Antonio Saboia fala das séries Rotas do Ódio e O Mecanismo

Franco-brasileiro, ator lembra conselho inusitado do astro Omar Sharif


  • 12 de junho de 2018
Foto: Daryan Dornelles


Por Luciana Marques

Nascido e criado em Paris, Antonio Saboia, que viveu o Matias na recente Tempo de Amar, quando mais novo ouviu um conselho desalentador sobre seguir carreira nas artes, de nada mais nada menos do que Omar Sharif. “Desista, filho”, disse o astro egípcio para o então jovenzinho, que acompanhava o pai em um evento.

A frase acabou sendo uma "provocação" para o menino, filho de mãe francesa e pai brasileiro. Tanto que, aos 15 anos, Saboia começou a fazer teatro na França, depois foi estudar interpretação na Webber Douglas Academy of Dramatic Art, na Inglaterra. “É focar e ter a disciplina de insistir naquilo que você realmente quer. Muitas vezes não podemos escolher, mas podemos sempre direcionar”, ressalta ele.

E Saboia seguiu seu caminho, e acabou construindo sua carreira no Brasil. Desde então, tem feito uma bonita jornada aqui, principalmente em séries e filmes. Atualmente, pode ser visto em Rotas do Ódio, do Universal Channel, e Mecanismo, do Netflix. Ele também rodou dois longas esse ano, Órbitas da Água, de Frederico Machado, e Bacurau, de Kleber Mendonça e Juliano Dornelles.

Foto: Daryan Dornelles

Você está no ar em duas séries. Como tem sido atuar nessa nova vertente de arte que já era muito forte lá fora, e agora está vindo com tudo no Brasil?

A produção de séries é algo relativamente novo no Brasil, mas estamos aprendendo e produzindo coisas cada vez mais sofisticadas. Os roteiros estão melhorando muito, sem dúvida, os últimos que eu tenho lido não devem nada aos seriados produzidos no exterior. 

A estreia de Mecanismo deu o que falar, principalmente nesse momento político conturbado que o país vive. Como foi participar e como você viu toda essa repercussão?

É um privilégio trabalhar com o José Padilha (diretor) em uma casa como a Netflix e com esse elenco. E fico muito feliz de ver meus amigos e a minha família na Europa acompanharem finalmente um trabalho meu (risos). A polêmica era inevitável, ela ajudou e atrapalhou a série, mas era de se esperar. Infelizmente muita gente julgou O Mecanismo sem ter assistido ao menos um capítulo. Mas ainda dá tempo porque a série está à disposição do público no Netflix.

E Rotas do Ódio, o que mais instigou você ao participar dessa produção?

Tudo me instigou! Da diretora Suzanna Lira, com quem o meu 'santo' bateu de imediato, às temáticas abordadas na série, o que ela defende, o que ela denuncia. É a única série que trata de intolerância e preconceito racial no Brasil, que é o país número 1 no ranking de assassinatos homofóbicos, e que mata um negro a cada 25 minutos. Essa série é um ato político e um convite à conscientização.

Em Rotas do Ódio. Foto: Divulgação

Alguma dessas séries pode ter nova temporada?

As próximas temporadas do Rotas do Ódio já foram confirmadas pela Universal. Quanto ao Mecanismo, estamos aguardando ainda para saber quando gravamos e mais detalhes.

Você iniciou sua carreira no teatro, aos 15 anos na França, depois estudou na Inglaterra. Há muita diferença da dramaturgia da Europa para a nossa?

A Inglaterra e a França tem uma tradição teatral muito forte e antiga, consequentemente existe uma diversidade de autores e de textos de alta qualidade. Mas temos também grandes autores aqui no Brasil. 

O que você aprendeu lá fora que foi fundamental na sua caminhada aqui?

Que a grama não é mais verde na casa do vizinho. É difícil em qualquer lugar, mas o importante é focar no que temos ao nosso alcance. E que para ver algo brotar, você precisa se enraizar um mínimo num lugar só. A outra coisa foi meu pai que ensinou: tudo que se almeja pode acontecer, basta ficar em cima e perturbar (risos).

Foto: Daryan Dornelles

Pensou em seguir carreira na Europa?

Sai de lá porque eu namorava uma brasileira e acabei construindo minha carreira aqui, o que foi uma escolha muito feliz. Trabalhar na Europa e nos USA faz parte do plano ainda. A ideia é poder trabalhar tanto lá quanto cá. Mas tudo a seu tempo.

Como avalia sua trajetória nas artes desde então, porque não é fácil, né?

Um dia meu pai pediu para Omar Sharif, com quem cruzamos por acaso num evento, para me dar um conselho. Eu era bem novinho na época, e Omar virou para mim e disse, apenas: 'Desista, filho'. Olha, uma vez que você supera a raiva que isso pode provocar e entende a provocação em si, já é meio caminho andado (risos). O resto é focar e ter a disciplina de insistir naquilo que você realmente quer.

Você também é coroteirista e coprodutor do longa Calvário. Do que trata o filme e quando deve ser lançado?

O filme é uma denúncia da crescente onda de brutalidade reacionária que temos visto no Brasil. É uma demonstração pela violência da violência cometida diariamente contra a comunidade LGBT e contra todas as minorias. Nossa intenção foi de chocar mesmo e ver se, de alguma forma, isso podia despertar consciências. Esperamos lançar o filme no segundo semestre de 2019. 

Em O Mecanismo. Foto: Divulgação

Com toda essa crise que enfrenta a cultura no Brasil, como vocês estão conseguindo driblar isso para tocar o filme?

Esse filme foi feito sem nenhum incentivo do governo. Estamos em pós-produção. É um processo lento e demorado, principalmente quando não se tem verba nenhuma. Mas uma hora fica pronto.

Tem mais algum outro projeto para falar?

Pessoais ainda não, mas o próximo, além de escrever com o meu irmão Bruno Saboia, é dirigir com ele. Acabei de gravar Bacurau do Kleber Mendonça e Juliano Dornelles, com os quais foi um privilégio trabalhar. E vou gravar uma série sobre o Santos Dumont, da HBO, que tem um super roteiro. Também gravei no começo do ano o próximo filme de Frederico Machado, o Órbitas da Água, o filme mais visceral que já fiz na vida, que vai ser lançado em 2019, e pelo qual estou ansioso pra ver o resultado.



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