52 anos.

E nesse passeio divertido de várias nuances, Lidiane mostrou também que uma mulher de 50 anos pode ter relações quentes, de muito “fogo”. “Isso tudo é real, as mulheres têm isso dentro delas, é que são abafadas por um formato de, ah, depois dos 40 são velhas. Não existe isso!”, afirma a atriz. Na entrevista, Claudia diz ainda onde encontrou forças para continuar o trabalho com a morte da mãe, dona Odette, aos 95 anos, em março. 

Lidiane (Claudia Raia). Foto: Globo/Isabella Pinheiro

Qual o balanço você faz da Lidiane? É um grande papel, com tantos coloridos, tantas emoções, é mesmo um presente para uma atriz receber um personagem como este. Quando li, achei muito engraçado. Eu sou uma comediante e só consigo fazer engraçado aquilo que eu acho engraçado. Eu tenho que ler e achar graça. E eu acho muita graça dela, é um personagem muito bem escrito pelas autoras (Izabel de Oliveira e Paula Amaral). Óbvio que tem a direção do Jorginho (Fernando) e de todos os outros diretores dando essa finalização. E eu acho que eu também contribuo para uma boa parte disso. Foi um personagem muito encaixado pra mim. E desafiador depois de 36 anos de TV Globo, de tantos personagens de comédia que eu já fiz, me reinventar numa nova personagem de comédia com um pouco das características de papéis que já fiz. Foi um trabalho árduo para me reinventar, mas acho que ela ficou bem diferente, bem colorida, engraçada. Ela tem um amor por essa filha incondicional. E eu saquei desde o começo que esse seria o coração dessa personagem. A construção de uma dupla, não era só mãe e filha, tem mães e filhas que são simbióticas e elas são. E eu e a Isabelle (Drummond) construímos isso tão de verdade,  que passou pra a vida essa união das duas. Acho que foi uma dupla que as pessoas vão se lembrar com muito carinho.

 

Por que você acha que ela atraiu tanto o Quinzão (Alexandre Borges)? Ela tem isso de ser quase infantil, uma ingenuidade, justamente o contraponto de uma sensualidade bagaceira, de ser atriz de pornochanchada, tem uma coisa livre, quase vulgar. Então ela fica um personagem adorável, todo o mundo quer levar pra casa. E eu acho que isso que atraiu o Quinzão, essa exuberância, esse borogodó, junto com esse coração lindo, essa ingenuidade. É um par fantástico, é a sétima vez que faço par com o Alexandre (Borges). A gente já é PHD um no outro, é muito legal fazer par com quem você é amigo, admira, tem intimidade. Foi de novo um grande presente, mesmo no final.

Manu (Isabelle Drummond) e Lidiane (Claudia Raia). Foto: Globo/Raquel Cunha

E esse corpo maravilhoso que você mostrou no ensaio fotográfico da Lidiane? Eu acho que precisaria ter esse tipo de coisa para a personagem, ela tem essa relação com o corpo, essa é a origem dela, não adianta fazer escondido, não daria certo. Então eu teria que ter toda essa disponibilidade para fazer. E eu acho que ficou bom, porque tem coisa que já não dá mais para fazer, você diz, isso vai ficar ridículo se eu fizer. Acho que ficou ok, o resultado ficou legal, é televisão, tudo muito corrido, não tem luz certa, em foto a gente pode rebuscar mais, em TV é difícil, mas ficou ótimo.

Você falou que é uma atriz de comédia, mas a Lidiane teve muitos momentos de drama também, né? Não é só porque ela é de comédia, que não tem essas dores, lágrimas, aí é que está a diferença. Você fazer aquele monte de loucura, com uma verdade, que você diz, eu acredito em tudo o que ela está dizendo. Porque tem algo humano na frente, não é a piada pela piada, ela acontece porque ela é uma doida, inadequada. Acaba que é tão humana, que você diz, ah, coitada. Ela pedir para o João (Rafael Vitti) na cadeia se separar da Manu é a pior coisa que uma mãe poderia fazer, e as pessoas não acham isso. Ah, ela é uma mãe, foi defender a filha... Tem isso quando cai na empatia, pode tudo. Mas tem aí uma mão forte da direção em nos conter, sempre trazendo a humanidade, o coração da personagem na frente. Então acho que a gente se manteve bem mesmo fazendo loucuras, porque as autoras são muito boas de comédia. É logico, a gente fica ali tentada, são cenas maravilhosas de comédia que você quer fazer, mas tudo tem que ser crível. 

Lidiane (Claudia Raia). Foto: Globo/Estevam Avellar

 

Nesse processo todo de sucesso da novela, você teve uma perda pessoal grande, da sua mãe (dona Odette). De onde você tirou força para não perder o foco desse trabalho e seguir em frente? Perder uma mãe não dá, principalmente uma mãe tão forte, tão matriarca, tão presente na família, que se foi aos 95 anos, absolutamente lúcida, com o controle da família. Então é muito duro, sempre. E sempre será! É uma dor que talvez não passe. Mas eu sou tão grata pela vida que ela teve, por eu ter nascido aos 44 anos dela, há 52 anos quase ninguém nascia com uma mãe dessa idade. Hoje é comum. Eu nunca imaginei conviver 52 anos de idade com ela. Isso foi uma maravilha. E a minha vida com ela, as coisas que ela fez, a mulher que ela foi, é e sempre será. Então acho que a minha gratidão é maior do que a minha dor, a minha dor é imensa. Mas tinha o meu trabalho, um trabalho que eu amo fazer, meus amigos, minhas filhas postiças, meus filhos verdadeiros, todo o mundo a minha volta. E uma personagem que ajuda a me levantar. Você estar fazendo uma personagem de comédia...  Aconteceu o mesmo em TiTiTi quando eu me separei do Edson (Celulari), era uma personagem de comédia, que também me ajudou. Essas coisas te impulsionam pra cima. Lógico que você não deixa de viver o luto, eu ainda estou vivendo, mas esta novela, este personagem me ajudaram muito, e o amor dos meus amigos e da minha família.

Até poucas semanas você estava no ar de domingo a domingo, na novela e no Domingão do Faustão, como é isso, porque você é uma artista popular, né? Eu sou do povo, sou popular, faço a minha arte para o povo. Fiquei no ar de domingo a domingo, o Show dos Famosos saiu do ar agora em 15 de julho. Mas é um momento muito bacana porque eu adoro fazer esse quadro do Faustão. A gente criou uma cumplicidade, uma união. É muito delicado, porque julgar é muito delicado, é uma posição difícil, principalmente quando você está julgando pessoas com carreiras consolidadas, pessoas importantes no meio artístico, que estão ali se expondo num momento até frágil. Então é difícil! Na verdade a gente está ali para dar ferramentas para elas continuarem se arriscando. Mas eu adoro!

Teve cenas de muito “fogo” do Quinzão com a Lidiane, e a internet pirava. Qual a importância de mostrar isso na TV, até para incentivar outras mulheres? É legal ver uma mulher de uns 50 e poucos anos com esse fogo, com essa vontade de viver. Na verdade, isso tudo é real, as mulheres têm isso dentro delas, é que elas são abafadas por um formato, ah, você passou de 40 e você é velha, não existe isso. Existe na cabeça da gente, na vida não existe. O mundo inteiro fala de outra coisa, o Brasil continua machistamente tentando abafar essa mulher como se ela não existisse. Então a gente tem que reagir a isso, sem dúvida.

 

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