Cléo de Páris surpreende com encenação de Desamparos em live semanal: “A arte é infinita”

Dirigida por Fábio Penna, a performance é feita em casarão no sul com sino de igreja como terceiro sinal


  • 29 de junho de 2020
Foto: Bob Sousa


Por Luciana Marques

Cria do teatro, assim como a maioria dos atores, Cléo de Páris sente muita falta do calor do público durante a encenação de um espetáculo. Mas como uma das palavras do momento é reinvenção, na cultura isso surge de forma efervescente. “Aprendi que podemos nos reinventar sempre e cada vez melhor. A arte é infinita”, diz ela, integrante da Cia. de Teatro Os Satyros. Assim, durante a quarentena no casarão da família na pequena Barão de Cotegipe, com 7 mil habitantes, no Rio Grande do Sul, ela criou, em parceria com o diretor Fábio Penna, o espetáculo Desamparos.

Um híbrido de teatro e cinema, apresentado à luz de velas e abajur, a encenação traz textos da própria Cléo e fragmentos de outros autores. E, segundo a atriz, tem uma natureza bem feminina, mostrando questões como o envelhecimento, a solidão e a busca por amor. As apresentações são as terças-feiras, ao vivo, no Instagram da atriz (@cleodeparis). “Outra novidade é fazer sempre um espetáculo diferente! É algo que nunca realizei no teatro e acho que descobrimos uma possibilidade incrível, que vamos levar aos palcos quando findar essa pandemia”, aposta.

As encenações de Cleo, que também é coordenadora do Programa Kairós de SP Escola de Teatro, ficam disponíveis no IGTV e também no Vimeo da atriz. (https://vimeo.com/user88397140). Fiquem ligados, que nesta terça, 30, das 22h às 22h20, tem performance.

Foto: Divugalção

Como surgiu a ideia de apresentar Desamparos nesse casarão no sul, de forma digital? Ao vir pro sul, peguei uma pilha de textos impressos, denominados Desamparos. Começa com Desamparo I e vai até Desamparo LX ou LXX... Não consegui ainda reunir todos os que restaram pra organizar. É que esses escritos estavam em um blog que alimentei por anos, o Pueril. Acontece que, no início do ano, o Uol deletou muitos blogues e o meu, inclusive. Então resgatei os que tinha em e-mails e imprimi. Trouxe pensando em reler durante a quarentena, talvez fazer alterações e lançar um livro. Uma noite, conversando com o Fábio Penna, que veio passar a quarentena comigo no interior do Rio Grande do Sul, tivemos a ideia de fazer uma live lendo alguns deles. Era bem despretensiosa no começo, eu lia em uma mesa, mas já tinha cenário, figurino, velas, já tinha um ritual ali, já tinha teatro.

De que forma foi feita a escolha dos textos, todos seguem a mesma linha de temas? A escolha dos textos varia de espetáculo para espetáculo, às vezes, um texto nos dá a encenação, outras vezes, o contrário. No início eu lia somente textos meus, mas com o passar do tempo, alguns autores foram chegando pra nós como complementos das histórias. Leio trechos de Rilke, Milan Kundera, Florbela Espanca, entre outros. Já li um texto belíssimo do ator Rafael Primot, já li um depoimento emocionante de Nizan Guanaes, que peguei no facebook dele, falando da pandemia, já cantei músicas de artistas que admiramos, como o Otto e a Clarice Falcão. Não temos limites, vamos onde nossa imaginação nos leva. E somos uma dupla muito unida na criação, Fábio Penna e eu. Dialogamos bastante, mudamos de ideia quando um de nós tem nova sugestão. Caminhamos lado a lado nessa aventura. Não há um segundo de desprazer nesse trabalho.

Foto: Bob Sousa

E como é a dinâmica do espetáculo, é você em cena e mais um câmera, é feito com celular? Fazemos só nós dois, Fábio e eu, tudo! Usamos um celular, geralmente. Às vezes ele tem que ficar gravando e segurando outro celular próximo à câmera, com uma trilha sonora. No início ele interagia comigo, eu interagia com o público, tinha essa pegada das lives. Como começou a fazer bastante sucesso, fomos percebendo que tínhamos algo potente nas mãos e transformamos em um pequeno espetáculo. Começamos a explorar o enorme jardim, os cômodos do casarão onde estamos. A peça ganhou muito dinamismo e efeito.

A performance é feita ao vivo no Instagram, já aconteceu de cair internet, e se sim, como lidar com isso? Nunca aconteceu, temos uma internet muito boa, um provedor local, a Bcnet. Se isso acontecer um dia, teremos que lidar com naturalidade e voltar em seguida, abrindo novamente a live. Como se acabasse a energia em um teatro, a peça parasse e voltasse de onde foi interrompida. Já aconteceu isso comigo!

Qual a mensagem que você quer passar ao público com Desamparos? Eu nunca tive a intenção nem a pretensão de passar uma mensagem, mas isso acontece naturalmente, desde quando os textos habitavam o blog Pueril. Tem muita poesia no conteúdo e muitas questões existenciais, então, tanto o leitor quanto o espectador é convidado a refletir, a viajar por caminhos de sua essência, caminhos esses que são, por vezes, doces, por vezes, assustadores... A maioria dos Desamparos tem uma natureza bem feminina, as mulheres se identificam bastante. Alguns trazem questões fortes e emocionantes, como o envelhecimento, a solidão, a busca por amor. Tenho um amigo e parceiro artístico, o Fábio Leite, que é um grande músico e compositor, ele já musicou vários textos meus. Um, inclusive já foi executado em um show e ficou lindo! Emocionante mesmo, às vezes eu posto o vídeo, é belíssimo!

Pra você, como atriz, acostumada com o palco e o calor da plateia, o que tem mais aprendido com esta experiência e levará para sempre em sua vida e carreira? Eu sinto falta do calor do público, da respiração, dos suspiros, impossível negar. Até porque nunca fui uma atriz afeita a meios digitais e artes visuais. Sou um pouco puritana, nesse sentido, gosto mesmo de um palco. Nunca tive vontade de fazer televisão, cinema, um pouco. Mas estou bem habituada a essa novidade e me sinto à vontade com essa nova linguagem. O fato de ser ao vivo traz um pouco do calor da plateia, as reações eu vejo depois, assistindo ao vídeo, me emociono sempre! Tem cenas que eu olho e digo: “Se fosse no teatro, nesse momento eu teria sido aplaudida em cena aberta, tamanha é a empolgação do público.” Quando acaba, sempre tem muita gente mandando mensagens, ligando, elogiando. É a nova forma de receber as pessoas no camarim! A dinâmica também se parece com o fazer teatral convencional, tenho figurino, maquiagem, contrarregragem, me concentro antes de entrar em cena...

Foto: Divulgação

Você tem até um “terceiro sinal” bem convidativo, né? Sim, usamos o sino da cidadezinha Barão de Cotegipe, a minha Macondo, como o terceiro sinal! Ensaiamos algumas passagens, passamos os textos, escolhemos, criamos a movimentação, mas tem uma margem de liberdade pra mim, o que torna mais pulsantes as apresentações. Além de ser instigante criar toda semana algo inusitado, temos um público cativo que assiste sempre, porque nunca é a mesma peça, é lindo isso. Pessoas aqui da cidade estão nos assistindo, minhas primas, tios, amigos de infância... Aprendi que podemos nos reinventar sempre e cada vez melhor, porque as experiências pregressas estão tatuadas nas nossas almas e se somam às novas. A arte é infinita.

Acha que esse tipo de apresentação virtual continuará mesmo depois da pandemia, se somará às apresentações tradicionais em teatros, sendo uma forma mais democrática, em que todos poderão ter acesso a espetáculos? Eu tenho certeza disso! O teatro vai voltar ainda mais forte e cheio de possibilidades. As produções poderão ser realizadas nos dois formatos ou algumas presenciais e outras digitais. Teremos mais essa ferramenta. A Cia Os Satyros já inaugurou um espaço digital, já faz uma peça com muitos atores, todas as sextas, sábados e domingos, uma temporada teatral mesmo. Várias outras cias teatrais e produções estão investigando esse território e realizando bons trabalhos também. Mais uma vez, artistas não se acomodam problematizando a crise, mas correm atrás de soluções. Sinto muito orgulho de todos nós.

A cultura já vinha passando por uma crise, censura, “demonização” dos artistas. Como imagina essa volta, a arte sobreviverá como sempre? Tudo está difícil demais nesse país com o atual governo. A cultura e a arte não interessam pra quem está no poder atualmente. Eles não têm nem condições intelectuais pra absorver arte, mas somos guerreiros e guerreiras e estamos resistindo. Sempre resistimos e sempre usamos as crises pra crescer, agora não será diferente!

Foto: Divulgação

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