Bernardo Felinto: “Ser ator é investimento de 10 anos, quase um chamado de amor e persistência”

Com 30 peças, ator e roteirista festeja êxito de curta e cobra ações do governo em prol de profissionais da cultura


  • 30 de abril de 2020
Foto: Felipe Barreira


Por Luciana Marques

Com mais de 30 peças no currículo, vários trabalhos na TV e uma escola de teatro em Brasília, Bernardo Felinto vive um turbilhão de emoções em meio à pandemia do Coronavírus. Nessa fase de incertezas, o ator e roteirista vê a cultura num barco sem rumo. “A arte, principalmente para o governo federal atual, não é uma prioridade. Agora temos a Regina Duarte num cargo de extrema importância e que até agora não se manifestou, está ausente, confusa, com medo”, avalia o ator, que viveu o Kaara, em Órfãos da Terra, em 2019.

Bernardo crê que, como uma arte milenar, o teatro dará um jeito de sobreviver, mas acredita que a recuperação só virá com algum tipo de incentivo público. Algo bom nesse “tsunami” é perceber a classe mais unida. E enquanto nada se define, ele aproveita a quarentena para escrever. “Sou um observador atento da vida. Geralmente escrevo algo que preciso falar, naquele tempo, naquela hora”, conta.

Roteirista, ator e produtor do curta Me Deixe Não Ser, assinado ele se orgulha de ver o trabalho selecionado para o Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, para o Brazil Cine Fest International Film, para o Downtown Urban Film Festival, em Nova York, para o Los Angeles Television, Script and Film Festival e para o New Jersey Indian & International Film Festvial. Nestes dois últimos, o curta recebeu o prêmio de melhor roteiro, ambos em 2019.

Como você tem passado a quarentena e como avalia esse momento tão difícil? Eu tenho aproveitado para estudar. Tenho lido bastante, assistido filmes, séries e estou escrevendo também. Impossível não sair mudado dessa quarentena. Falando por mim, tenho vivido um turbilhão de emoções, Algumas vezes mais otimista, outras nem tanto. Penso qual será o futuro da minha profissão, o meu trabalho é aglomeração, seja nas peças, nos ensaios, no cinema, no set, no meu curso de teatro (Curso de Teatro Bernardo Felinto)... Difícil prever como será o cenário depois que isso tudo passar. Mas acho legítimo cuidar da saúde emocional, é um tempo fundamental para o autoconhecimento, ainda mais para os artistas. Se perceber, se avaliar, é parte fundamental do processo.

Foto: Felipe Barreira

Como tem visto a união da classe artística nesse momento em prol dos trabalhadores da cultura que estão passando dificuldades? Vejo com ótimos olhos essa união. Sinceramente, sempre achei a classe artística uma classe desunida. Nunca tivemos um órgão que realmente exigisse os nossos direitos, nem de forma regional, nem federal. A cultura é, até hoje, muito marginalizada. É sempre a última opção de investimento público. A arte, principalmente no Brasil, é tratada como algo totalmente supérfluo. Contudo, nessa época de pandemia, com as pessoas em casa, nota-se como a arte é essencial. Estamos todos nos ocupando da arte para manter a sanidade mental, vemos filmes, lendo, escutando música... A arte nunca foi tão importante. É uma época muita dura para os profissionais da arte, não só os artistas, mas quem está nos bastidores. Quantos profissionais do cinema por exemplo estão sem renda? Milhares. Fora nós, os atores. Como os cinegrafistas estão se virando? E os figurinistas, roteiristas, cenógrafos, diretores de arte e tantos outros? E sem o apoio necessário do governo, essa situação fica cada vez mais difícil.

Depois que tudo isso passar, como acha que a área cultural vai reagir? A área cultural será uma das áreas mais prejudicadas. Como falei acima, os profissionais que brilham na tela ou no palco e os profissionais que estão por trás serão muito atingidos. O cinema e o teatro são áreas que vão demorar a voltar. E esses profissionais terão que se reinventar. É duríssimo ver essa queda e artistas desesperados. O governo federal coloca a cultura como última prioridade, por isso a crise já estava instalada. Falando pelo teatro, não estou otimista. O teatro, por exemplo, já vinha numa crise grande. O esforço para se colocar 200 pessoas em uma sala de teatro é absurdo, com investimentos altíssimos. Quem faz teatro atualmente, realmente tem muito amor pela profissão. Falo isso sem contar os grandes musicais ou nomes em alta do stand up comedy, por exemplo. O teatro de raiz, aquele de quinta a domingo, está na UTI. Já estava antes, depois dessa pandemia, não sei como será. Óbvio que o teatro nunca vai acabar, mas será necessário, agora mais do que nunca, políticas públicas que ajudem nessa recuperação.

O ator em cena de Órfãos da Terra. Foto: Reprodução Globo

O seu curta Me Deixe Não Ser foi selecionado para vários festivais e também ganhou alguns prêmios. Por que acha que ele tem chamado tanto a atenção? Acho o roteiro o ponto alto do filme. Foi extremamente desenvolvido, passou por vários tratamentos, fora nas gravações que mudamos algumas coisas e na mesa de edição houve novos ajustes. Eu e a Carol (Carolina Monterosa, atriz do filme) tivemos uma química muito boa em cena, tivemos um período de preparação, fluiu naturalmente. Creio que a quimíca desses protagonistas foi verdadeira, isso contribuiu pro filme ser realista, envolver o espectador.

Duas peças que você atuou e que fizeram muito sucesso com o público foram Tudo Sobre Nossa Vida Sexual e Como não arruinar o seu relacionamento. São comédias que falam de relacionamento. É um tema universal que sempre dialogará com o público? Realmente gosto muito desse tema pra trabalhar. Essas peças foram de comédia, mas os últimos filmes que escrevi foram de drama e sempre pegando um gancho na questão dos relacionamentos. É um tema inesgotável, me interessa. É uma espécie de terapia escrever sobre isso. Sem dúvida é um tema universal e atemporal. Mesmo que o espectador não esteja em um relacionamento no momento, ele já passou por isso de alguma forma, ou está passando ou vai passar. É identificação imediata. Eu só consigo escrever sobre a minha realidade, sobre o que vivo ou vejo no meu círculo social. É algo muito pessoal. Não conseguiria, por exemplo, escrever sobre os alienígenas que invadiram a terra, mas um romance entre eles na nave, quem sabe? (risos).

Como busca inspiração para a criação de suas histórias? Eu, como ator, sou muito observador. Sou um observador atento da vida, por natureza. Às vezes, a inspiração é um filme, ou uma música, ou um clipe, ou uma história pessoal, ou a história de um amigo que escutei numa mesa de bar. Mas em geral, coisas que estão próximas de mim. E claro, coisas que eu me interesso. Geralmente escrevo algo que preciso falar, naquele tempo, naquela hora. Por isso não gosto de escrever uma obra e realizá-la anos depois. Depois de um tempo, já não é o que quero mais dizer com artista. Tudo pode servir de inspiração. Mas o trabalho maior está na transpiração, mesmo que eu tenha o argumento, desenvolver a história é um trabalho delicado, saber como contar aquilo de forma interessante é desafiador. 

O ator no palco com Rebeca Reis na peça Enquanto Estamos Juntos. Foto: Alan Miguel Gonçalves

Tem vontade de escrever séries? Porque é um gênero que chegou para ficar no brasil e estamos vendo grandes histórias, né? Nunca escrevi uma série. Tenho vontade sim. Temos produzidos grandes séries no Brasil. Quem sabe meu próximo projeto não seja escrever uma série? Sei que ficaria boas noites sem dormir, mas adoraria.

Você tem 20 anos de carreira. Como vê a sua caminhada, porque não é uma carreira fácil, né, apesar de que você é multifacetado, além de atuar, produz, dirige, dá aula... Sim, são 20 anos. Comecei aos 15 anos e vou fazer 35 em maio. Não foi uma caminhada fácil. Tive que aprender e me dedicar a várias áreas dentro do universo artístico. A minha profissão, o que assino na ficha do hotel é: Ator. Mas as vertentes de arte fazem parte do processo e me tornam um ator melhor, mais completo. Fora que posso atuar nas minhas próprias obras, o que é gratificante também. Porém, é o que eu falo para os meus alunos, ser ator é uma vida de dedicação, é uma carreira, um investimento de 10 anos. Não é um momento isolado. Ser ator é quase um chamado, de amor e de persistência.

Pra você, o caminho hoje é o ator ser um pouco produtor também, diretor, ou não há lógica, cada caso é um caso? De fato, não há uma lógica. Não existe um caminho das pedras. Cada um tem o seu caminho, a sua trajetória, a sua sorte. É uma profissão difícil. Uma das mais difíceis para vencer. Nem sempre só o talento basta. Caso o ator tenha um outro emprego por exemplo, para se sustentar até vencer na carreira, é um passo importante. Se for só artista, importante ser empreendedor também, ter educação financeira, porque é uma profissão de altos e baixos. Mas sem dúvidas, o ator que sabe se produzir está um passo a frente. O ator não pode ficar na sala esperando o telefone tocar. Eu sempre escrevi e produzi as minhas próprias peças e filmes, sempre levantei os meus projetos e isso me tornou conhecido. Só cheguei na Globo porque escrevi uma peça e levei ela pro Rio. Sou a favor disso.

Tem algum novo projeto? Estou escrevendo um novo curta-metragem e um longa. Quando tudo isso passar, vou buscar levantar esses dois projetos. Não consigo ficar parado, produzir coisas novas, atuar em personagens interessantes, é a minha motivação. Quero voltar com a peça que estava em cartaz no Rio quando tudo isso começou. A peça chama-se Enquanto Estamos Juntos. Enfim, quero atuar, produzir, escrever e trabalhar muito.



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