Ana Cecília Costa: “Missade agora vai dar um basta na relação”

Com atuação potente em Órfãos da Terra, atriz avalia dores da personagem síria


  • 11 de junho de 2019
Foto: Globo/Raquel Cunha


Por Redação

Quem acompanha a sofrida trajetória da refugiada síria Missade, mãe de Laila (Julia Dalavia), em Órfãos da Terra, se emociona com a potência em cena de Ana Cecília Costa. Baiana, bacharel em cinema, com inúmeros trabalhos no teatro, a atriz de 48 anos faz o público sentir as dores junto com a personagem. “Outro dia gravei uma cena que disseram que precisaria fazer de novo, porque o meu coração disparou tanto que falava mais alto que a voz (no som do microfone)”, lembra.

E se alguém pensa que o sofrimento de Missade irá diminuir, se engana. No capítulo desta quinta, dia 13, a síria fica sabendo através de Helena (Carol Castro),  amante de seu marido, Elias (Marco Ricco), que ela espera um filho dele. “Nessa hora ela dá um basta... “, revela Ana Cecília, que entre outros trabalhos na TV, fez Cordel Encantado, Joia Rara e Rock Story. No teatro, até pouco tempo ela deu vida à santa Teresa d’Ávila, no espetáculo A Língua aos Pedaços.

Missade (Ana Cecília Costa). Foto: Globo/Paulo Belote

A Missade é uma personagem que sofre baque atrás de baque... A descoberta da traição foi um grande abalo na vida dela? Sim, mais uma história de dor, e dor de amor. Essa mulher de fato é forte, ela vê o sentido da vida muito vinculado à família. Tem a perda do filho logo no começo da novela. Ela tem um tom trágico, que está acima do drama. Depois vem para esse país reconstruir a vida, com essa marca da tragédia. Na Síria ela tinha o restaurante, uma vida social, e aqui ela perde isso. E o sentido da família se aprofunda mais ainda. Quando o Elias passa a se interessar por uma outra mulher, e é um casamento sólido, ela ama profundamente esse marido, então vem uma dor dilacerante. Quem ama sabe o que é ser traído, não se sentir desejado.

Você acredita que ela vai lutar por esse amor do Elias? Até o momento o que sei é que quando ela descobre a gravidez da Helena, é a hora que ela dá um basta. O amor e o orgulho próprio falam mais alto. Ela diz ‘não, agora estou sendo muito desrespeitada, vou cuidar da minha vida’. Se a partir disso há uma volta, ou se foi uma crise de casal, ou se esse casamento vai virar uma grande amizade, ou se ela vai se apaixonar pelo Padre, isso não sei... Mas o fato é que chega um momento que essa mulher se posiciona. A partir de agora respeito é bom, eu gosto.

Acha que a Missade perdoaria a traição em nome da família? Eu realmente não sei. Nesse momento quando ela descobre a gravidez, isso para ela é uma ruptura. Mas logo adiante tem um momento em que o Elias se fragiliza, é acusado de algo, e ela diz: ‘Eu conheço o Elias, o caráter dele’. Ela vai defendê-lo de uma situação X em que ele é acusado injustamente. Então, não sei se vai virar uma relação de amizade, porque a ferida foi muito funda. Agora eu acredito que esse casal pode ter um retorno.

Helena (Carol Castro), Elias (Marco Ricca) e Missade (Ana Cecília Costa). Foto: Globo/João Miguel Júnior

E um envolvimento dela com o Padre Zoran (Angelo Coimbra), acha possível? Não sei como vai ser isso. Até o momento eu construo a personagem em cima do texto que recebo. E o que foi feito até agora é uma mulher realmente devota à família, apaixonada por aquele marido. Em relação ao Padre acho que ela é uma personagem que tem intimidade com poucas pessoas. Quando ela chega no Brasil, no Centro de Refugiados, na primeira madrugada, o Padre chega e ela diz: ‘Desculpe, estou aqui fazendo um café’. E já ali ela sente, pelo fato de ele ser Padre e ela ser uma mulher de certa maneira religiosa, uma confiança em conversar com ele. E vai se estabelecendo essa cumplicidade. Obviamente se essa mulher está num momento carente, a figura desse homem cuidadoso e protetor vai mexer com ela, mas não sei se vai ter um relacionamento.

Como é para você gravar assim tantas cenas densas? É difícil. Sou uma atriz em que o próprio texto me move. Apesar de toda a preparação, quando chega no momento de fazer, sou entregue. Se o texto diz que o coração do seu marido está com outra mulher, fala isso de maneira visceral. Aquilo rasga uma mulher, então é um momento muito dolorido da Missade. Para mim a perda do filho e depois a crise no casamento foram cenas bem fortes. Outras coisas vão acontecer, ela é perseguida, tem essa marca que representa o refugiado que não se adapta ao país. São tragédias que muitos de nós cairíamos prostrados mesmo. Mas eu acredito que essa personagem vai ressurgir cada vez com mais força e vai encontrar um caminho belíssimo.

Ela estava ali lutando por aquele amor, e chega a Helena. Você acha que existe isso de uma pessoa destruir o relacionamento da outra? Eu acho que a paixão é uma loucura. Elias e Helena se apaixonam, e isso na vida de qualquer um é uma tormenta. Todos os três lados do triângulo sofrem. Helena é surpreendida por uma paixão. Elias para mim é o ponto mais vulnerável porque fica entre essas duas mulheres, e a Missade fica absolutamente devastada. Obviamente cada um tem uma atitude diante disso sobretudo dentro da nossa cultura machista, onde as mulheres tendem a engolir suas paixões em nome de um casamento e normalmente os homens não, eles vivenciam aquilo. O fato é que vai ser uma experiência dolorosa para os três.

Missade (Ana Cecília Costa). Foto: Globo/Paulo Belote

Você é uma atriz muito entregue, como trabalha o seu corpo? Vejo o ator como um mensageiro, em que você se coloca a serviço de uma história, de um personagem. O instrumento do ator é o corpo, a voz e a emoção. Sou uma pessoa criteriosa no estudo, acho que é importante não ser apenas emocional, como essa coisa da voz, foi uma coisa que trabalhei muito. Mas no momento em que estou em cena, eu me deixo emocionar pelo texto, pelo olhar do outro. Isso na televisão, às vezes, é difícil, exige um treino de concentração. No teatro é mais fácil porque tem um espaço mais ritualístico de silêncio. Mas é isso, você deve se deixar levar pela emoção. E no caso da Missade, estou evocando muitas mulheres que morreram nessa guerra, que perderam seus filhos, sofreram…

A sua personagem tem uma personalidade muito forte, e você parece mais calma. Há algo que se identifique com ela? Tenho uma personalidade forte também quando necessário. Não acho que eu seja uma pessoa de cara agressiva, mas tenho personalidade forte.

O que você falaria para você mesma lá atrás quando escolheu essa profissão? No meu caso foi uma escolha vinda de dentro, ouvindo muito essa voz do coração, porque a minha família absolutamente não compreendeu isso na época. Mas não tenho a menor mágoa disso, tenho compreensão porque é difícil, era muito jovem, comecei a fazer teatro com 14 anos. Mas tinha certeza que eu queria fazer. Isso desmoronou todas as perspectivas que meus pais tinham para mim. Ao mesmo tempo você sente quando a coisa irrompe uma vocação. Todo mundo nasce para alguma coisa, e ela vem com força, e você passa por muitas dificuldades. Mas aquela árvore floresce, então quando olho para essa menina, eu me vejo muito próxima do que sonhei para a minha vida, vivendo uma vida muito próxima.

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