Ana Isabela Godinho lembra bullying e a volta por cima

Atriz, revelação em Pega Pega, incentiva as mulheres a se aceitarem do seu jeito


  • 09 de março de 2018
Foto: Andrea Rocha


Por Luciana Marques

Na semana do Dia Internacional da Mulher, a atriz Ana Isabela Godinho, de 24 anos, fala da importância da mulher se valorizar do jeito que realmente é. Assim, ela, que fez sua estreia na TV como a policial Nina, de Pega Pega, lembra da infância e adolescência difíceis, em que ouvia piadinhas e zoações por causa do enorme cabelão. “Não tinha coragem de usar ele solto. Sofri muito bullying na escola, foi uma fase bem tensa”, conta.

Mas o tempo passou e veio a reviravolta. Tudo mudou quando Ana conheceu uma booker de uma agência de modelo em Goiânia que a fez ver, na verdade, a mulher maravilhosa que era com os cachos soltos. “Fiquei tão feliz! É tão bom quando você ouve coisas positivas, ela me incentivou tanto, que comecei a gostar, a me aceitar”, ressalta a atriz, natural de Pirenópolis.

Em entrevista ao Portal ArteBlitz, Ana fala também sobre a mudança para o Rio, a sua batalha até conquistar o primeiro papel na TV, de golpes sofridos e do sonho em poder continuar trilhando a sua jornada com novos trabalhos na área artística. Alguém duvida?

Foto: Andrea Rocha

Sonho de ser atriz

Quando era pequena, sofri muito bullying na escola em relação ao meu cabelo. Então, as coisas aconteceram aos poucos... Não tinha vontade alguma de ser atriz. E como eu era muito magra, teve uma época que as pessoas diziam, você pode se candidatar para ser modelo, procura uma agência. E eu tímida e com o cabelo sempre preso, mas fui ouvindo isso das pessoas. Até que um dia fui a uma agênia de modelo em Goiânia para poder me cadastrar. Tinha 11 para 12 anos. Quando cheguei lá, estava com o cabelo preso, não tinha coragem nenhuma de usar solto, aquilo era um problema para mim. E quando cheguei, uma das bookers veio falar comigo. E ela soltou o meu cabelo, bagunçou ele todo e disse, se você quiser ser modelo, vai ter que ser assim. Você tem que assumir realmente quem você é, você é linda do seu jeito. Você tem uma beleza natural, o seu cabelo é lindo e você tem que valorizar aquilo que você tem. Sei que tem muitas pessoas que são más, criticam, falam, mas você tem que aceitar quem você realmente é. Ela me colocou na frente de um espelho, me mostrou o cabelo, e eu fiquei super feliz.

Fase de aceitação

É muito bom você ouvir coisas positivas de pessoas que já estão trabalhando com isso há muito tempo. Então, realmente foi uma fase de escola bem tensa que eu passei, mas tudo escondido da minha mãe, nunca contava nada para ninguém, sempre sofria em silêncio. E quanto ela me mostrou o meu cabelo, me incentivou, eu fiquei super feliz. E nesse dia a gente começou a fazer umas fotos na agência. E ela me mostrou, olha a sua foto, olha para você, como você é. Você tem que ser isso, tem que ser dessa forma. Ela disse, hoje você vai embora para a sua cidade assim. E cheguei na minha casa com o cabelo todo solto, arrumado. E comecei a gostar. Para quem só ouvia coisas negativas, ruins, sofria, é muito bom ouvir coisas boas. Aquilo foi ótimo, um incentivo para mim.

Com a parceira de cena Vanessa Giácomo, em Pega Pega. Foto: Reprodução Instagram

Modelo e Globo

Aí comecei a trabalhar como modelo nessa agência, a Mega Model, trablhei 4 anos, e fiz curso de interpretação. Lá eles nos preparam também para trabalhos de publicidade. E em 2012, teve um booker em Goiânia que convidou alguns alunos da escola de teatro para fazer uma viagem ao Rio. E eu vi uma publicação no Face convidando pessoas que tinham interesse em fazer um worckshop no Projac (hoje Estúdios Globo). Fui selecionada. Na época, não tinha condições de pagar. Eu dizia, mãe, eu preciso ir, porque eu queria conhecer o Projac também. Mas não tinha interesse algum em ser atriz, queria conhecer o Rio. Fiquei tentando conseguir o dinheiro, mas, no final, disse a eles que não iria, porque não tinha grana. Até que todos da família juntaram dinheiro, me apoiaram, e consegui fazer a viagem. Quando vi o Projac, aquele mundo muito longe da minha realidade, porque eu sou do interior.... Eu chorei!. Foi bacana ver aquele mundo atrás das câmeras e nesse momento descobri que queria correr atrás disso. Queria saber mais sobre a profissão, procurei cursos, oficinas.

Cuidado!

Fiz muitos contatos no Rio com agências, agentes. Mas era tudo muito novo para mim. Tinha que tomar cuidado, porque, infelizmente, tem muitas pessoas que usam do nosso sonho para ganhar dinheiro. O que já aconteceu algumas coisas comigo quando era modelo. Sofri vários golpes. Então, a gente tem que ter esse cuidado. Infelizmente, as pessoas são más. Graças a Deus, Deus colocou pessoas muito boas na minha vida. Eu agradeço todos os dias por todas as oportunidades e todas as pessoas que apareceram na minha vida. Fiz várias amizades. Aí retornei para Pirenópolis.

Pirenópolis para o Rio

Mas logo eu decidi vir para o Rio, com a cara e a coragem. Deixei tudo lá na minha cidade. Quando vim a primeira vez, conheci o Douglas Rodrigues, que também é ator. E nós dois decidimos nos mudar para o Rio para tentar a carreira. E foi engraçado, fizemos amizade logo de cara hoje o considero o meu melhor amigo. Ele me ajudou muito, me incentivou. E nós viemos em busca desse sonho. E fizemos alguns cursos. E eu comecei a trabalhar na recepção do Theatro NET Rio, em Copacabana. Eu trabalhava lá também para conseguir ganhar alguns cursos que o próprio teatro dava. O João Fonseca (diretor) deu curso lá e eu sempre pedia para participar. Porque a grana era curta... Como eu conheci muitas pessoas boas, consegui várias bolsas. E fazendo amizade com pessoas do meio, um ajuda o outro. E as coisas foram acontecendo, comecei a fazer campanhas de publicidade, Ipanema, Itau, entre outras. Trabalhos bacanas que abriram outras portas. E me cadastrei na Globo, em 2014. Logo eu conheci a Dany Fonseca, minha agente, e ela me levou para alguns testes. O primeiro foi para Sexo e as Negras. E foi muito legal, porque mesmo que a gente não passe, é uma oportunidade grande. Porque é muito difícil ser chamado para um teste na Globo, demorei muito para conseguir. Acho que fiz uns quatro, e só de ter feito alguns, me senti vitoriosa. Sair lá do interior de Goiás, ver toda a minha história, tudo o que já passei, é demais para a minha cabeça. Às vezes, acho que eu estou sonhando e não acordei.

Foto: Andrea Rocha

Pega Pega

Quando fui chamada para fazer Pega Pega, eu havia mandado o meu material para o produtor de elenco, em dezembro de 2016. Quando foi janeiro de 2017, ele me ligou, disse que eu havia passado para fazer a Nina, uma policial, mas ele não tinha ainda muitos detalhes. Ele me disse que seria só dentro da delegacia com os personagens, mas não tinha história. Mesmo assim, eu fiquei super feliz, emocionada, mas não contei para ninguém, só para a minha mãe, porque eles só iam confirmar em março. Quando eu assinei o contrato contei para toda a minha família, ficaram super felizes.

Espaço ator negro

O que mais me deixou mais feliz, porque, infelizmente, não só hoje, desde sempre, é muito complicado para nós, que somos negros... Ainda existe um padrão de personagem. Mas acho que hoje o leque está se abrindo, as oportunidades estão crescendo cada vez mais. Ainda existe, sim essa questão de estereotipar, mas acho que isso está mudando. Hoje posso citar a Érika Januza que está na novela das 9 fazendo uma juíza. E quando fui chamada, não querendo falar que outras profissões não são respeitadas, mas quando me falaram que era uma policial, eu fiquei muito feliz. Porque, infelizmente, algumas pessoas dizem, ah, vai ser a empregada. Mas, para nós que somos negros, é muito importante ter outras oportunidades. Mostrar que nós somos capazes de fazer outros personagens também, não só estereotipados. E começar como uma policial, adorei... Nos 20 primeiros capítulos, eu não tinha fala, entrava muda e saia calada. No começo, isso me deu uma tristeza. Mas agradeci a Deus, só de estar ali com pessoas maravilhosas, que estão há muito tempo nesse meio. E as coisas foram acontecendo, aos poucos, a personagem foi ganhando vida. No final, eu descobri que ela era vilã. Então, foi muito bom, uma reviravolta gigante para a persoonagem, para mim. Sou muito grata a todos os outros atores que trabalharam comigo. A Vanessa Giácomo, o Marcos Veras, são pessoas maravilhosas. Eles me ajudaram muito. Hoje sou amiga da Vanessa, ela torceu muito junto comigo, conversava comigo. Era o meu primeiro papel, dava frio na barriga. E ela me deixava sempre à vontade.

Sonhos para a carreira

Como está tudo começando, aos poucos, eu espero, como é uma carreira muito dificil, poder continuar fazendo esse trabalho. Infelizmente, as oportunidades são poucas, e eu quero dar continuidade a esse trabalho que eu comecei. Eu não quero que as portas se fechem, pelo contrário, quero que elas se abram cada vez mais e mais. E que as oportunidades aconteçam. Porque em uma fase quando acaba um trabalho, principalmente no meu caso, que estou começando agora, dá aquele frio na barriga. E agora? Será que vou continuar a trabalhar nessa profissão, será que as portas vão se abrir? Eu conheci vários atores que não conseguiram dar sequência na carreira. Eu quero muito poder continuar, porque eu me apaixonei por esse trabalho. E hoje eu não me vejo fazendo outra coisa, a não ser atuar.

 



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