Alice Milagres: Talento e atitude além do sobrenome

Revelação de Malhação lembra batalha até vaga e diz como a mãe, Gorete, a inspira


  • 02 de abril de 2018
Foto: Sergio Baia


Por Luciana Marques

Malhação: Vidas Brasileiras mal começou e já nas primeiras críticas, o nome de Alice Milagres é elogiado por sua atuação como a personagem Maria Alice. Filha da também atriz Gorete Milagres, alçada ao sucesso nos anos 90 como a doméstica Filó, do bordão Ô Coitado!, a jovem diverte-se que só há um ano viu imagens suas ainda criança e percebeu o quanto já era comunicativa e espontânea.

Apesar de dedicar-se ao teatro desde os 7 anos, somente quando se mudou para o Rio para cursar Arquitetura é que percebeu que só seria feliz na carreira artística. Resultado, trocou a faculdade pela de Comunicação, e foi fazer cursos, entre eles o Tablado. E até conquistar o papel de Maria Alice, foram quatro anos de testes para a trama teen. “Mas eu acho que foi no momento certo”, ressalta.

Veja a entrevista também em vídeo, abaixo, e vire fã desta mineirinha que já se destaca em seu primeiro trabalho na TV.

"A minha mãe sempre falava quando eu era pequena: 'Se a gente nunca tentar, a gente nunca poderá saber como poderia ter sido. Então, sempre é válido estar tentando e em movimento' Talvez isso seja Alice por Alice..."

Maria Alice (Alice Milagres). Foto: Globo/Raquel Cunha

Você sempre foi assim falante, divertida?

Eu era uma criança muito comunicativa. Mas não sabia até o ano passado. Porque a minha mãe gravava tudo, era “mãe clique”, tudo ela filmava. E ela passou agora para DVD e colocou no youtube privado da família. E eu comecei a me ver quando criança. E eu era muito engraçada. Tem vídeos tipo amigo oculto em que eu falava: 'a minha amiga acabou de colocar silicone, mas não quis fazer lipo na barriga'... Sabe aquela criança que sai falando as coisas? Eu era muito assim. E quando tinha evento no Natal, no aniversário da minha avó... Porque minha família é muito grande, somos mineiros, são 27 primos de primeiro grau, 14 de segundo, tenho 14 tios. Minha mãe dizia que eu pegava um primo e falava, vamos fazer teatro. E a mãe viu que eu tinha meio que um talento para isso e me colocou no balé. Fiz dos três aos 15 anos. E comecei no teatro com 7 anos. Então, eu sempre fui comunicativa, isso sempre foi muito natural.

E quando eventualmente você viu que queria seguir a carreira artística?

Estudava numa escola muito tradicional, que exigia bastante para o vestibular. E inventei que queria fazer arquitetura, enquanto todos queriam medicina, direito. Foquei nisso. E quando coloco algo na cabeça vou até o fim. Passei na Ufrj para arquitetura. Quando cheguei no Rio, não sabia onde era o Fundão. E para quem não sabe, é muito longe do centro. Você tem que pegar um ônibus 485, que provavelmente tem umas 60 pessoas para um lugar que cabem três. Então, foi terrível. Acho que esse foi um dos pontos que eu pensei, gente, eu preciso fazer alguma coisa que eu goste, preciso ser feliz! Não quero arquitetura. E nesse tempo eu nunca deixei de lado o teatro. Aí minha mãe veio para o Rio. E perguntou, Alice, você não quer fazer artes cênicas? Eu disse, quero, mas, ao mesmo tempo, eu tenho que transferir essa nota do Enem para Comunicação. Hoje em dia eu faço Comunicação Social na Ufrj, vou me formar agora. Então, sempre soube que queria seguir para o meio artístico. Mas pensei, agora preciso fazer algo para me desenvolver profissionalmente, conseguir direcionar essa minha vontade.

Alice com a mãe, Gorete, e a irmã, Maria. Foto: Reprodução Instagram

"Descobri há dois anos que era muito engraçada quando criança. Tem vídeos tipo amigo oculto na família em que eu falava: 'a minha amiga acabou de colocar silicone, mas não quis fazer lipo na barriga'. Sabe aquela criança que sai falando as coisas? Eu era assim!"

E como foi essa sua batalha até conseguir uma oportunidade em Malhação?

Quando me mudei para o Rio, a minha mãe falava. 'Alice, você passou para arquitetura, vai morar sozinha, vai para o teatro, fazer CAL, Tablado, cursos...' E cheguei no Rio com esta intenção. Morar sozinha é complicado, sair da 'abinha' da mãe, a gente passa por várias coisas. Morei primeiro num quarto em Botafogo, dividi um apartamento com minha prima, depois com uma amiga. Depois fui morar sozinha. E foi muito importante, acho que amadureci, cresci muito. E, depois de um ano, fiz um cadastro na Globo. Sempre era chamada para teste. Fiquei quatro anos tentando, nossa, um milhão de testes. Mas Malhação foi meu quarto ano tentando. E acho que aconteceu no momento certo. Nesses últimos anos me dediquei muito ao teatro, mais do que toda a minha vida. E foi importante estar sozinha nesse tempo para me conhecer mais e poder passar por tudo isso que eu passei até chegar aqui.

Qual foi a sua reação com a notícia de que havia passado para o papel de Maria Alice?

Foi muito louco! Ano passado, eu estava estagiando na Globosat. Foi importante para mim, mas não estava 100% feliz lá. E um dia antes do teste para Malhação estava trabalhando no Rock in Rio e eu fui furtada. Perdi meu celular, não tinha como voltar para casa, só chorava. No outro dia, a minha mãe pediu um Uber para mim de São Paulo para eu fazer o teste. Sabe, tipo, o caos... Mas eu fiz o primeiro e soube que passei para segundo. E os testes de Malhação para essa temporada foram dois workshops durante duas semanas. Acho que foi o segundo ano que eu vi que poderia conseguir um papel. Percebia que outras pessoas não apareciam mais nos outros dias, que só eu estava sendo testada para a Maria Alice. E foi tudo muito à flor da pele. E uma semana depois soube que tinha passado. Liguei primeiro para a minha mãe, ela estava rezando, começou a chorar. E depois para a minha irmã, e ela é muito na dela. Quando ela começou a chorar, pensei, meu Deus, passei em Malhação. O que eu faço? E fiquei muito feliz, era uma confirmação que eu estava precisando para saber que era por esse caminho que eu tinha que ir. Foram anos tentando, acho que foi um alívio e uma felicidade.

"Eu era pequena quando a Filó começou a bombar, mas tenho noção porque a nossa vida começou a mudar. A mãe batalhou muito para chegar onde chegou, é a 14ª filha, foi garçonete, secretária, e começou a estudar artes cênicas com 27 anos. Ela fez por onde!"

Você e a Maria Alice se parecem em algo?

A Maria Alice é muito independente e é forte também, porque ela cresceu longe da mãe. Por mais que a minha mãe, a mãe da Alice Milagres seja 100% presente, também tenho uma independência. Eu tive que ter, porque a minha mãe trabalhava bastante, porque eu mudei de cidade. Então, acho que a gente tem isso em comum, essa independência, de saber se virar, se jogar, ir atrás do que quer, ela é muito decidida. Ela veio do interior e quis ficar no Rio, e ficou. Acho que temos isso em comum.

Alice Milagres. Foto: Globo/Raquel Cunha

O que mais admira na sua mãe, Gorete Milagres?

Nossa, minha mãe é muito generosa. Às vezes eu penso, como pode alguém ser tão generoso? Ela é maravilhosa, amo muito ela. Mas eu acho que essa é uma das coisas que eu mais admiro, está sempre pensando no outro, de coração aberto para todo o mundo. E como profissional me inspira muito. Ela veio de uma família muito grande do interior. E começou a estudar teatro com 27 anos, ela meio que se encontrou nessa idade, trabalhou antes como garçonete, secretária de dentista. Minha família não é rica, ela é a 14ª filha. Então, eu acho que ela batalhou muito para chegar onde chegou. Ela fez Artes Cênicas na UFMG. E ela fez por onde! E é muito louco, porque eu era pequena quando a Filó começou a bombar. Tenho uma certa noção, porque a minha vida mudou muito. A gente morava em Belo Horizonte, aí a gente mudou para uma casa em São Paulo, eu comecei a ganhar muitos brinquedos (risos). Rolou isso, eu lembro. Mas quando eu penso no sucesso da Filó, eu lembro também do ibope e a minha mãe dava 36 pontos. É muita coisa. Ela entrava na casa das pessoas de uma maneira que todo o mundo queria assistir, então, admiro muito o trabalho dela. E de ela ter levado essa empregada doméstica para a casa de todo mundo. Acredito que as pessoas se sentiam bem representadas, apesar de a Filó ser bem caricata.

"Acho que eu e a Maria Alice temos em comum essa independência, de saber se virar, de se jogar, ir atrás do que quer. Ela é muito decidida."

Você tem um lado também de humor, acha que pode ir para esse lado?

Todo o mundo me pergunta isso. Fui descobrir que eu sou engraçada há pouco tempo. Mas eu acho que é o meu jeito, não é nada que eu leve para o humor. A Maria Alice não é nada do humor, a história dela é bem heavy metal. Mas eu acredito que é uma coisa mais espôntanea mesmo, natural Não é nada assim, ah, ela é uma comediante, nada disso. Mas eu amo, já fiz várias aulas de clown. E acho muito legal.

E quais os seus sonhos na carreira?

Tenho muita vontade de fazer um filme, uma série, uma novela das 9, das 11, várias peças, ficar em cartaz, fazer turnê. Mas o maior sonho de todos é estar traballhando, estar em movimento sempre.

Alice por Alice, como se definiria?

A minha mãe sempre falava uma frase quando eu era pequena que ficou na minha cabeça. 'Se a gente nunca tentar, a gente nunca poderá saber como poderia ter sido. Então, sempre é válido estar tentando e em movimento' Talvez isso seja Alice x Alice...



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