Carolina Dieckmann relembra Laços de Família: “Acho que nem eu ficaria do lado da Camila”

Ela crê que jovem hoje seria “cancelada” por roubar namorado da mãe e diz que trama a reconectou com profissão


  • 12 de outubro de 2020
Foto: Globo/Estevam Avellar


Aos 42 anos e com quase 30 anos de carreira, Carolina Dieckmann afirma que ao dar vida à Camila de Laços de Família, em 2000, teve o real entendimento da profissão. A jovem começa a novela se apaixonando por Edu (Reynaldo Gianecchini), namorado da mãe, Helena (Vera Fischer), e depois descobre que está com leucemia. “Laços de Família veio como um chamado para eu me reconectar com a profissão de uma maneira muito forte. Foi ali que entendi o que é ser uma atriz”, conta Carol, mãe de Davi, de 21 anos, e de José, de 13.

Na época, a cena em que a personagem raspa a cabeça, bastante emocionada, com a música Love by grace, da Lara Fabia, ao fundo, se tornou das mais emblemáticas da teledramaturgia. Nesse momento da novela de Manoel Carlos, o público começa a ter mais empatia pela jovem. Mas na fase atual da reprise no Vale a Pena Ver de Novo, Camila não é vista com bons olhos pelos telespectadores, por querer “roubar” o amado da mãe. “Se fosse hoje, acho que ela seria ‘cancelada’ na primeira semana da novela”, aposta a atriz.

Edu (Reynaldo Gianecchini), Camila (Carolina Dieckmann) e Helena (Vera Fischer). Foto: Globo/Roberto Steinberger

Como está sendo rever esse trabalho? É uma novela que me traz diversas lembranças fortes, de um momento em que eu estava escolhendo essa profissão. Embora já tivesse feito alguns trabalhos como atriz, eu tinha acabado de ter o meu primeiro filho, estava cheia de dúvidas e questionamentos, tentando entender o que eu ia querer fazer dali em diante e Laços de Família veio como um chamado para eu realmente me reconectar com a profissão de uma maneira muito forte. E para mim foi definitivo. Foi ali que eu entendi o que é ser uma atriz. Entendi o ofício, o tamanho da entrega, foi esse o trabalho que me apresentou à profissão como algo que eu estava escolhendo fazer. Até ali eu me sentia escolhida, porque tinha passado em testes, eu não tinha tanta consciência do que era a profissão.

E o Manoel Carlos contou que a Camila foi escrita especialmente pra você, né? Essa novela pra mim foi muito intensa desde o começo, primeiro porque tinha essa responsabilidade de o Maneco falar abertamente que tinha escrito pra mim, isso era um susto, eu ficava quase sem ar com aquela responsabilidade toda. E justo depois de eu ter tido o meu primeiro filho (Davi). Eu lembro de eu estar no aeroporto indo para o Japão no começo da novela, aos prantos. Eu estava me separando pela primeira vez do meu filho de 8 meses. Então pra mim era tudo muito forte, tanto a minha vida pessoal, o meu background ali e tudo o que estava por vir e o que eu fui vivendo ao longo da novela.

A que atribui o sucesso da novela e da sua personagem? Eu acho que as novelas do Maneco sempre tiveram muito sucesso porque falam do cotidiano de uma maneira muito íntima, simples e fácil de identificar. Essa crônica do dia a dia é irresistível. E falando dessa novela especificamente, acho que o drama da doença da minha personagem de fato é muito forte, mas a abordagem da trama sobre uma mãe e uma filha que se apaixonam pela mesma pessoa era muito interessante. As tramas paralelas, como a da Capitu (Giovanna Antonelli) e da Íris (Deborah Secco), também eram muito intensas e deliciosas de acompanhar.

O texto do Maneco é peculiar por ser mais longo, cadenciado, você curte gravar esses tipos de cenas mais longas? Toda a vez que tem muita coisa pra gente decorar a gente fica muito feliz. Eu pelo menos, fico, quando tem coisas enormes. E o Maneco tem uma coisa de fazer cenas contínuas, você começa em casa, vai para o elevador, tem cena no elevador, você sai na porta do prédio, tem a cena na porta do prédio. Você grava em vários dias, mas aquilo tudo tem que estar muito estudado, muito certo, porque é uma continuidade direta depois que vai ao ar. E eu acho uma delícia fazer esse tipo de cena, é sempre um presente.

Como foi o processo de construção da personagem na época? O processo de construção da Camila vai muito de encontro ao universo do Maneco (Manoel Carlos), a ambientação no Leblon que é muito forte nas novelas dele, e o universo de uma jovem criada nesse bairro nobre da Zona Sul do Rio, que estuda do exterior.  Um universo muito particular que não fazia parte da minha vida e precisei entender. Eu fui criada em Santa Teresa, no Centro do Rio, em outro contexto, comecei a trabalhar muito cedo, enfim, a Camila era diferente de mim nesse sentido e com o universo ao redor muito distinto, muito particular, que é o da Zona Sul carioca. Ela teve um amadurecimento durante a trama até o momento em que fica doente, é um personagem com um arco dramático muito forte, onde acontecem muitas situações, e ela vai se transformando significativamente. Ficou muito presente o amadurecimento da Camila e a diferença gritante de como ela começa e como termina a novela.

O que mais te atraiu mais na personalidade controversa da Camila? A Camila entra em um embate muito forte com a mãe por ter se apaixonado pelo namorado dela e tenta dar conta daquilo tudo, e depois vem a doença, que passa a ser a protagonista da vida dela. O que mais me atraiu na Camila foi essa dualidade de ser uma menina com tantos conflitos, aparentemente frágil, e que vai encontrando uma força interior enorme para enfrentar sua dor.

Camila (Carolina Dieckmann). Foto: Globo/Roberto Steinberger

Como foi o feedback do público na época em que a novela foi originalmente exibida? O começo da novela para mim foi muito impactante. As pessoas logo começaram a me odiar, e a internet estava ganhando muita força naquela época. Existiam sites de pessoas dizendo que odiavam a Camila e nas ruas brigavam comigo. Isso foi muito forte e depois que eu fiquei doente foi ainda mais forte por um outro lado. As pessoas olhavam para mim e me abraçavam, choravam, ainda mais quando fiquei careca. Elas vinham falar de pessoas da família que estavam com câncer, a troca nessa novela foi a mais intensa de todas as novelas que eu fiz.

Hoje as redes sociais parecem um tribunal, julgam, debatem e até “cancelam” pessoas e personagens. Acha que a Camila poderia ser “cancelada”? A Camila seria cancelada na primeira semana da novela (risos). Ela é apresentada nessa situação, não tem muita coisa que acontece antes de ela se apaixonar pelo namorado da mãe. E eu acho isso muito forte, além do que eu posso pensar como motivo para uma pessoa ficar do lado da Camila naquela situação. Acho que nem eu ficaria. Nesse momento, eu acho que as pessoas estão com uma maior tendência a polarizar. Então eu acho que se essa novela estivesse passando pela primeira vez no horário nobre, a gente correria mais riscos de ter essa discussão mais inflamada por conta de as pessoas estarem com essa tendência maior a escolherem um lado. É isso, roubar o namorado da mãe é complicado para as pessoas defenderem.

A cena em que a Camila raspa a cabeça foi mesmo a mais marcante para você ou citaria também outras? A cena mais marcante com certeza é a que ela raspa a cabeça. Foi a cena que veio logo depois de uma cena também muito marcante, quando cortaram o meu cabelo por dentro para parecer que eu estava perdendo cabelo. Essas duas cenas foram um rito de passagem. Foi quando a personagem entrou de uma maneira física em mim, ali eu encontrei fisicamente com a Camila. Eu sinto que ela estava mais forte do que nunca, e isso passou para cena, não fui só eu que senti. Acho que todo mundo que vê a cena identifica que tem ali um encontro físico da personagem com a atriz.

A canção Love by grace, da Lara Fabian, que tocou na cena em que a Camila raspa o cabelo, marcou muito o público até hoje. Qual a sua relação com essa música? Eu lembro que quando eu fui no Inca, na época, eles colocaram essa música, e acho que foi o dia que eu mais chorei na minha vida. Eu tenho uma lembrança chocante desse dia, de estar careca e entrando no Inca, onde tinham 250 crianças com câncer. E eu tinha acabado de raspar. Essa música, hoje, é mais leve, porque as pessoas me marcam muito que elas colocam para elas rasparem as próprias cabeças. Na época eu não podia ouvir, porque eu chorava sempre, era um gatilho de emoção pra mim. e eu acho que por isso que o Ricardo (Waddington – diretor) colocou quando eu raspei a cabeça, que bastava colocar aquela música que eu já me conectava e me emocionava instantaneamente. Com o tempo ela foi ficando mais leve, mas continua sendo uma alma, essa música é uma alminha que me acompanha.

Como era a relação com o elenco com quem você mais contracenava? Minha relação com a Vera (Fischer) e o Giane (Reynaldo Gianecchini) era muito incrível. Com o Giane porque ele estava fazendo a primeira novela e tudo era novidade, e ele estava muito entregue e comprometido com tudo, era muito estudioso, e a Vera aquela atriz exuberante, linda e generosa demais. Tive uma troca muito intensa com os dois.

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