Clarissa Pinheiro, a Penha: “Amando ver a trajetória dela tomar novos, e perigosos, rumos”

Jornalista, que trocou Recife pelo Rio, diz como se apaixonou pela atuação


  • 15 de fevereiro de 2020
Foto: Sergio Baia


Depois de atuar em séries potentes, como Onde Nascem os Fortes e Justiça, a pernambucana Clarissa Pinheiro tem a oportunidade de mostrar pela primeira vez o seu talento em uma novela e, ainda, no horário nobre. E mais, sua personagem Penha, que começou como a doméstica humilhada pela patroa Lídia (Malu Galli), de repente, se transforma em uma bandida para vingar a morte do então marido, Wesley (Dan Ferreira). “Confesso que não sabia que a trajetória da Penha tomaria novos, e perigosos, rumos! Estou amando isso”, conta.

Para Clarissa, que também é jornalista, é mesmo um momento especial na carreira. Afinal, sua mudança para o Rio, em 2010, foi para fazer cursos de circo e de direção de cinema. Mas a oportunidade de estar no elenco do filme Casa Grande mudaria seus planos: ela descobriu a paixão por atuar. “De lá pra cá, muitas portas se abriram e só tenho recebido apoio de todos os lados. Se dá medo? Sempre! O que será do futuro? Não sei... Mas vou com medo mesmo, o importante é não deixar de ir”, fala.

Penha é uma personagem que começou a novela bem discreta e agora se envolve com o assassino do marido. Você já sabia que ela teria essa virada? Não sabia! Foi uma grande e feliz surpresa. Eu já achava bem interessante essa personagem por retratar uma empregada doméstica para além de seus conflitos no trabalho, mostrando seu universo particular através das relações com o marido, da convivência com os amigos.

Como se preparou para este trabalho? A preparação para uma personagem de novela é constante. Cada elemento que chega a respeito da Penha me leva a pesquisar afetivamente aqueles novos caminhos optados por ela. Foi preciso investir no sentimento de impotência diante de uma injustiça, como também no desejo de vingança, ciúmes, perdas, entre tantos outros que ainda virão. É um processo muito rico.

Foto: Globo/Estevam Avellar

Estrear numa novela das 9h tem algum diferencial? Olha, estar no horário nobre significa que tem muita gente te assistindo e isso dá um certo frio na barriga. Mas procuro não pensar nisso. Me sinto honrada pela oportunidade e, como todas as outras que apareceram na minha vida, busco sempre dar o meu melhor. O resto é consequência.

Penha foi traída também pelo marido várias vezes. Como analisa essa decisão dela de vingá-lo, mesmo sabendo que ele tinha a Miriam (Ana Flávia Cavalcanti) como amante? Difícil julgar. Não sei se faria o mesmo. Talvez eu seguisse com a vida e deixasse o casamento fracassado para trás. Minha crença é de que as coisas acontecem porque têm que acontecer. Mas cada um reage de uma maneira. Para a Penha, acho que foi tudo muito rápido. Eles haviam rompido não fazia muito tempo quando o Wesley foi assassinado. Talvez não tenha sido tempo suficiente para ela se sentir efetivamente ex-mulher. Acredito que ainda havia um sentimento de amor muito grande dela por ele que a fez, inevitavelmente, se colocar nesse estado de viuvez, mesmo não sendo mais a mulher com quem ele estava se relacionando.

E será que podemos esperar que Penha se vingue da patroa que a demitiu injustamente e do namorado da patroa que armou pra ela? Por enquanto ela está bastante focada em se vingar do Belizário (Tuca Andrada). Mas não duvido nada que tanta mágoa e rancor, cultivados por esse sentimento de vingança, possam chegar na Dona Lídia (Malu Galli). Só vendo pra saber!

Na TV, você fez pouca coisa antes de Amor de mãe. Fez as séries Onde nascem os fortes, na Globo, e Jungle Pilot, na Universal Channel. É diferente trabalhar em obras fechadas? Acho que o que muda é que na série a curva do personagem é traçada do início ao fim, e filmamos por um período relativamente curto. Já na novela, vamos convivendo com a personagem durante meses, descobrindo mais e mais a seu respeito com o avançar dos capítulos. É uma nova experiência de composição. Como tem sido a repercussão de Penha com o público? Muito legal! No começo tiveram pena da Penha, porque ela havia sido demitida injustamente. Depois, comecei a receber comentários falando mal dela, chamando-a de fofoqueira. E agora torcem para que ela vingue a morte do Wesley. É interessante essa reviravolta de sentimentos que a trajetória de uma personagem pode causar nas pessoas.

Foto: Sergio Baia

Você é de Recife. Do que sente falta morando no Rio? Sinto falta da convivência com os amigos antigos, da família, de poder conviver e ver crescer o meu sobrinho lindo, fofo e amado, do caranguejo no leite de coco e do escondidinho de charque. E o que eu tenho de carioca em mim? A paixão por essa cidade. Recife tem um cenário muito forte para o cinema nacional e você fez projetos importantes de pernambucanos, como Aquarius.

Como analisa essas possibilidades de trabalho nas artes em Pernambuco? Já participei de alguns projetos bem legais, em Recife. Fico sempre muito orgulhosa e feliz quando participo de obras pernambucanas. Acho que Pernambuco tem uma trajetória linda no audiovisual, na música, na dança e em tantas outras manifestações culturais. Então só posso dizer que possibilidades de trabalho nas artes, em Pernambuco, são mais que bem-vindas! Você chegou a trabalhar como editora de vídeo.

Como foi sua virada de jornalista para atriz? Eu vim para o Rio de Janeiro com dois objetivos: entrar na Escola Nacional de Circo e estudar na Escola de Cinema Darcy Ribeiro. Eu já tinha um desejo de migrar da Edição para Direção. E, de hobby, fazia tecido acrobático, em Recife. Então quando cheguei no Rio já fui abraçada por essas duas escolas que, sem eu saber, nutriam a minha atriz (desconhecida por mim). Não segui com o Circo, mas no cinema me encontrei, não como editora, nem diretora, mas como atriz! E isso graças ao diretor Fellipe Barbosa, que me deu um verdadeiro presente, a personagem Rita, do filme Casa Grande.

Você leva uma vida discreta. Namora, é casada? Eu namoro sim. Há sete anos, com meu marido (diretor e iluminador Rafael Machado)! 

O que faz nas horas vagas? Ultimamente virei uma adepta da atividade física ao ar livre. Funcional na praia, Yoga na Lagoa. E com isso, passei a usar minhas horas vagas para curtir mais a natureza. Também estou amando cuidar de plantas! Mas o que adoro mesmo é ficar em casa, fazer uma boa comidinha e receber os amigos!

Mesmo gravando novela, já tem projetos novos para breve? A novela demanda um tempo que nem sempre permite avançar em outros projetos. Por enquanto me dedico exclusivamente à Penha. Mas estou estudando futuras possibilidades, dentre elas, voltar com a peça Isso Que Você Chama de Lugar, do diretor Daniel Herz.

Como analisa esse momento atual da arte no Brasil? Lastimável, mas não imutável. É tempo de resistência, criação. Temos que transformar toda essa tragédia em arte. Arte que modifica, que toca, que conscientiza. Tenho fé, apesar de lamentar tudo que está acontecendo.

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