Daniela Fontan: Luta e conquistas na arte da Janete da trama das 9

Em cartaz com A Vida Não É Um Musical, atriz clama por mais dignidade para a classe


  • 03 de maio de 2018
Foto: Globo/João Cotta


Por Luciana Marques

Ao completar 21 anos de carreira, a paraense Daniela Fontan vive um momento especial. Além de interpretar a fofoqueira doméstica Janete de O Outro Lado do Paraíso, ela protagoniza o espetáculo A Vida Não É Um Musical – O Musical, que satiriza o universo dos contos de fadas da Disney e o atual cenário político, em cartaz até 6 de maio, no Espaço Arena do Sesc Copacabana, no Rio.

Sempre muito bem-humorada, ela só muda o semblante quando o assunto é a crise que afeta a cultura no Brasil, e, principalmente, no Rio. “De 2016 para cá, 25 mil pessoas ficaram desempregadas na área. Vi ator entregando apartamento, saindo da cidade, vendendo brownie. Tenho amigo que começou a fazer faxina, um ator incrível. É uma violência com a classe, mas precisamos resistir”, brada ela.

Dani, que teve o primeiro contato com as artes aos 12 anos através do grupo de teatro Risco, tem emendado bons trabalhos. Em 2015, atuou em Além do Tempo; em 2010, em Dalva e Herivelto. E, desde 2009, interpreta a palhaça Azeitona de Oliveira, no Roda Gigante, grupo de palhaços que visita hospitais e casas de saúde.

Janete (Daniela Fontan). Foto: Raquel Cunha

Como foi a reação do público naquela cena em que a fofoqueira da Janete praticamente entregou o passado da Clara (Bianca Bin) para o Renato (Rafael Cardoso) e, a partir daí, ela ficou pobre?

No dia em que foi ao ar a primeira fofoca, eu estava indo de metrô para o ensaio de uma peça e só escutei as pessoas dizendo assim: ‘Cala a sua boca, você fala demais, fica quieta que eu vou tacar fogo na sua língua’. Toda hora eu estava ouvindo essas frases, então pensei: ‘Deve ser comigo, foi ao ar aquela cena...’. As pessoas estão muito inflamadas. E eu pego metrô, pensei que ia apanhar.

Embora a Janete tenha feito uma fofoca, foi ela quem ajudou a Clara no início a entrar na casa da Fabiana e ficar rica…

Mas o Brasil é um país sem memória... As pessoas do metrô não entendem isso (risos). O jornal que saiu essa história já está embrulhando peixe hoje. Mas eu preciso defender a personagem: ela não fez em tom de fofoca. A gente gravou essa cena e ela falou querendo defender a Clara para o Renato, dizendo que ela era uma pessoa maravilhosa, tão maravilhosa que fez isso e aquilo... Ela (Janete) estava querendo elogiar e acabou deixando a Clara sem dinheiro.

Como é que você foi recebida pelo elenco que já estava tão entrosado?

Lindamente! Quando eu cheguei aqui a Bianca (Bin) estava pulando, falando ‘que bom que você veio, seja bem-vinda’. E aí já foi lindo, conheci a Gloria Pires que é minha deusa, minha ídola nesse mundo. Foi ótimo. Fiquei um dia inteiro ensaiando o que ia falar com ela no primeiro encontro. Na hora só consegui dizer, 'oi'. Hoje a gente já fala sobre tudo... E quando fiquei sabendo que ia abrir a porta para a Fernanda Montenegro numa cena, tremi!

Foto: Globo/Estevam Avellar


Na vida, você já fez uma fofoquinha sem querer?

A minha prima já falou que não conta mais nada para mim. Eu sou muito fofoqueira sem querer, eu comento na frente de quem não pode ouvir, estrago surpresas. Então, é melhor não me contar nada mesmo.

Como é estar no horário nobre?

Está sendo especial. Nunca tinha feito uma novela das 21h. A visibilidade é muito maior. Eu já fiz papéis em outras novelas que eram até maiores, mas não tinha esse apelo popular. Na primeira semana, eu fiquei em estado de choque. A gente que é ator tem um contato direto com as pessoas independentemente de estar no ar ou não. Quando você está no ar as pessoas começam a falar da novela e quando você está fazendo teatro ou está desesperado sem emprego, as pessoas pegam na sua mão e falam: ‘Nunca mais vai trabalhar?’. Aquilo vai no fundo, lá dentro da gente. Carreira e ofício são coisas diferentes. Eu não sei se para a minha carreira é mais ou menos importante ter essa visibilidade, mas, para o meu ofício é importante o feedback.

Você sempre é lembrada por interpretar personagens divertidos…

Eu trabalhei muitos anos como palhaça em hospital, no grupo Roda Gigante, aqui no Rio. Como os médicos, a gente tinha horário, sempre às terças e quintas, estávanos lá nas enfermarias. E nesse trabalho eu entendi que se você quer fazer rir, você não pode fazer humor, comédia, você tem que ser sincero. A pessoa que está fazendo comédia é o Walcyr Carrasco. Eu só preciso ler o que está escrito e levar até as últimas consequências quando abrir a boca. Aí o público decide se o que eu estou dizendo é engraçado, mas tem que ser de verdade, honesto. Se a gente consegue fazer isso, o que está escrito salta, aí acontece o humor, porque as pessoas riem da situação, não adianta você ficar fazendo careta, tem umas matemáticas do humor. Então, a palhaçaria me ensinou que quem faz humor é quem escreve. Você só tem que ser de verdade, aí a situação quem vai julgar é o público.

Como você sente que está, na sua vida, o lugar da mulher?

A gente está vivendo um momento muito difícil. A gente perdeu, de uma maneira bizarra, uma representante (Marielle Franco) e junto com essa pessoa morreu um pouquinho de cada uma de nós. É sobre isso que essa morte fala. É sobre uma mulher, nesse país, não poder ocupar um cargo de militância, político, que defende os menores. Eu, como mulher, me senti um pouco assassinada também. Estou precisando refazer a minha esperança e gritar muito na rua para me recolocar e achar que eu posso. Para as mulheres, é o momento de gritar de mãos dadas porque o Brasil está dizendo que a gente não pode. Ela representava todo o mundo, mas tem uma gente burra que não entende isso e está dizendo o contrário, o que é um tiro no próprio pé. Essas pessoas não estão entendendo o que estão fazendo com o nosso país.

Em cena em A Vida Não É Um Musical. Foto: Carol Pires

Você faz muito teatro, como está enfrentando toda essa crise da cultura?

De 2016 para cá, pelo menos 25 mil pessoas ficaram desempregadas na área. Os nossos gestores não priorizam a cultura, inclusive eles tiraram. Teve um fomento em 2016, quando mudou a gestão, e o nosso prefeito se recusou a pagar. E aí você bota pelo menos 10 mil pessooas sem trabalho, porque as produções já tinham começado, você vai investindo. Eu vi ator se mudando, entregando apartamento, saindo da cidade, vendendo brownie. Eu tenho amigo que começou a fazer faxina, um ator incrível. Isso aconteceu com uma maioria esmagadora de atores no Rio, que é a referência que tenho. Porque não cabe todo o mundo dentro da Globo. As produções diminuiram, o cinema afunilou. Disso só saiu uma coisa boa, pessoas peitando e fazendo os seus projetos na raça. Já que eu não tenho dinheiro, vou fazer o que sonho, o que acredito. Então, a gente teve o prazer de ter acessos a trabalhos lindos, porém, foi uma violência grande que os artistas sofreram e continuam sofrendo. Eu tô aqui agora na Globo, mas em maio eu já estou disponível.

Como essa crise afetou você?

Eu fiquei sem trabalho até setembro em 2017. E dá uma indignidade para gente, muito grande. Porque a gente precisa escolher o que a gente vai fazer, dizer, mas quando você não está conseguindo pagar o aluguel, pode ser um negócio ruim, que você aceita. Peguei dinheiro emprestado no banco e, agora, vou ter que trabalhar um ano e meio para pagar. Então, é muita meditação, respiração, oração... A gente tem que ter fé. Eu posso mudar de profissao, mas eu não quero. Quero lutar, porque se eu for mais um, se eu desistir também, eles vão ter vencido. E o mundo vai ficar pior, porque a gente não pode perder mais artista, não. A gente precisa resistir, não ceder.

Mas o bom é que você está brilhando agora não só na TV, mas também no teatro. O que tem mais instigado você ao fazer o musical?

Esse espetáculo é a celebração de 21 anos de carreira. Foi escrito e dirigido por pessoas que fazem parte da minha história desde o primeiro desses 21 anos, então é tudo muito cheio de simbologia. Tem sido um dos momentos mais bonitos que eu já vivi no palco. É a primeira vez que eu sou protagonista. Entrar em cena pra fazer essa peça é uma celebração e também um manifesto. É libertador falar sobre coisas tão graves que o país tem vivido, só que protegidos pelo humor, que nesse trabalho é catarse, que extravasa, tira do eixo e faz pensar. Eu sou uma pessoa de muita sorte!

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