William Vita: “Para muitos, não é interessante que o povo pense”

Diretor e ator da peça Martinho, ele diz que a classe enfrenta crise por amor à arte


  • 29 de junho de 2018
Foto: Reprodução Instagram


Por Luciana Marques

*Entrevista também disponível em vídeo, ao fim do texto.

Com quase 30 anos de experiência na vida artística, o ator e diretor William Vita é daqueles apaixonados pela profissão. Fundador da Academia Vita de Atores – com sedes na Barra, Copacabana e Campo Grande, no Rio –, mesmo com toda a crise que a cultura passa em nosso país, ele traz para sempre consigo dicas de mestres do teatro como Maria Clara Machado e Augusto Boal.

“Respeito muito cada palavra que me disseram. Principalmente, amor, a gente tem que amar... Tem crise? Tem! Mas uma coisa você pode ter certeza, a gente pode não ter o apoio de ninguém, nem um palco, nada. Mas a gente vai para o meio da rua e faz teatro lá, porque o teatro está dentro de nós”, ressalta ele, do elenco da série O Mecanismo, e que tem entre os últimos trabalhos A Força do Querer e Os Dez Mandamentos.

Com essa paixão toda, mesmo com o mercado difícil, o que não falta é trabalho para Vita. Atualmente, seu principal projeto é a peça musicada Martinho da Vila 8.0 – Uma Filosofia de Vida, a qual dirige e também atua, ao lado de nomes como Babi Xavier, Nill Marcondes e Junior Vieira, em cartaz até 15 de julho no Teatro Clara Nunes, Rio.

Após a montagem, além de atuar na nova trama global das 9 O Sétimo Guardião, ele dirige três séries Mistérios da Fazenda, Reflexo e Youtubers. No teatro, prepara uma nova peça com Luciano Szafir e outra com Babi Xavier, além de outras duas infantis. “Brinco que só falta eu ficar rico, mas acho que não vou ter tempo para isso”, diverte-se.

Com o elenco da peça Martinho da Vila 8.0. Foto: Divulgação

Como foi o processo de criação da peça?

Primeiro, você contar a vida de uma pessoa que vai estar sentada na plateia, assistindo, já dá um medinho. É meio que, não posso errar. Mas essa pessoa, um tal de Martinho da Vila, é uma pessoa do bem demais, que nos abraçou, veio até nós. Isso foi de uma grande importância. Como a gente tinha pouco tempo para estrear, mais do que reunir atores, eu reuni amigos. E esse foi um ponto chave. Eu fui buscando parceiros para a gente subir no palco e se sentir feliz. Fora a produção, a Ana, a Solange e o Legey, que escreveram o texto. A gente foi criando isso em um mês e 10 dias, e criar um espetáculo desta magnitude, foi um desafio grande. E as pessoas abraçaram. Eu me senti muito feliz no dia da estreia, vendo que tudo o que a gente armou nesses 40 dias, deu tudo certo. Os deuses do teatro vieram...

Não é uma peça só autobiográfica, foca também muito na história dele como ativista negro e também autor, não é isso?

Martinho da vila, eu era fã das músicas, do cantor. E me causou surpresa quando comecei a ler a biografia dele, você vê que ele tem inúmeros livros. A peça foca desde quando ele tinha 10 anos... Você pega um garoto na década de 30, 40, iletrado, não havia escola para todo o mundo. Agora você imagina, filho de lavadeira, pobre, morando longe de uma grande cidade, e hoje receber o título de Honoris causa. Para contar isso, primeiro eu fiquei assustado... Você pensa que uma pessoa para ter esse título, teria estudado na melhores escolas do mundo, e não. Deve-se muito ao pai dele, que fez questão de dar as aulas em casa, enquanto não havia vaga em escola. Aí entra a professora Ida, que conseguiu uma vaga. Mais do que isso, uma grande vontade de um garoto Martinho querendo fazer alguma coisa. E entra um personagem, Marcos Pereira, o primeiro empresário dele, e diz, você tem talento, vamos largar a carreira no exército e viver exclusivamente da música. E o Martinho não queria. Até que o Marcos disse, eu banco tudo, porque o Martinho precisava desse dinheiro para sustentar a mãe, os irmãos. A partir dali, uma estrela já estava pronta para brilhar. Aí foi uma música atrás da outra, desde Aprendizes da Boca do Mato, o primeiro samba que ele ganhou em uma escola. Na verdade, ele não ganhou, os que estava concorrendo com ele acharam tão fantástico o samba, que retiraram os seus. E aí foi. E eu falo para todo o meu elenco também que a grande marca dele é o sorrisão. Hoje, ele tem todos os motivos para rir, mas se você acompanhar a história dele... Mais do que ser um grande músico, ele sempre teve uma vontade grande de viver.

Foto: Reprodução Instagram

Você tem uma escola de atores, dirige várias peças, faz TV, filme... Como tem driblado esse crise toda na cultura, afinal o show tem que continuar, né?

A verdade é que no meu país a cultura é sobremesa, se tiver, você come, se não tiver, não faz falta. Os governos tratam a cultura dessa forma, e não é de agora. Todos os artistas são dados como os intelectuais de uma nação, de uma forma ou de outra, mas são. O que nós artistas nos propomos a fazer é a única coisa que a gente sabe, viver no palco, trabalhar em frente às câmeras ou atrás. A crise está aí desde quando a gente nasceu... Mas é muito complicado para o país fazer o povo pensar, porque aí perde-se voto, o povo começa a indagar demais, e isso é prejudicial para quem vai para o congresso ou outro lugar que sabe que tem que fazer do povo massa de manobra. Mas nós atores, lutamos, nós, artistas como um todo, estou falando da música, da dança, das artes plásticas, a gente luta porque a gente ama muito. E vocês não têm noção quando eu falo o que é amar a arte. E viva Constantin Stanislavski, nós devemos amar a arte em você, e não você na arte.

Martinho da Vila 8.0 – Uma Filosofia de Vida. Até 15/07. Teatro Clara Nunes – Shopping da Gávea. Rua Marquês de São Vicente, 52, 3º piso. Sextas, e sáb., às 21h. Dom., às 20h. De R$ 80,00 a R$ 100,00. Duração: 90min. Classificação: Livre.



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