Gabrielle Joie: “Espero o dia em que não será preciso ficar reverberando nosso sofrimento”

Atriz revive sua adolescência na solar e destemida trans Michelly de Bom Sucesso


  • 23 de agosto de 2019
Foto: Globo/Estevam Avellar


Por Luciana Marques

*Entrevista completa disponível no vídeo, abaixo.

Quem conversa alguns minutos com Gabrielle Joie é logo cativado pela sua simpatia, beleza e riso solto. Assim como a personagem Michelly, de Bom Sucesso, que marca a sua estreia em novelas, a atriz também enfrentou  questões como as vividas pela jovem trans na novela. “Há uma frustração das pessoas não entenderem realmente o que a gente é. Então eu trouxe muito da minha adolescência pra ela”, conta Gabrielle, que passou pela transição há cinco anos.

Natural de Brasília, a atriz, de 21 anos, primeiro tentou enveredar para a veterinária e medicina. Mas, no fundo, sabia que queria mesmo trilhar a carreira artística. O início foi promissor como modelo e, aos poucos, ela foi descobrindo a paixão por atuar. Autêntica e destemida, diz que procura diariamente ser feliz. E mesmo sabendo da importância da representatividade na TV para a comunidade transexual, Gabrielle espera o dia em que não precise mais de rótulo.

Quem é a Michelly? Ela é uma menina do ensino médio, tem 15 anos, está no começo de transição. Ela é uma menina trans, mas esse não é o foco. Porque ela é uma adolescente, e eu acho que é muito sobre a autoidentificação dela, essa agonia que a gente tem, essa angústia, que a gente tem quando tem 15 anos.

Michelly (Gabrielle Joie). Foto: Globo/João Cotta

Você se identifica com ela? A minha personalidade é muito parecida com a dela. Ela é  muito estabanada, desajeitadinha, muito solar. Uma pessoa que os amigos adoram ter por perto, divertidíssima. Eu adoro a Michelly. Ah, e não leva desaforo pra casa, é daquelas que se você falar, vai ouvir (risos).

Ela sofre preconceito na trama, né? Ela passa muito pelo preconceito dentro e fora da escola. Uma das frustrações de ela não ser vista como realmente é, Sofre o preconceito dentro da sala de aula, dentro do banheiro da escola... Vai mostrar todas essas frustrações que nós, transexuais, sofremos em nosso dia a dia nessa sociedade que nos reprime e no país que mais que mais mata travestis. Enfim, mas a transexualidade ainda não é um ponto na novela. E eu acho que é um horário também que as pessoas podem se solidarizar pela personalidade da Michelly, pela pessoa que é. E muito da história, do que ela passa, é porque ela é estabanada, galanteadora. Então eu tenho certeza que muita gente, não só trans, vai se identificar com a Michelly. Ela é uma pessoa que dá vontade de carregar no colo e cuidar.

Falando sobre representatividade, acho que há muito tempo não se via tantas atrizes trans em novelas como você, Glamour Garcia, Nany People. Queria que você falasse um pouco sobre essa questão... Eu acho que nós estarmos sendo vistas como trans, termos esse rótulo na mídia, em todos os lugares, é uma coisa que pessoalmente não me agrada muito porque é um rótulo. Se a gente está aqui, eu, a Glamour, a Nany, a Gabriela  (Loran), que  fez Malhação, se a gente conseguiu conquistar esse espaço, fora outras muito maravilhosas, é porque a gente é capaz, é perseverante, a gente tem bagagem, tem o que mostrar. Então, eu espero o momento em que a gente não tenha que falar sobre isso, ficar reverberando nosso sofrimento, até porque nós somos pessoas. E eu espero que esse espaço que a gente está ocupando seja a oportunidade para cada vez mais a gente humanizar esse assunto. Afinal, somos seres humanos.

Foto: Globo/Estevam Avellar

O que você acha de um dos temas da novela abordar a efemeridade da vida e também a morte? É muito engraçado a novela ter esse cunho de como a vida é efêmera e de como a gente tem que aproveitá-la, porque eu acho que parte da minha personalidade é ser uma pessoa muito autêntica, muito destemida. É a maneira que eu encontrei de aproveitar a vida, sem medo, quer dizer, medo a gente tem, mas se o medo abafa a nossa vontade de ser feliz, a gente vai viver com o quê? Depressão. É isso que a gente quer? Não! E esse assunto me toca porque eu sinto que sou uma pessoa que procura ser muito feliz, não importa onde estou, com quem. Então realmente aproveitem a vida, só tem uma.

 

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