Kiara Sasso, expoente de musicais: “Glamuroso, mas a obra que conta”

Estrela de Isaura Garcia avalia sólida carreira e lembra de fase tímida e carente na infância


  • 09 de outubro de 2018
Foto: E3 Fotografia


Por Luciana Marques

* A entrevista também está disponível em vídeo, abaixo.

Quem vê hoje Kiara Sasso protagonista dos maiores musicais já apresentados no país, nem imagina que na infância, a estrela, filha única, era muito tímida, superprotegida e carente, apesar de bastante amada. “Brinco que eu tinha toda a receita pra ser insuportável, aquele tipo de pessoa que não tem nem amigos”, lembra a atriz de 39 anos, também do elenco de As Aventuras de Poliana.

Mas o espírito independente de todo o aquariano, por outro lado, a fazia querer aparecer, se enquadrar em grupo de amigos. Até que aos 8 anos começou a trabalhar em comerciais e na TV, quando vivia no Estados Unidos. E a paixão pelo gênero musical surgiu quando ela assistiu à montagem de O Fantasma da Ópera, em Los Angeles. “Aquilo me marcou absurdamente. Mas nunca, nunca na minha vida imaginaria estar num palco, muito menos como protagonista de um musical”, diz.

Entre os grandes clássicos já estrelados pela atriz em montagens no Brasil, A Bela e a Fera, Mamma Mia, A Noviça Rebelde, O Fantasma da Ópera, A Pequena Sereia. Atualmente, Kiara, que comanda ao lado do marido e também ator, Lázaro Menezes, a produtora O Alto Mar Produções, está no elenco de Isaura Garcia – O Musical, em que divide o papel-título com Rosamaria Murtinho e Soraya Ravenle. O espetáculo, que tem também Lázaro no elenco, está em cartaz no Teatro Oi Casa Grande, no Rio.

Em cena no musical Isaura Garcia. Foto: Felipe Panfili/Divulgação

O que mais instigou você a participar do musical?

Nesse espetáculo foi a história da Isaurinha mesmo, ela foi uma mulher realmente impressionante, muito desbravadora, muito corajosa. E é sempre bom dar voz a uma personagem ou, principalmente, a uma pessoa, uma figura histórica, que realmente existiu e teve tanta força. Hoje em dia que se fala tanto do empoderamento feminino, né? É muito bacana poder contar uma história de uma mulher assim.

Rosamaria Murtinho, aos 82 anos, brilha no musical Isaura Garcia

Saiba mais sobre Victoria Aguillera, do espetáculo Pippin

Quando você começou a pesquisar sobre a vida de Isaura, houve algo que mais chamou a sua atenção?

O que mais me impressionou sobre ela é quase uma coisa que eu não sei se é boa ou ruim, mas é a falta da noção de consequência. Ela é muito inconsequente, era uma mulher que falava o que pensava, dizia o que ela sentia. Ela era extremamente ousada para aquela época. A falta de consequência dela era uma coisa que eu acho muito impressionante, muito bacana, muito legal essa espontaneidade, quase de sincericídios que ela comete. E é muito divertido fazer em cena.

Você já está há alguns anos fazendo sucesso pelos palcos, vê algo dela em você?

Eu vejo muita coisa dela em mim. Só que eu acho assim, essa liberdade toda que ela conseguiu ter desde muito nova, eu demorei mais tempo na minha vida pra ter. De ter a coragem de me expressar, de muitas vezes dizer não para uma coisa ou, às vezes dizer sim. Acho que isso pra mim demorou um pouco mais de tempo, eu fico impressionada que ela já tinha isso desde muito nova.

 

 

Desde criança, você se sobressaia, sua família já via que ali nascia uma estrelinha?

Olha, Kiara criança era muito tímida. Sou filha única de filha única, superprotegida e muito amada, é tudo em demasia. Brinco que tinha toda receita pra ser insuportável. Mas eu sou aquariana, então sempre tive um espírito muito independente. Ao mesmo tempo que tinha essa timidez grande, tinha vontade de ter amigos, essa carência excessiva, portanto, querer aparecer, me enquadrar, me encaixar em grupos. Eu sempre me mudei muito com essa história da minha mãe ser comissária, morei fora, ia e voltava. Mas como comecei a trabalhar cedo, desde os 8 anos, a buscar uma coisa diferente na minha vida, na época era quase que uma diversão, não levava a sério. Fui levar à sério muito mais tarde, mas sempre gostei de me sentir diferente, especial. A filha única, aquela menina abandonada, coitada, carente… Então, tem a ver com o que a vida acabou me levando. Porque eu acho que a gente não escolhe essa carreira, é ela que escolhe a gente.

Em cena com o marido, o ator Lázaro Menezes, também no elenco do musical. Foto: Felipe Panfili/Divulgação

Desde nova o gênero musical já a encantava?

Eu morava fora, e quando tinha 11 anos minha mãe me levou pra assistir à montagem de O Fantasma da Ópera em Los Angeles. E aquilo me marcou absurdamente, e comecei a fazer aulas de canto, e aí acabei descobrindo que eu tinha alguma voz. Mas nunca imaginava que algum dia eu ia estar num palco de um musical, ainda mais fazendo protagonista. E foi algo que aconteceu do nada também. Estava no Rio de férias, tinha 14 anos, e acabei conhecendo o pessoal de um grupo de teatro. Uma menina ia sair do elenco, fiz um teste e passei. Acabei trabalhando com eles, comecei a fazer musicais menores no Rio, fiz aula com a Vera Maria do Canto e Mello. E com 17 anos, teve o teste para o musical Os Fantásticos, um off-Broadway, e quem tinha comprado os direitos era Charles Möeller e Cláudio Botelho. Passei no teste, e o Cláudio era o meu par romântico, o Charles era figurinista e cenógrafo, eles nem dirigiam ainda. E as coisas foram acontecendo. Hoje em dia isso é engraçado porque tem fãs, jovens, tanto do teatro musical, como agora da novela que falam: 'Eu quero muito ser artista, como é que faz?' Eu fico meio que numa sinuca se bico pra responder, porque é uma coisa que meio que acontece com a gente, né?

Mas você hoje tem a noção do tamanho do seu papel nos musicais do Brasil?

Eu tenho! A vida me levou pra esse lado e eu tive uma sorte, uma honra de poder protagonizar muitos musicais importantes que vieram, tanto franqueados de fora, quanto montados aqui. Aquela coisa de estar no lugar certo na hora certa, e com material necessário, com o talento que estavam procurando. Então, é um conjunto de coisas. Quando a gente faz um teste e passa é porque a gente tem o tipo físico, a idade aparente, tem aquela nota que precisa cantar, essa adequação de interpretação, enfim… Eu sei que eu fui bastante desbravadora nesse meio, os musicais vieram com muita força exatamente numa época que eu estava aqui. Então, eu sei a responsabilidade que eu tenho nos ombros.

Em cena de Isaura Garcia. Foto: Felipe Panfili/Divulgação

Que conselho você daria aos jovens que sonham em fazer carreira no teatro musical?

Eu acho que todo grande talento é uma pedra que tem que ser lapidada. Tem pessoas que são autodidatas, eu não fui uma delas, a gente precisa fazer cursos, aulas com pessoas competentes, que realmente saibam o que estão fazendo, saibam te ensinar, extrair de você o que você tem de melhor. Algumas pessoas vão ter mais talento pra dança, umas para o canto, outras vão ter o dom natural da interpretação, e terão que lapidar mais um ou outro lado. Então, é muito importante a formação, correr atrás. A gente faz parte de uma carreira que não adianta muito você ter um diploma, não é aquilo que vai dizer se você serve para esse personagem aqui. Eu preciso saber o que você vai mostrar para mim agora, talvez até uma pessoa que já teve grandes feitos, mas o que você tem pra me dar agora? Porque é isso o que importa. Eu, por exemplo, fiz muitos cursos, mas acho que onde eu mais aprendi na verdade foi no trabalho. Às vezes, em trabalhos que não eram nem tão incríveis.

É a questão da bagagem, de experiência, né?

Sim, absolutamente tudo nessa vida é experiência. Há pessoas que já acham que vão começar a carreira num grande musical, e a realidade muitas vezes não é essa. Inclusive, às vezes, é bom você começar pequeno, pra quando for dada a você uma grande oportunidade, você saber realmente pegar ela e fazer do limão uma super caipirinha. Então, as pessoas têm que correr atrás, não ter medo do não, porque a gente vai ouvir muitos nãos, e a gente vai pensar em desistir, falo por experiência própria. A gente tem que ter muita perseverança e saber que é uma carreira muito difícil, é muito glamurosa, mas não se atém a isso. Porque em primeiro lugar nem é isso que importa, eu acho que a frase chave, o que conta, é a obra.

Tem algum novo projeto que já possa falar?

Esse ano nós temos algumas novidades mas a gente ainda não pode contar. Mas para o ano que vem estamos preparando uma versão musical do romance A Casa das Sete Mulheres, da Letícia Wierzchowski, que foi um grande sucesso não só na literatura, mas na televisão. E agora vai virar um musical, então as gurias vão para o palco, e é um grande desafio por conta do estrondoso sucesso que foi. A expectativa está muito alta. Se Deus quiser, no segundo semestre do ano que vem estaremos estreando em Porto Alegre e depois em São Paulo, uma super, hiper, megaprodução. Já os nossos espetáculos que a gente criou anteriormente podem sempre voltar, como o Silhuetas, O Palhaço e a Bailarina... É só ficar ligado!



Veja Também