Nill Marcondes: "Fazer Martinho no teatro foi presente do universo”

Modelo de sucesso nos anos 90, ele vê ainda como raros os bons papeis para negros na TV


  • 11 de junho de 2018
Foto: Divulgação


Por Luciana Marques

*Entrevista também disponível em vídeo, abaixo.

Nill Marcondes brinca que, apesar da semelhança com Martinho da Vila, por causa do seu tipo “homão”, do universo fitness, muita gente duvidou que ele pudesse interpretar o cantor e compositor na peça Martinho da Vila 8.0 – Uma Filosofia de Vida.

Mas como o próprio ator explica, ele “desacelerou”, e focou de dentro para fora, no estilo de vida, no caráter e em como pensa Martinho. “Aí notei que ele é muito amor. Ele agradece a vida por tudo, é alegria o tempo inteiro, super prestativo, não tem vaidade”, conta Nill, que tem como parceria de cena Babi Xavier, que dá vida à Cleo Ferreira, esposa do cantor.

E o que se vê no palco do Teatro Clara Nunes, no Rio, onde o espetáculo está em cartaz, é uma semelhança incrível, que assustou até mesmo o próprio Martinho.

Na entrevista ao Portal ArteBlitz, Nill celebra essa grande oportunidade nos palcos, relembra o sucesso como top model dos anos 90, em que figurou entre os 10 mais requisitados, e manda um recado aos autores de novela.

O ator em cena como Martinho no musical em cartaz no Rio. Foto: Cristina Granato

O que mais tem instigado você ao fazer a peça?

Martinho da Vila! O William Vita (diretor) me ligou e disse, estou com um espetáculo do Martinho da Vila e eu quero você para fazer o Martinho. Eu não perguntei mais nada, de dinheiro, de hospedagem, de nada... Eu só falei, estou dentro, porque o Martinho sempre foi uma representação da comunidade negra, dentro do samba. E eu achava que ele tinha três ou quatro livros, depois descobri que ele tem 15, então, agora, eu também considero ele um gênio. Uma pessoa muito inteligente. E o nosso espetáculo conta porque ele chegou nesse ponto.

Queria saber como foi a sua preparação, ouvi você comentar que precisou “desacelerar”. Explica um pouco isso...

De um tempo para cá, devido a experiência de vida, a gente desacelera naturalmente. Mas sou uma pessoa ansiosa, falo rápido, ando rápido, e ainda sou do mundo fitness. Então, todo o mundo me acha muito grande, muito forte, e algumas pessoas diziam, você até parece o Martinho, mas será que você vai conseguir fazer? O primeiro passo foi falar com mais calma, tranquilidade... Aí quando encontrei o Martinho, comecei a estudar um pouco mais ele. Sei que o William me convidou pela minha experiência profissional e também pelo 'physique du rôle', por eu parecer com ele. Mas não é só você parecer com o personagem que vai te levar a um bom trabalho. Mas, sim, você entender. Ao mesmo tempo que é ótimo, também é perigoso, porque este personagem está aqui, ele existe, estava na minha frente na estreia. Então, busquei mais o estilo de vida do Martinho, o caráter, como pensa, aí notei que ele é muito amor. Ele agradece a vida por tudo, é alegria o tempo inteiro, super prestativo, não tem vaidade. Eu acredito que este trabalho, de dentro para fora, traz mais a cara dele, do que de fora para dentro, de buscar só trejeitos. Claro que coloquei algumas coisas, combinei com o Junior Vieira, que me entrega o personagem, um ator bacana, novo, um talento aí pra gente, de fazer alguns gestuais, que todos quando assistirem vão notar.

O ator com Martinho, Junior Vieira e Victor Hugo, que também interpretam o cantor. Foto: Cristina Granato

O Martinho assistiu a estreia. O que ele falou para você?

Ele assistiu, veio falar com todos nós, um por um. Ele disse que adorou o espetáculo. Claro que em teatro, a gente vai acertando umas coisas ou outras. Ele comentou do Victor Hugo, que faz ele criança, do Junior Vieira e de mim. Ele disse que se assustou desde que viu a foto, porque me achou muito parecido com ele. Mas eu acredito, tenho certeza, que nós já fomos abençoados por ele aqui neste palco.

O espetáculo é uma peça musicada, tem muita diferença do musical?

Completamente, porque o musical, eu já fiz dois, Blue Jeans e Hair. No musical, a gente tem um maestro, um preparador vocal, a gente trabalha com piano, tem dias para trabalhar com piano, dança, e dia para trabalhar com texto. O nosso, basicamente, ele é só texto. É uma peça de teatro. Nós contamos um pouco dessa história no telão e cantamos algumas músicas. A gente cantava até um pouco menos e talvez a gente vá até aumentar um pouco mais. Então, é um espetáculo musicado, não um musical.

O ator na academia. Foto: Reprodução Instagram

Você iniciou a carreira em Xica da Silva, em 1996. Como avalia sua caminhada, desde então?

Não é fácil! Mas avalio a minha carreira como de muito sucesso. Sou muito feliz nela porque venho da dança, de Goiânia, depois fui para São Paulo, trabalhei como top model na década de 90, fui um dos 10 homens que mais trabalharam, fiz outdoor, capa de caderno, tudo o que podia, muitos comerciais. E tive essa chance com o Walter Avancini em Xica da Silva. Ele realmente me aprovou e falou: ' Você tem algo que é muito bacana, você tem verdade, faz com honestidade e vontade'. E eu disse, claro, eu tenho que abraçar essas oportunidades, porque é minha vida. E de lá para cá, só ganhei bons personagens, boas oportunidades. Claro, de um tempo para cá, algumas coisas a gente evita fazer, alguns personagens menores, porque acho que tem outros atores que estão vindo... Porque rotulam você demais a fazer a mesma coisa. Eu sempre fui rotulado a fazer bandido e polícia. E aí comecei a mudar um pouco isso, inclusive quando fui fazer Blue Jeans com o Wolf Maya, foi uma grande surpresa para todos, porque ele falava que a minha draq queen era a melhor. Então, todo o mundo se assusta, porque faço esse tipo do homão, bandidão. No filme Colegas, com o Marcelo Galvão, faço um gay, e fui muito elogiado. Agora, estou indicado no Festival de Pernambuco a ator coadjuvante pelo filme Christabel, em que faço um sanfoneiro repentista, completamente diferente de tudo o que já viram eu fazer. Acho que é isso, daqui para diante na minha carreira, espero oportunidades mais interessantes do que o básico, o básico a gente já faz. E fazer o Martinho no teatro é uma das melhores coisas que ganhei na minha vida nesses 25 anos de carreira. Foi um presente do universo, com certeza.

Com Babi Xavier, sua parceira de cena na peça. Foto: Cristina Granato

Falando em representatividade do ator negro. A gente está vendo aí o Fabricio Boliveira quase protagonista na novelas das 9, Taís Araújo e Lázaro Ramos estrelando seriado, novela... Você acha que melhorou ou ainda falta espaço para atores negros?

Eu não vejo uma melhora. Porque o Lázaro e a Taís são um caso à parte, eles conquistaram um espaço e ponto. Agora, e os outros atores? Ouvi o João Emanuel Carneiro, autor de Segundo Sol, falar que não temos atores negros. Temos mais de 30, 40 homens conceituados, com tempo de carreira, e mulheres também. Então, talvez seja falta de pesquisa ou ficam sempre nas mesmas pessoas. Tem uma aparência de que se melhorou. O personagem do Fabricio Boliveira, porque ele tem que ser filho da empregada? Sempre tem que ir por esse caminho. Aí brinco com alguns amigos meus atores, falo que hoje muita gente recusa fazer bandido, e os bandidos agora são brancos. Mas os presidentes de empresas não são negros. Então, não teve uma troca, não estou vendo equilíbrio. Por mais que tenha ficado na Record um tempo, também saí porque não tive oportunidade de fazer bons personagens. Então, acho que não melhorou. Eles colocam um ou outro para dar uma equilibrada, é só olhar as capas de revista, comerciais. Mas como você faz uma novela, um filme, que tem 40 personagens e coloca cinco pessoas negras, e não coloca japonês, índio, nordestino, então, não é só com o negro, é com a raça humana. Infelizmente!

Fale um pouco de seus outros projetos...

Dizem, ah, você não está na TV, o que está fazendo? Eu sou dublador, dublo milhões de coisas que estão na Netflix, acabei de dirigir um videoclipe do Rappin Hood, que estreia em breve. Tem também os filmes Christabel, que vai estar no Festival de Pernambuco, e o Alcunha, que sai este ano. Também faço uma participação em Carcereiros e estou dirigindo dois curtas.

Martinho da Vila 8.0 – Uma Filosofia de Vida. Até 15/07. Teatro Clara Nunes – Shopping da Gávea. Rua Marquês de São Vicente, 52, 3º piso. Sextas, e sáb., às 21h. Dom., às 20h. De R$ 80,00 a R$ 100,00. Duração: 90min. Classificação: Livre.



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