Adriana Birolli fala de Fina Estampa: “Patrícia não era mocinha água com açúcar, mas uma heroína”

Atriz festeja sucesso de reprise e cobra ações do governo para profissionais da cultura na quarentena


  • 23 de abril de 2020
Foto: Divulgação


Em 2009, o Brasil amou odiar a vilã Isabel, de Viver a Vida, que marcava a estreia de Adriana Birolli com um papel fixo na Globo. O trabalho lhe rendeu prêmios como o de Atriz Revelação no Melhores do Ano do Faustão. Dois anos depois, ela voltou a ter grande visibilidade no horário nobre, como a Patrícia, filha de Tereza Cristina (Christiane Torloni) e Renê (Dalton Vigh), e namorada de Antenor (Caio Castro), em Fina Estampa. “Não era a mocinha água com açúcar, era uma heroína”, avaliou ela.

A trama de Aguinaldo Silva está sendo exibida atualmente em edição especial na Globo por conta suspensão das gravações de novelas nos estúdios da emissora, desde o início da pandemia da Covid-19. E o sucesso tem sido estrondoso, chegando a dar mais audiência do que a inédita Amor de Mãe. “A novela é solar no ar e era solar nas gravações. Todo o mundo adorava estar participando, a gente se divertia muito”, contou Adriana, em live no nosso Instagram, nesta quarta, 22.

Cria do teatro, a atriz também falou sobre esse momento complexo da quarentena e cobrou ações do governo em prol dos profissionais da cultura.

Quarentena - "É um momento de pensar no próximo, de se colocar na situação do outro, a gente está sendo obrigado a fazer isso. E eu acho que está sendo muito bacana no macro também. Eu estou vendo muitas iniciativas de solidariedade, acho que esse é o caminho para o novo mundo. Não é à toa que isso acontece de uma maneira global tão rapidamente, de uma maneira tão avassaladora. Se a gente não sair dessa quarentena pensando em mundo, enxergando o quanto a gente tem que melhorar como ser humano, como habitante desse planeta, uns com os outros. Essa coisa de fronteira, nacionalidade, disputas, isso não leva ninguém a lugar algum. A gente tem que pensar numa nação da terra, não do seu país. Nesse breve tempo que a gente está parado, há uma recuperação incrível da natureza. Pra mim. o caminho é esse, da solidariedade, do amor ao próximo, de enxergar tudo como um todo."

Reprise de Fina Estampa - "Eu só tinha assistido uma cena ou outra depois que a novela acabou, mas não o trabalho inteiro. É muito diferente, porque quando a gente está trabalhando, a gente assiste a novela para ver como está, você vai se estudando, vai construindo a história junto com o autor, o diretor e toda a equipe. Agora, você assistir oito anos depois é muito gostoso. Primeiro, eu não posso fazer nada, já está tudo gravado, gostou, gostou, não gostou, chora, come chocolate, aceita que dói menos. Mas está sendo maravilhoso."

Patrícia (Adriana Birolli). Foto: Globo/João Cotta

O que significou essa novela na sua carreira? "Ela é muito especial para mim, porque ela é muito solar. Apesar de ter o filho que rejeita a mãe, a mãe que larga o filho bebê com o pai, são verdadeiras tragédias. Só que nessa novela, apesar de a gente tocar nesses assuntos, falando do Antenor e da Griselda, é bacana como é colocado, por mais que ele seja muito abrupto, ruim com a mãe dele quando ele fala aquelas coisas, passou uma semana e meia, ela ganhou na loteria, colocou um vestido e se maquiou. Então vai mostrando todos os lados. O que ele pediu não era nada tão grave, o jeito como ele pediu, a mágoa dela, a suposta ingratidão, o fato dele ser muito mais ambicioso do que o resto da família...  Mas não dá só para falar, ah, ele está errado, são questões da vida. E por mais tragédias que sejam, tem muito choro também, ela é solar. Ela deixa a gente pra cima. E eu acho que nesse momento está sendo incrível você ver uma novela assim. Você vê no Jornal Nacional tudo o que está acontecendo, mas depois você dá uma boa relaxada. O elenco é maravilhoso. E isso faz uma diferença enorme, poder trocar experiências com essas pessoas com todo o talento que elas têm, só engrandece o trabalho. Trocar com gente que ensina, isso dá um up sensacional no nosso trabalho."

Patrícia - "Essa personagem tem uma força incrível, ela é muito guerreira. Ela passa por uma coisa muito difícil, que é ser completamente enganada. Ela podia entender isso da mãe dela, a Tereza Cristina ser tão preconceituosa. Mas não é a mãe, é a mãe e todas as histórias que foram inventadas a partir disso. Uma infância que não existiu, uma babá, tanta gente que não existe. E isso acontece na vida real também, a gente é enganado, a gente confia nas pessoas, acaba caindo em golpe ou se decepcionando. Depois tem toda uma volta por cima. A Patrícia está passando por uma negativa e um amadurecimento, achando que ela pode tirar isso do coração dela, como se a vida fosse assim. Ela está muito mais agressiva nesse momento, apesar de estar na faculdade, está num momento muito adolescente, de porrada da vida. De tomar um susto e começar a responder a tudo e a todos. Acho que daqui a pouco a gente começa a entrar numa fase um pouco mais diferente."

Cenas marcantes - "Teve muitas. Uma já passou... Depois de uma briga horrorosa com a Tereza Cristina, é uma cena de mãe e filha que as duas se reconciliam brevemente, porque é muito família isso. A gente perde a cabeça, estoura, fala e aí depois passa um tempo e está tudo bem. Você vai ouvir o conselho de quem estava xingando você um pouco antes e vai trocar. Ela foi ao ar na semana passada. E tem outra cena que é spoiler também, mas como a novela já passou eu vou falar. Tem uma cena que a Tereza Cristina me serve um rato de café da manhã. Uma referência a Baby Jane... Primeiro, eu fiquei muito feliz ao gravar uma referência a este filme incrível, só o Aguinaldo Silva para escrever essa cena. Ele apronta, né? Eu amo o Aguinaldo Silva. Tudo bem, é um rato de mentira, mas é uma coisa nojenta num prato servido pra você (risos). A gente se divertia muito. As gravações eram muito gostosas. O bastidor era uma delícia, super alto astral, todo o mundo feliz de fazer a novela, os personagens arrasando. As roupas da Patrícia eram vendidas nas lojas, foi uma coisa muito forte na época. É impressionante o quanto a gente vê o trabalho da gente influenciando, né? Eu lembro que o figurino da Patrícia era feito todo a mão, todo com sobreposições, era todo artesanal."

Patrícia (Adriana Birolli) e Antenor (Caio Castro). Foto: Globo/João Miguel Junior

Química do casal Patrícia e Antenor - "O que tem de homenagem ao casal no youtube, eu recebo vídeos, é uma loucura. Os fãs são muito maravilhosos, eles fazem cada montagem. Eu amo, eu vejo tudo."

Heroína em Fina Estampa após vilã premiada em Viver a Vida - "Foi muito especial. Eu fiz uma participação em Beleza Pura em 2008, se não me engano. Era a Vivi, uma emo, ela chegou a namorar o personagem do Paulinho Vilhena, era para ficar uma semana, acabei ficando um mês na novela. Mas Viver a Vida foi a minha primeira novela completa. E foi muito legal, porque no teatro eu sempre tive muita dificuldade de ser a sarcástica, de trabalhar com cinismo. Então eu passei muitos anos trabalhando isso. E aí a minha primeira personagem na televisão era uma personagem sarcástica, algo que eu vinha há anos afinando. Se tivesse acontecido cinco, seis anos antes, eu não teria feito a Isabel do jeito que ela foi. Ela era maravilhosa. E era a voz do público também, tudo o que o público pensava, a Isabel falava. E eu tive uma oportunidade muito rara, eu posso dizer, analisando as coisas na TV, porque a minha primeira personagem ser a vilãzinha, que todos diziam que era, e depois pegar a Patrícia. A Paty ela não era a mocinha, era uma heroína, ela não era realmente uma água com açúcar. Dois personagens completamente diferentes, e isso pra mim foi sensacional."

Quase 20 peças na carreira - "São muito anos no teatro. Pra mim o teatro não é só importante, é fundamental. Não vou dizer que não tem casos de atores que são brilhantes na televisão e nunca fizeram teatro. Uma coisa não depende da outra. Mas eu acho que quem quer trabalhar com atuação, pra mim é fundamental começar pelo teatro."

Futuro da cultura após quarentena - "Teatro é milenar, não começou ontem, não vai deixar de existir. Mas o panorama é muito complicado. Eu tenho sim me comunicado com muita gente do teatro, a gente tem um grupo que se chama Liga Teatral que, enfim, são produtores de teatro que se reuniram para saber sobre o mercado. Isso já tem uns dois, três anos, e a gente conversa muito sobre tudo o que vem acontecendo. Tá todo o mundo com peça parada, sem entender como vai ser essa volta. Eu vou ser bem honesta, eu tô pensando que essa volta vai ser em outubro, algo por aí. Então são muitos meses. A gente está tentando fazer o máximo de campanha que a gente consegue de arrecadação para ajudar funcionários de teatro, todo o mundo que está parado e que não tem condições. A verdade é que a classe artística, apesar de a gente ter aí 1%, 2% que tem dinheiro, que tem uma boa colocação, um lugar ao sol bacana, a gente está falando de 98% de pessoas que trabalham hoje para comer amanhã. A verdade verdadeira da classe artística é essa, que nem jogador de futebol, quem ganha fortuna é 1%. Não sei se algo vai acontecer, a gente está esperando alguém se pronunciar pela cultura, mas até agora nada foi dito. São milhares de pessoas que trabalham com isso. A nossa vida já estava sendo dificultada antes do coronavírus, cada vez mais com proibições, uma censura bizarra. E até agora, nesse momento, nada foi dito. E olha o que estamos consumindo de cultura nesse momento da quarentena, quantas pessoas estão vendo séries, filmes, shows, lendo livros... E quantas pessoas trabalham por trás disso tudo?"

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