Maha Sati: “Adoro ficção, mas hoje estou tirando um nó da garganta”

No solo Héka, atriz faz panorama dos castigos físicos exercidos no corpo da mulheres


  • 17 de abril de 2019
Foto: Pierre Pompanon


Por Luciana Marques

Criadora do solo Héka – Manifesto do Corpo, em que também atua, a atriz paulista Maha Sati, de 29 anos, expôe no palco um panorama histórico dos castigos físicos exercidos no corpo feminino. “Conto um caso pessoal e convido o público a reflexão dessa ‘normose’ que fomos criados, passando de geração em geração a lição de uma certa prevalência do homem”, explica ela, em cartaz às quartas e quintas, as 20h, no Teatro Casa Rio, até o dia 25 de abril, em Botafogo.

A inspiração para a montagem veio de Hekate, a Deusa da encruzilhada, um dos devires femininos. “Cheguei até ela em uma meditação profunda”, conta. Para a atriz, ativista não só da causa das mulheres, como das minorias, é neste momento “obscuro”, de “demonização” dos artistas, a hora de fazer a diferença. “Adoro fazer personagens também, mas os solos estão com essa característica de ser uma voz social”, ressalta a atriz, que viveu a Marinalva, na novela Orgulho e Paixão, em 2018.

Héka é o segundo trabalho do núcleo Arte Quântica, inaugurado por Maha junto com a artista e antropóloga italiana radicada no Brasil, Fabiana Eramo. Antes foi apresentado o solo Baleia – manifesto aquático.

Foto: Carol Bispo

O mais tem mais instigado você ao atuar em Héka?

Contribuir com a luta feminista, tornar cênico uma parte da elaboração de uma causa que me atravessa desde cedo. Vejo no feminismo plural a semelhança com a preservação ambiental, com os movimentos de autoconhecimento por todo o mundo, meditação, projetos que desejam a liberdade. É um tempo novo, e no complexo dos pares, falar de novidade. Trata-se de honestidade, calma e poder em visitar o longínquo. Héka é a deusa raiz.

 

 

Quem é Hekate, e de que forma ela inspirou você na criação deste solo?

Hékate é uma força! Uma Deusa cultuada na época matrilinear; até hoje essa força existe e persiste ao tempo. Com a inquisição da caça às bruxas, muitas deidades tiveram destruídas suas imagens. No melhor dos casos, algumas sobreviveram e se tornaram, por exemplo, obras de arte... Tiveram seus ‘signos’ subtraídos Afrodite, ‘A sexual ’, Perséfone’, A Rebelde Punk’. Porém Hékate foi a mais apagada, a imposição do Deus Pai, esse projeto econômico sócio-religioso. Se valeu pela demonização de qualquer outro Deus. O mesmo ocorreu no Brasil com as práticas religiosas indígenas. A base é a disseminação do ódio, o preconceito e unilateralidade do protestantismo. Hékate é a Deusa de três cabeças que está em uma encruzilhada, a mãe dos caminhos. A perseguição a este arquétipo foi enorme. O patriarcado anula qualquer feminino selvagem. O feminino poderoso como a noite escura, a hora do brilho lunar. Isto assusta o macho colonizante. 

Qual a principal mensagem que você deseja passar com o espetáculo?

Da naturalização e respeito ao corpo feminino. É extremamente pesado o que o estado impõe nesse corpo, uma expectativa e uma especulação histórica. Em quando e porque esse corpo pari, esse corpo é estuprado, esse corpo é tirado sua vida com o dobro de casos comparado aos atos de homicídio cometido em homens. Existe uma divergência biológica e não deveria. Precisamos superar de uma vez por todas Eva, ou o que esse mito implica, de uma mulher que é castigada e excluída do ‘paraíso’, ou seja de uma conformidade e conforto anestésico. Por ter comido a maçã da árvore do saber. Essa mulher que sabe onde quer ir, que aceita a aventura de criar sua narrativa própria, do entrar em entendimento, pensamento e instinto com a vida. Minha intenção é ajudar a desculpar esse corpo. É contribuir com a liberdade humana. Existe uma paranoia sexual e política que me causa muito entusiasmo em transpor.

Foto: Carol Bispo

O que é o núcleo Arte Quântica?

O núcleo surgiu com o solo Baleia-manifesto aquático, um manifesto contra a poluição marítima em analogia com o feminicídio. Considero inaugurado o coletivo quando conheci a Fabiana Eramo, antropóloga e bailarina italiana, radicada no Brasil. Nos conhecemos em um retiro espiritual, ali chamei ela para dirigir o meu primeiro trabalho. E deu certo. O ArteQuântica é um norte que criei para mim mesma, uma pesquisa artística em convergir a experiência holística e a cênica, transformação social, manifestos que se espelham em uma busca circular e experimental.

Os seus trabalhos têm sempre um foco social forte, a questão do feminismo. É uma opção sua seguir nessa linha, tentar transformar através da arte?

A posição é bem clara em meus trabalhos. Estou do lado da multiplicidade. O feminismo é o início de tudo para mim, pois ele está em todas as lutas sociais por igualdade. Seja de classe ou gênero. Pode ser que um dia realize um trabalho mais ficcional, com uma pegada leve política, mas neste momento não vejo outra saída. Estamos em um abismo, somos fortes, mas é preciso não perder o que já ganhamos, o genocídio precisa parar, proteção às mulheres rurais e indígenas é uma pauta urgente, o desenvolvimento de políticas justas salarias e ampliar as narrativas. O mundo muda rápido e a natureza não pode mais ser estuprada. As mulheres representam essa terra fértil e a pobreza é resultado do binarismo. Quando vemos as desvantagens da separação e da possessão social, entendemos que feminismo é a revolução da consciência.

Ser ator no Brasil já é difícil, e fazer um teatro mais social, mais crítico, mais cabeça, deve ser ainda mais complicado... Como você consegue estar sempre produzindo, porque não deve ser fácil, né?

Eu me sinto uma privilegiada em poder fazer o que gosto e falar o que quero em um país onde cada vez mais falar o que pensa é estar ameaçado. Não é fácil, mas acho que nada está fácil mesmo. Adoro fazer personagens também, mas os solos estão com essa característica de ser uma voz. Uma voz social. Um apelo de consciência. Um manifesto artístico contemporâneo. Adoro o presente. Sou uma devota do presente. O tempo que vivemos é impressionantemente potente. Em breve posso voltar a fazer ficção, mas nesse momento estou tirando o nó da garganta, para depois, quem sabe, voltar a falar as palavras dos outros.

Como você vê este atual momento em que os artistas estão sendo “demonizados”, a cultura sem investimento do poder público... Como seguir diante disso?

Como eu respondi acima, para dominar, para o selo de um império fálico, você tem que demonizar o que é selvagem, livre e feminino. A arte é um substantivo feminino, não à toa, dela nascem novos status-quo. A arte é a criadora de subjetividade. Ela age diretamente em uma sociedade, esse descaso do governo é uma nova caça às bruxas. Somos como pedras. Resistimos. O amor vence o totalitarismo. A arte é inquebrável. É a força dos deuses. Por isso está sendo sucateada, demonizada e perseguida. É um gesto originário e pagão ser artista atualmente. Estamos remanescendo e fortalecendo.

 

 



Veja Também