Rafael Sardão: “Morte da Marielle é sintoma da falta de amor"

“Arrebatado” em trama bíblica, ator é entrevistado pela mulher, Karen


  • 30 de março de 2018
Foto: Júlio Gonzalez


Rafael Sardão é do seleto grupo de atores dos mais requisitados na RecordTV. Nos últimos oito anos vem emendando ótimos trabalhos na emissora. Entre eles, o artesão Uri, de Os Dez Mandamentos, o guerreiro Salmon, de A Terra Prometida, e o médico Tiago Santero, de Apocalipse. Este último, um dos “arrebatados” da trama bíblica, quando pessoas boas são retiradas por Deus da Terra para escapar do Fim do Mundo.

Para Rafael, que iniciou a carreira aos 17 anos participando de óperas como La Traviata, Carmen e Simon Boccanegra, sua trajetória nas artes tem sido construída tijolinho por tijolinho. “Após 20 anos posso ver que esse murinho já está em um metro e meio, mas tem muito a crescer”, ressalta.

E quem entrevistou o ator para o Portal ArteBlitz foi a também atriz Karen Mota (veja no vídeo abaixo), mulher do ator. ADORAMOS! Num papo descontraído, ele fala sobre religião, tramas bíblicas e dá palpite sobre a volta ou não de Tiago Santero à trama. Será?

E ele também desabafa sobre a falta de apoio do poder público ao teatro e avalia que tragédias como a execução da vereadora Marielle Franco tem acontecido por falta de amor e empatia das pessoas.

O médico Tiago Santero, de Apocalipse. Foto: Reprodução Instagram

"No dia da cena do arrebatamento, engraçado, chovia e parava toda a hora. E ventava muito, uma coisa absurda, de arrancar as barraquinhas do cenário. E a gente brincava, 'nossa, Deus veio mesmo'. Então, energeticamente, foi potente a gravação."

O que mais instigou você ao viver o Tiago Santero?

O Tiago é uma história linda de superação, de alguém que vivia dentro das drogas, viciado, e sem nenhum objetivo claro de vida. Criado também por uma mãe sem estrutura, uma família desestruturada. E quando tem uma oportunidade, ao conhecer o pai, uma figura importante na vida dele, apesar de não ter estado no início, quando apareceu, ele pode ajudar o Tiago. E o Tiago, a partir da vontade própria dele de melhorar, de ter um objetivo, ele opta pela vida. Então, é a história de alguém que optou pelo amor, pela continuidade e não pela destruição. Acho isso bonito na história dele, na do Oswaldo, o pai dele, que viveu isso também. De superação, de sair da cadeia e de conseguir se reestruturar. É uma história muito motivadora.

Você acredita nessa força de 'resgate' que a religião pode ter?

Sim, acho que, sobretudo quando nasce dentro da pessoa. Quando a pessoa consegue estruturar uma fé dela, forte, dentro de algo que ela quer, acho que nada é impossível para essa pessoa. Então, acho que se for pela religião, pelo autoconhecimento, pelo acesso a informação, você tendo fé, acreditando, desejando intimamente e de forma verdadeira, você consegue alcançar o que quer. O Tiago é uma história que conta isso.

Qual a sua ligação com religião?

Eu respeito muito as religiões, todas elas. Acho que são fundamentais para as pessoas em geral, cada uma busca uma forma de canalizar o divino, de canalizar essa energia criadora. E nesse sentido, eu acho que todas as religiões são canais para quem quer se conectar com Deus.

No casamento, há um ano, com Karen Mota. Foto: Reprodução Instagram

"A cultura no Brasil vem sendo denegrida, desabastecida pelo poder público. E é peça fundamental na construção de uma sociedade mais justa. Historicamente isso, na Rússia, França, Inglaterra, lugares que apostaram na cultura, hoje tem uma sociedade um pouco mais organizada e menos desigual."

Você tem emendado tramas bíblicas. Que ganhos isso tem trazido a você, não só como ator, mas como pessoa?

Sim, a evolução que a gente tem. A gente tem um privilégio de ser ator e poder ter contato íntimo com outras vidas. O Tiago foi uma outra vida, o Salmon, o Uri, e tantos outros personagens. Então, você tendo a oportunidade de investigar outras vidas de uma forma mais profunda, te leva a investigar a sua própria vida. E te leva a amadurecer, a evoluir espiritualmente, a se conectar melhor com o que tem de divino, o que eu acho que, na verdade, é o amor. Então, a conexão com o amor vai se estabelecendo a cada trabalho que você se dá de verdade, porque isso retorna a você como bençãos.

Como foi gravar a cena tão esperada do arrebatamento?

Foi incrível. O engraçado é que o dia estava chuvoso. E a gente ficou naquele, grava ou espera a chuva passar. E teve um momento que a gente estava nesse chove, não chove, e toda a hora o Zé Carlos (Machado – ator) falava, Deus estava aqui e que ele sentia o poder de Deus. E ventava muito, uma coisa absurda, e arrancar as barraquinhas do cenário, as árvores balançavam. E a gente brincava, nossa, Deus veio mesmo. Então, energeticamente, foi potente a gravação. Pra gente foi bem dentro do clima de arrebatamento.

Tiago volta, pode nos dar algum spoiler?

Olha, eu também queria saber. Se alguém souber aí, me fala, porque eu estou nessa dúvida. Mas eu acho que não, mas eu não sei...

"Sonho em fazer cinema, produzir o meu seriado e da Karen, tem muita coisa... E protagonizar um trabalho na Record, onde eu tenho uma história linda de oito anos. Acho que é um caminho natural de desejo, de amadurecimento, de profissionalização."

O Salmon, de A Terra Prometida. Foto: Reprodução Instagram

Como você vê a ligação desses acontecimentos “apocalípticos” da trama, previstos há 2000 anos atrás, com a vida real, todas essas tragédias, é tudo muito atual, não?

Eu acho que sobretudo no que se fala de tribulações do apocalipse, os momentos em que a sociedade começa a experimentar mazelas. E elas vão brotando em situaçoes cotidianas. Não tenho como não falar da morte da Marielle (Franco), que aconteceu agora, que foi uma execução bárbara, de uma pessoa que era movida pelo amor ao próximo, que se movimentava para ajudar aqueles que estão vítimas de uma sociedade completamente desigual como a que nós temos. Então, a morte de Marielle para mim é um dos sintomas desse apocalipse que a gente vive . Da falta de amor, da divisão, do julgamento do outro. Acho que esse é o caminho da perdição, a falta de empatia, de amor pelo próximo. Jesus Cristo falou isso há mais de 2000 anos, amar ao próximo como a si mesmo. E é talvez o ensinamento mais difícil de interiorizar, de se praticar, de entender. Mas a gente tem que ter fé e atitute para que esse apocalipse não reverbe em você. Essa onda de falta de empatia, de amor, que ela não te contamine. Porque nós podemos ser polos de amor e difusores de amor e isso vai fazer a diferença.

Você começou no teatro aos 17 anos, fez peças, até óperas, e de uns anos para cá tem feito muito TV também. Como avalia sua trajetória até aqui?

Eu avalio como uma parede de tijolos. Vejo minha carreira sendo construída tijolinho por tijolinho. Desde lá no início, trabalhando nas óperas do Theatro Municipal do Rio, onde eu fazia uma comparsaria de grandes óperas, pude ver grandes artistas no palco. Isso já me ensinava. E hoje, 20 anos depois, posso ver que esse murinho já está em um metro e meio, tem muito para crescer. E a ideia é se manter sempre ali, focado em cada tijolinho que a gente vai botar. Porque se colocar um tijolinho podre, chega lá e desaba... Mas isso não vai acontecer, porque os tijolos são fortes, feitos com amor.

Na peça Passional com Karen e Carol Machado. Foto: Reprodução Instagram

"Acho que se for pela religião, pelo autoconhecimento, acesso a informação, você tendo fé, desejando intimamente e de forma verdadeira, você consegue alcançar o que quer. O Tiago Santero é uma história que conta isso."

Sempre que você tem um tempo, você volta ao teatro. Como tem visto essa situação triste toda da cultura no Rio, no Brasil?

É outro assunto triste. Ano passado ficamos duas temporadas com a nossa peça Passional, sem patrocínio, bancando do nosso bolso, contando com amigos que estavam juntos pelo projeto, pela arte. É muito triste, a cultura no Brasil vem sendo denegrida, caluniada, desabastecida pelo poder público. Por determinados setores da sociedade, sobretudo políticos, pessoas que deteêm poder. Essas pessoas vêm desestruturando a cultura no Brasil. Tanto ideologicamente, a partir de mentiras, difamações, calúnias, quanto por dificultar o acesso a financimentos, por diminuir a verba para a cultura. Conheço diversos amigos, grandes artistas, com grandes projetos parados porque não têm verba. Isso é uma perda inestimável para o nosso país. A cultura é peça fundamental na construção de uma sociedade mais justa. Não no Brasil, historicamente isso, na Rússia, na França , na Inglaterra. São lugares que apostaram na cultura e hoje tem uma sociedade um pouco mais organizada e menos desigual. Espero que a cultura tenha em algum momento respaldo de bons políticos para que ela volte a ocupar a importância que deveria.

Qual o seu sonho na carreira?

Nossa, tem tempo? Já realizei muitos sonhos na minha carreira profissional. Fazer 20 anos agora está sendo mais um sonho de conseguir continuar nessa profissão que é tão dificil. Mas tenho sonhos de fazer cinema, bons filmes. Nossa série, minha e da Karen (Mota), importantíssima, e que a gente vai levantar, vai produzir, da mesma forma que a gente faz as nossas peças de teatro. Na garra, na parceria, na união. Esse é outro sonho, nosso seriado. Eu ainda tenho o desejo de protagonizar um trabalho na Record, onde eu tenho uma história linda de oito anos. Acho que é um caminho natural de desejo, de amadurecimento, de profissionalização. Acho que é um lugar que me ensinou muito, onde tenho muito que contribuir e agradecer. E nossos filhos! Tem esse momento também... E teatro sempre, lugar de aprofundamento.



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