Ícaro Silva, em Ícaro and The Black Stars: “Realização da minha vida”

Sucesso também em Verão 90, ele torce por Ticiano e Dandara, “afetividade preta”


  • 07 de maio de 2019
Foto: Reginaldo Teixeira / CS Eventos Divulgação


Por Luciana Marques

Aos 32 anos, Ícaro Silva é o nosso showman brasileiro. Com mais de 20 anos de carreira, ele vem trilhando um caminho bonito nas artes, com muita batalha e atitude. Entre trabalhos de destaque, ele conquistou a todos com a performance, em 2014, como o protagonista de Simbora, o Musical – A História de Wilson Simonal. Em 2017, “lacrou” em sua participação no Show dos Famosos. Quem não lembra da homenagem à Beyoncé?

Agora, ele está pela terceira vez em cartaz, no Teatro Carlos Gomes, no Rio, até 26 de maio, com o sucesso Ícaro and The Black Stars, em que conta a história da música negra. No palco, ao lado de Cássia Raquel e Hananza, ele representa nomes como James Brow, Bob Marley e Tim Maia, mesclando com fases da própria trajetória. “Esse espetáculo é a realização da minha vida”, garante. Na TV, o ator também se destaca como o Ticiano, ícone da lambada, em Verão 90.

Como está sendo interpretar o Ticiano?

Eu gosto muito de fazer esse personagem. Ao mesmo tempo que explora uma comicidade, que está presente em quase todas as camadas da novela, ele também aparece num lugar novo e diferente da TV. Porque ele é basicamente um galã preto, sem a justificativa da negritude, sem qualquer coisa que procure colocar ele num nicho específico. Ele só é um homem muito legal, interessante, divertido, talentoso e que está apaixonado por essa menina, a Dandara (Dandara Mariana) que, a princípio, não está a fim dele. Eu me divirto muito fazendo e tenho ficado muito feliz também com o feedback do público. Porque a gente tem vibrado uma energia muito solar nessa novela e o país está um pouco indo pelo caminho ao contrário. A gente está muito nas sombras, então é bom poder falar disso e trazer essa energia para o público também.

 

 

O Ticiano vai disputar com Quinzinho (Caio Paduan) o amor da Dandara, né?

Tem que perguntar para as autoras Izabel de Oliveira e Paula Amaral. Eu, particularmente, gosto muito que a gente explore a afetividade preta. Eles são um casal de pretos numa novela. Eu acho muito legal que a gente explore isso, porque eu acho que exploramos ainda pouco. Então se você estiver perguntando para o Ícaro o que ele acha, ele vai dizer que torce para esse casal. Ao mesmo tempo, a Dandara tem uma história com o outro personagem, o Quinzinho, que vem seguindo pela novela. Se essa história tem a força que se espera que ela tenha, eu não sei. Mas aí tem a La Donna (Danni Carlos), também que é uma figura gigantesca, que surge na vida do Ticiano. Eu não vou dar nenhum detalhe não (risos).

Essa “dor de cotovelo” do Ticiano por causa do casamento da Dandara com o Quinzinho, faz ele aprontar algumas contra a dançarina, chama a imprensa... Ele parece adorar essa “glamourização” da profissão, né?

O Ticiano é uma figura muito diferente de mim nesse sentido. Ele compra esse lugar de celebridade, que eu não compro de jeito nenhum, que é essa necessidade de expor, dividir e contar sobre a vida pessoal. Sobre o que é e sobre o que quer na vida pessoal. Ele basicamente joga o jogo das celebridades, e nesse jogo tudo vale. Então um namoro de fachada para ele não é nada. é mais uma jogada para ele continuar em alta. Ele é um artista de mídia, um popstar e  gosta disso. Ele banca e compra esse lugar. Ao mesmo tempo, ele de fato se apaixona pela Dandara. Ele fica atravessado por essa paixão, sim. Mas eu diria que falta maturidade emocional nele para saber lidar com as duas coisas, por isso a gente vai ver algumas confusões rolarem aí.

Ticiano (Ícaro Silva) e Dandara (Dandara Mariana), em Verão 90. Foto: Gshow/Arthur Meninea

Como está sendo a parceria com a Dandara Mariana?

Maravilhosa! Me desculpem todas as outras atrizes da novela, não tem a ver com ser a Dandara, mas é a minha atriz favorita, de fato. E eu não estou falando por causa dos nossos personagens, estou falando pelo trabalho que eu vejo. Ela está numa linha muito tênue porque é uma personagem extremamente sensual, mas ao mesmo tempo é muito digna dentro das suas escolhas. Para ela ficar sexualizada é um passo, e ela não sexualiza porque sabe fazer aquilo de um jeito muito bom e com dignidade. Ela explora o drama todo que há na personagem, essa mulher que quer viver a própria vida do jeito que escolheu. Ao mesmo tempo, explora a comicidade que é parte de toda a novela. Eu amo contracenar com a Dandara, ela é maravilhosa, uma atriz completa e do musical também, canta dança, é bailarina. É uma artista muito boa de jogo. Quando você encontra um parceiro que gosta de jogar dentro do exercício cênico, é a melhor coisa.

O Ticiano já protagonizou cenas de embate com a Mercedes (Totia Meireles) em relação ao preconceito e ao racismo. O personagem também tem a função de falar sobre esses assuntos, certo?

Uma coisa que percebo e que é muito perigosa, principalmente em relação ao público, é que a imprensa escolhe falar desse lugar. Quando sai uma matéria minha, eu posso falar sobre todos os assuntos, mas geralmente a manchete é sobre o racismo. Eu acho que o lugar do Ticiano dentro dessa história é que ele segue brilhando independente de qualquer coisa. A ideologia dele está mais nesse lugar do ‘eu vou ser tão grande, vocês não vão ter como negar’. Acho que ele é um artista mais nesse sentido. Eu transito pelas duas coisas. Mas de uma maneira ou de outra, é chato falar sobre isso para todos nós. A gente fala porque é realmente um tema que temos que organizar. Poder fazer um personagem que trabalha nesse lugar do brilho, que não necessariamente está militando, mas que ao mesmo tempo não deixa de militar porque brilha muito dentro do que é, é um barato.

Como é para você ser inspiração para os jovens negros?

Primeiro tem a ver com o fato de que eu não sei fazer mais nada. Eu não sou bom na cozinha, não sei limpar casa, não sou bom de financias... Eu sou artista mesmo, desde sempre. É onde eu procurei mergulhar. Fui entendendo que a gente está num país em que é preciso ter muito jogo de cintura, porque a gente vive aqui alguns cânceres. A corrupção e a burocracia, eu acho que são as coisas mais difíceis. E quando você vem de uma realidade mais dura e menos privilegiada, você encontra mais burocracia e é mais solapado pela corrupção. As pessoas mais pobres e de menos condições são mais trapaceadas no Brasil. A reforma da previdência agora está deixando isso claro. Mas de uma forma ou de outra, o importante é que nesse momento a gente comece a escutar cada vez mais as vozes que não são escutadas. Então quando você me pergunta sobre o que eu acho de ser uma referência, eu acho que referência é igual um farol, é um: ‘venham por aqui, esse é o caminho’. Enfim...!

Foto: Pedro Pinho

Pela terceira vez você apresenta o sucesso teatral Ícaro and The Black Stars. O que este espetáculo significa pra você?

Eu tenho muito orgulho desse espetáculo porque ele me confirma um lugar que eu acredito, que é muito do artista como autônomo. Na faculdade de teatro eu tive um grande mestre, o André Paes Leme, diretor do Rio e Lisboa. O André me ensinou muito, entre várias coisas, que o artista precisa ser dono do próprio trabalho, do próprio discurso. E a gente vai ‘catando milho’, entendendo um pouco como funciona isso, se dando bem em alguns lugares, se dando mal em outros. Enfim, tendo jogo de cintura e vivendo a vida com os percalços que ela tem. Mas de uma forma ou de outra, é muito bom quando a gente consegue reunir coletivamente um time e fazer um projeto de algo que você acredita muito. Eu acredito muito em Ícaro and The Black Stars. Acredito muito na nossa força afro-latina. E acho que é muito importante trazer isso, principalmente, para o público mais jovem. A galera que fala do ‘mimimi’ reclama muito de um lugar meio estável. E esse lugar do estável, do adulto, do velho, já é meio que passado. Quando eu falo, eu estou falando para os jovens, para as crianças, e para os jovens e crianças que existem dentro das nossas cabeças adultas também. Poder fazer esse projeto, poder falar com essas pessoas, poder falar desse assunto a partir de mim, usando o artista que sou e tudo que sei fazer, é a maior realização de todas. Isso é fato!

Você consegue identificar a faixa etária do seu público?

Eu tenho a alegria de ter público de todas as idades. Eu gosto muito de falar com as crianças e com os jovens, mas é um pouco nesse sentido também da criança e do jovem que existe dentro de cada pessoa. Eu gosto de tocar as pessoas na energia lúdica delas, na energia criativa. O teatro, por exemplo, que é a minha casa, é um lugar onde você explora muito a energia lúdica das pessoas porque você está obrigando elas a imaginarem coisas. Está convencionando com elas que aquela realidade não existe, mas que elas vão acreditar. Então o meu público basicamente são as crianças e as crianças que existem dentro de todos os adultos.

 

 

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