Ana Petta, a Dra Laura: “Entendi a importância e a beleza do trabalho na atenção básica à saúde”

Uma das criadoras e protagonista de Unidade Básica, atriz cita lições com a série


  • 19 de maio de 2020
Foto: Pedro Saad


Por Luciana Marques

Assim como a sua personagem em Unidade Básica, a Dra. Laura, Ana Petta se viu transformada com o decorrer do trabalho na série. Na segunda temporada, no ar no Universal TV, aos domingos, às 23h, a médica busca um equilíbrio entre o humano e o científico. “Ela resolve ficar na UBS. É uma personagem que se transforma por aquele ambiente. E isso é uma lição pra mim também”, conta a atriz, uma das criadoras da produção junto com a irmã, a médica infectologista Helena Petta, e Newton Cannito, que também assina o roteiro com Marcos Takeda. A direção geral é de Caroline Fioratti.

Segundo Ana, que protagoniza a série junto com Caco Ciocler, o Dr. Paulo, a relação dos dois continua tendo embates nessa fase, mas eles vão se reencontrar também em muitas questões. Mas o maior aprendizado para a atriz, cria do teatro e com várias peças pelas Cias São Jorge de Variedades e do Latão, foi perceber a importância do SUS e, principalmente, do trabalho de atenção primária à saúde realizado no Brasil. “Entendi o que leva os profissionais de saúde, apesar de todas as dificuldades, a dedicarem uma vida toda no cuidado de outras pessoas. Entendi a beleza dessa opção”, afirma.

O que você apontaria como novidade na segunda temporada de Unidade Básica? Eu acho que a novidade é ver a Laura diferente. Ela se transformou durante a primeira temporada, muito baseada na discussão entre ela e o Paulo. Ela, com uma visão mais biomédica, e ele com uma visão mais ampliada, mais humana do cuidado à saúde. E nesta temporada, não. A Laura também vem com uma visão mais ampliada, ela é uma médica que também já entendeu a complexidade da atenção primária. E ela vai se identificar muito com os temas femininos, com as questões das pacientes mulheres.

Ana é dirigida pelo colega de cena Caco Ciocler em um dos episódios. Foto: Ariela Bueno

E a relação da Dra. Laura com o Dr. Paulo nessa fase? O que eu posso adiantar é que como Laura vem mais forte, ela agora é uma mulher mais empoderada, o Paulo vai se assustar um pouco isso. Ele não consegue enxergar a transformação dela, porque apesar de ele ser um médico incrível, ele pessoalmente é muito frágil. Então os dois vão ter vários embates, mas também vão se acertar, vão se reencontrar.

Quais foram as suas referências para compor a Dra. Laura? A minha referência principal nessa segunda temporada é a minha irmã Helena, o ponto de vista dela, como ela reagiria, como ela se comportaria diante de cada situação. Na primeira temporada eu busquei muitas referências em estudantes de medicina recém-formadas.

Como é a troca com a sua irmã Helena? A nossa troca é imensa. Desde os roteiros até o corte final, a gente conversa sobre tudo relacionado à série. Durante as filmagens, a gente ficou junto na minha casa, com os nossos filhos, então a gente vinha do set para a casa e continuava conversando sobre o que estava acontecendo. E trocando muito o tempo inteiro.

Há muitas identificações entre você e a Laura? Acho que tem sim. Eu me identifico muito com a Dra. Laura. Na primeira temporada, do ponto de vista de uma atriz que também estava descobrindo o universo do audiovisual, que estava descobrindo ser protagonista de uma série. E nesta segunda temporada, com todas as questões que ela levanta. Eu me emociono muito com a Laura, com as falas dela, me identifico muito com a forma que ela pensa, age. Então eu tenho uma identificação grande com a Laura. E eu acho que é um pouco da identificação que há também entre eu e a Helena.

Desde que você participou da criação do projeto até hoje, o que mais tem aprendido com a Laura e vai levar sempre para a sua vida? A Laura me fez mergulhar nesse universo da saúde pública no Brasil. E aí eu entendi, o que leva os profissionais de saúde, apesar de todas as dificuldades, a dedicarem uma vida toda no cuidado de outras pessoas. E eu entendi a beleza dessa opção. A Laura faz essa escolha, ela resolve ficar na UBS, e eu entendo ela. E ela é uma personagem que se transforma, se deixa afetar por aquele ambiente e se transforma com ele. E isso é uma lição pra mim também.

E o que esse trabalho significa para a sua carreira, recebe muito feedback, o que as pessoas falam? Esse trabalho é muito importante na minha trajetória. Eu tenho recebido feedbacks muito bonitos. E os que mais me tocam são dos profissionais de saúde, médicas, estudantes de medicina, médicas de famílias, enfermeiras, que me escrevem, se identificam com a Laura, que se veem representadas pela série. E isso pra mim é muito gratificante.

E em relação à atenção básica à saude, ao SUS... Você vê hoje isso tudo, o trabalho feito lá com um outro entendimento? Eu sempre entendi a importância do SUS. Mas através da série eu fui entender a importância desse trabalho de atenção primária que é realizado no Brasil. Eu conheci as equipes de medicina de família e comunidade. E isso me fez entender a importância e a beleza desse trabalho que é feito na atenção básica à saúde no Brasil, com todos os seus problemas e todas as dificuldades.

E sobre a questão da exibição da segunda temporada ser em meio à essa pandemia da Covid-19? A gente não imaginava lançar a nossa série num momento como esse. A gente sempre quis contar as histórias do SUS, mas não imaginava isso. Então que a nossa série seja uma homenagem aos profissionais de saúde que estão na linha de frente. E que seja uma homenagem ao SUS, para que a gente entenda cada vez mais a importância de um sistema público de saúde para todas as pessoas.

Dra. Laura (Ana Petta). Foto: Ariela Bueno

Você começou a carreira no teatro, tem várias peças no currículo, fez séries, mas pouca novela. Gostaria de ter feito mais TV aberta ou foi uma opção de carreira? Eu fiz artes cênicas, sempre fiz teatro, participei da companhia São Jorge de Variedades, da companhia do Latão. E sempre me interessei por projetos que tenham a ver com as coisas que eu penso, que tenham um sentido. E essa foi minha trajetória, fiz séries, telefilmes, documentários e Unidade Básica, que é esse projeto que eu posso trabalhar desde a criação até o final. E tem sido muito interessante, porque no teatro sempre trabalhei assim. A gente faz um processo colaborativo de criação em que os atores participam de todo o processo. Então tem sido muito interessante fazer isso no audiovisual também. Eu gostaria de trabalhar na TV aberta, quero trabalhar. Acho que a TV aberta é importantíssima porque atinge milhões de pessoas.

A cultura já enfrentava um momento difícil, de crise, censura, e agora com a pandemia do coronavírus a coisa piorou. Como vocês da classe estão vendo tudo isso, poucas ações do governo, profissionais da área com dificuldades financeiras? O momento é muito difícil. A gente já vinha num processo de desestruturação, de interrupção de políticas culturais importantes que foram desenvolvidas no Brasil no último período. E a gente vinha tendo ações muito autoritárias do governo. E agora com a pandemia, os artistas, a cultura se veem abandonados, sem nenhuma perspectiva, sem nenhuma política, sem nenhuma resposta para esse momento. Então os artistas que já tinham uma situação precarizada de trabalho, que vivem de projeto em projeto, agora se veem sem perspectiva. Então é urgente que alguma medida seja tomada para apresentar um plano de enfrentamento à pandemia para a cultura.

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