Alice Milagres e o trauma da personagem: “Dor interna, trava”

Atriz de Malhação cita importância do feminismo para dar voz às vítimas de abuso


  • 24 de agosto de 2018
Foto: Arthur Germano


Por Luciana Marques

Desde os primeiros capítulos de Malhação: Vidas Brasileiras, Alice Milagres já ganhava elogios pelo seu trabalho. Na hora, todos perceberam que o papel de Maria Alice, a menina do interior forte, independente, porém contida, que chegava na capital para viver com a mãe na casa dos patrões, tinhar que ser mesmo dela.

E nessa nova fase da personagem, Alice Milagres tem tudo para mostrar ainda mais o seu talento. É que finalmente todos saberão o motivo de Maria Alice não conseguir ter uma intimidade maior com o namorado, Alex (Daniel Rangel). A atriz diz que logo o público entenderá tudo sobre o trauma da jovem. E tudo começa quando ela volta a sua cidade natal, Barreirinhas, após a perda de um tio. “Ela sofreu um abuso, isso é certo. Mas há vários tipos, de diferentes formas, físico, psicológico”, alerta.

Alice Milagres conta também que o seu contato com o feminismo lhe deu a real noção do quanto, infelizmente, é grande o número de mulheres abusadas no país. “É importante dar voz a essas pessoas”, reitera. Na entrevista, Alice também fala, claro, do casal que amamos, #Marilex.

Maria Alice (Alice Milagres). Foto: Globo/Victor Pollak

Maria Alice e Alex estão em uma nova fase na trama. Conta um pouco pra gente sobre este momento...

Eles voltaram agora após um desentendimento. Mas a questão do do 'toque' permanece no relacionamento dos dois. Eles ainda não conseguiram ter uma primeira vez, a Maria Alice fica apreensiva, meio travada em relação a isso. Mas, mesmo assim, o Alex é um menino de ouro, ele é a coisa mais fofa do mundo e está lá junto com ela para superar essa fase, para entender cada vez mais o que aconteceu com a Maria Alice.

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E é notório que existe um amor verdadeiro entre eles, né?

Existe, com certeza. Ele tinha uma relação com a Pérola (Rayssa Bratillieri), que era algo muito carnal, tinha muito fogo. Com a Maria Alice tem um sentimento mais intenso, eles são muito amigos, parceiros, é um outro tipo de relação.

Os fãs cobram um relacionamento mais quente?

Não! As pessoas ficam muito curiosas em saber o que aconteceu com a Maria Alice, o que motiva ela ser assim. Mas agora que a Pérola tem o Márcio (André Luiz Frambach), as coisas ficaram mais tranquilas para a Maria Alice em relação aos fãs que gostavam o 'Perolex'.

O que aconteceu com a Maria Alice?

Eu fiquei sabendo há pouco o que aconteceu com ela... Quando a gente começou a preparação era uma coisa, e nas primeiras semanas de gravação mudou, em julho a Natália (Grimberg – diretora) falou mais ou menos o que ia ser, mas eu recebi há pouco tempo. O que eu posso dizer por enquanto é que uma morte vai levar a Maria Alice ao passado, e veremos o que vai  acontecer.

Maria Alice (Alice Milagres) e Alex (Daniel Rangel). Foto: Globo/Estevam Avellar

E o que você imagina que seja?

Com certeza, ela sofreu um abuso. Porque existem vários abusos, de diferentes formas. Tem o físico, o psicológico... A Maria Alice tem um trauma. Várias meninas me mandam mensagens, apostam num abuso, mas qual o tipo de abuso, não sabemos. Mas houve algo para gerar esse trauma, é inevitável, é uma consequência do que aconteceu com ela.

Há semelhanças suas com a personagem?

Não temos nada a ver. Mas, ao mesmo tempo, eu me identifico muito com essa força da Maria Alice, ela é uma menina muito forte, e uma menina muito interna, ela não é muito para fora, também me identifico com isso. E ela é muito independente, e eu também sempre fui. Ela foi criada longe da mãe, a minha mãe sempre foi muito mãezona, presente, mas eu criei essa independência, e eu me vejo um pouco nela nisso também, uma menina meio autosuficiente.

Nas rede sociais, você recebe feedback de pessoas que relatam essas semelhanças com você ou com a personagem?

Sim. Eu recebo muito feedback de meninas que se acham parecidas comigo por causa do cabelo. Fico super feliz! E muitas meninas que contam histórias terríveis, que dizem que se identificam com a Maria Alice porque eu sou assim, sou meio travada, eu tenho um namorado que não entendia muito, eu não consigo me abrir sobre isso... Eu recebo diversos relatos.

Foto: Arthur Germano

Como você se preparou tecnicamene e psicologicamente para o desafio de viver essa personagem em especial, a Maria Alice, que tem esse trama?

Trabalhei muito o toque em relação à outros personagens. Como ela relacionava com o cara que gostava, com a melhor amiga. A gente conseguiu traçar essas nuances, com essas temperaturas. Como eu não sabia muito bem o que iria rolar na história, eu acho que fui me soltando mais e deixando ela mais normal, mas muito uma menina do interior na cidade grande. Quando eu soube que a historia iria mudar, fui para um outro caminho. Agora que sei a história, acho que fechou um quebra-cabeça. Eu conversei com algumas meninas que sofreram abuso, uma até um pouco próxima, e ela me relatou como foi para ela. E é interessante ouvir esses relatos, você acha que é muito choro, muito fora. E não, é uma dor interna que você carrega, e você fica travada e não consegue falar por anos. Então, a gente vai entendendo um pouco desses sentimentos através dos relatos.

Você tinha consciência de que tanta gente já foi abusada?

Eu tive essa noção quando eu entrei em contato com o feminismo. Faz um tempo que o feminismo se tornou um assunto em voga. E as pessoas estão falando mais sobre o que elas passaram. Acho muito importante para dar voz a essas pessoas. Porque muitas meninas sofrem abuso e não tem ideia, ou se sentem reprimidas. Então, acho que tive uma noção já, que infelizmente é uma realidade. É um papel importante para ajudar a identificarem um abuso e saber o que é o abuso, que não é só chegar às vias de fato.

Você e a Guta Stresser, que vive a sua mãe na trama, tem uma ótima química no ar. Como é a relação de vocês nos bastidores?

Eu e a Guta nos tornamos grandes amigas. Estamos super juntas nessa. Eu chamo ela de 'mãezinha' dentro e fora do set. A Guta traz muita essência da Maria Alice, dessa pessoa simples e batalhadora que dá a volta por cima. A Rosália representa muito as mulheres do Brasil e ela está fazendo esse trabalho muito bem. Minha troca com ela é muito sincera. Ela me mostrou uma foto dela na infância outro e dia e vi que temos traços bem parecidos.

Foto: Arthur Germano

Como tem sido vivenciar isso tudo hoje, essa exposição que Malhação traz e, consequentemente, o reconhecimento do seu trabalho?

É muito trabalho! Acho que as pessoas não tem muito noção disso, porque é uma profissão muito glamourizada. E a gente está aqui das 9h às 21h todos os dias. É muito trabalho, de verdade, você estar todo o tempo se doando para a personage, encontrar outros caminhos, traçar temperaturas. Mas eu estou amando, muito realizada. E ver o reconhecimento, me deixa muito feliz, a gente vê que todo o esforço vale à pena. Principalmente quando alguém assiste ao seu trabalho, se identifica, gosta.

Sua mãe, Gorete Milagres (atriz), está curtindo o seu desempenho?

Ela está muito feliz, é fã de Malhação. Às vezes, ela sabe até mais que eu. Está super curtindo, orgulhosa e ansiosa com a história da Maria Alice.

Por sua mãe ser desse meio, você sente que já chegou mais preparada, com o pé no chão?

Eu tive um outro entendimento dessa profissão através da minha mãe. Você vê que são altos e baixos como qualquer outra profissão, que é um mercado de trabalho instável como qualquer outro. Então, eu acho que esse entendimento da profissão é diferente, porque a gente acaba vivendo um pouco na prática junto com a minha mãe.



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