Caio Cabral: “Cresci sabendo que a vida seria mais difícil por ser homem preto, sempre procurei lutar”

Ator de Bom Sucesso exalta criação pelos avós com autoestima e brinca que Patrick “não é de se jogar fora”


  • 25 de setembro de 2019
Foto: Sergio Baia


Por Luciana Marques

Assim como o gente boa e justo Patrick de Bom Sucesso, o seu intérprete Caio Cabral, de 20 anos, é apaixonante, além de lindo também. E assim como o personagem, fala com propriedade de seus direitos. Em sua estreia na TV, ainda mais num núcleo jovem que está fazendo muito sucesso na trama, o ator sabe que acaba sendo exemplo para muitas crianças negras. “Essa responsabilidade eu quero dominar no peito”, avisa.

A educação dos avós maternos e tios para que a sua autoestima nunca fosse abalada por questões raciais amenizaram situações de preconceito sofridas na época da escola. “Mas nunca me abalei”, diz. E quando o assunto é a trama das 7, Caio sabe que será difícil alguém atrapalhar o romance do casal #Gabicente, formado por Gabriela (Giovanna Coimbra) e Vicente (Gabriel Contente), mas crê que tudo pode acontecer. “E o Patrick também não é de se jogar fora, né?”, diverte-se ele.

Como está sendo estrear na TV em uma novela linda, que tem repercutido tanto e que toca em temas tão pertinentes como literatura, “vida”, questões raciais, LGBTs? Está sendo uma honra sem tamanho fazer parte de um produto com uma repercussão tão grande e que está sendo visto com ótimos olhares pelo público, tanto por quem acompanha, quanto por quem não acompanha e ouve os elogios pela internet ou no boca a boca.

Patrck (Caio Cabral). Foto: Globo/João Cotta

O que tem mais instigado você ao viver o Patrick? O fato dele ser uma pessoa com tão pouca idade, mas muito consciente, maduro e ao mesmo tempo puro. Um menino que sabe seus direitos e que leva a vida na pureza e no amor, sempre de uma forma justa. Acho isso lindo!

Há muita identificação entre você e ele? Demais! O amor que tem dentro de si pelas pessoas que ele protege, paixão pelo esporte que eu sempre tive desde cedo e a ambição e competitividade.

Ele nutre uma paixão platônica pela Gabriela, acha que pode rolar aí um envolvimento, torce para isso? Sim, acho que pode rolar. Os dois se tratam bem demais, se amam de uma certa forma. Mas eu torço sim! Patrick é um garoto que tem muita admiração pela Gabriela, acha ela muito linda e vice e versa. Acho que seria lindo, pois os dois são do bem e têm a mesma energia e vibe.

Você já viveu algo assim? Sim, na minha infância demais. Tive muitas paixões platônicas na época de escola.

Patrick (Caio Cabral) e Gabriela (Giovanna Coimbra). Foto: Globo/Victor Pollak

Quase todo o jovem enfrenta problemas na época da adolescência na escola, como bullying, preconceito... O que lembra dessa fase, também sofreu algum tipo de preconceito e como lidou? Eu sofri sim no início da minha trajetória num colégio particular, mas nunca me abalei. Sempre procurei lutar, pois minha família desde sempre trabalhou isso na minha cabeça, que a vida ia ser mil vezes mais difícil pelo simples fato de eu ser um homem preto. Consegui com muita paciência buscar meu espaço dentro do colégio, acabei sendo até liderança lá e presidente do grêmio estudantil.

Muitos artistas negros falam que não tinham referência na TV quando eram novos. Quem foram as suas inspirações tanto na carreira de modelo como na de ator? Na carreira como ator, cito David Junior, Lázaro Ramos, Fabrício Boliveira, Denzel Washington, Tupac, André Ramiro, Samuel L Jackson. Como modelo: Asap Rocky, Playboi Carti, Tupac de novo, Alton Mason.

Qual a importância da sua família na sua criação, até em relação a questões raciais, autoestima...? 
Fundamental demais! Fui criado pelos meus avós maternos, Anna, (mãe/vó) e Antonio Carlos, com ajuda e presença cotidiana dos meus tios, Luana (madrinha/musa) e João Paulo. Eles sempre trabalharam na minha mente que eu vou ter que correr o dobro, ser o melhor sempre pra conseguir os meus objetivos e realizar meus sonhos. Outras duas pessoas importantes: minha bisa materna, Nilda, e o Abrahão Nassif, um pai do coração. Ele é tipo o porto seguro na vida em tudo quando eu estou em São Paulo, onde ele mora, e que também faz as melhores massas de Sampa, na Al-Khimia do Sabor. Se não fossem eles, nem sei...

Foto: Sergio Baia

Bom Sucesso é uma das tramas atuais que mais conta com atores negros no elenco, inclusive um protagonista. Como você avalia isso, ainda há muito que melhorar ou as coisas estão mudando? Avalio de uma forma muito boa, porém, acho que é só começo. Tem muito o que melhorar no quesito igualdade. Óbvio que é um passo extremamente importante, acho que nós temos que ter cautela sempre e continuar a busca o nosso espaço. 

Hoje estando na TV, num horário das 7, você acaba virando referência para muitas crianças. Como recebe essa responsabilidade? Sempre sonhei ser uma referência positiva para as pessoas e para as crianças, principalmente os pretos. Passar pra esse povo que ele pode sim, e nunca abaixar a cabeça quando o sistema for contra nós.

Você iniciou a carreira como modelo. Como foi essa experiência e se foi a partir daí que você decidiu ser ator? Sempre fiz teatro desde novo. Ser modelo veio um pouco mais tarde, com uns 17 anos, mas uma coisa ajudou na outra, foi fundamental na mesma proporção.

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